Ratzinger: o (novo) Papa!

É verdade. Os que ainda tinham ilusões de que a Igreja católica iria usar a sua grande influência em prol da democracia política, social e económica no terceiro mundo; que iria reconhecer um estatuto às mulheres condizente com a Declaração Universal dos Direitos Humanos; uma abertura da Igreja à sociedade que aspira por valores e práticas progressistas no plano cultural e social, todos esses tiveram uma grande desilusão ao saber a verdade negra que se escondia sob o fumo branco na cidade do Vaticano na tarde de ontem.

Parece que resta agora à Igreja católica perder mais e mais seguidores na América Latina, ocupar um espaço cada vez mais radical e, naturalmente, mais marginal na Europa e nos Estados Unidos. Sim, o católico democrata de Bóston, John Karry, não se identifica com os valores de Ratzinger. Sim, o Presidente do Brasil e tantos dos seus companheiros e camaradas de Partido não acompanham o pensamento deste Papa. Sim, muitos católicos progressistas europeus sempre viram naquele Cardeal a expressão das forças reaccionárias no Vaticano que dominaram o papado de João Paulo II.

(Novo) Papa?! Sim, o ideólogo do carinhoso e carismático Papa da Polónia era desde há muito o bávaro Ratzinger. A escalada da Opus Dei no Vaticano; a (no entender de muitos) deturpação do Concílio Vaticano II; um pensamento obtuso e cerrado que cativa poucos e cada vez menos tinham uma assinatura. A que agora dá pelo nome de Bento XVI.

Estaremos atentos agora à diplomacia do Vaticano, às aspirações de certos grupos no domínio económico e às campanhas ideológicas retrógradas no domínio da Bioética.

André Pereira

Comentários

Gravatas disse…
Habemus Papam. O até agora cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, é o novo Papa, tendo escolhido o nome de Bento (é já o XVI). Ortodoxo, defensor da dogmática cristã, é um nome amado por uns, criticado por outros. Tudo, na minha opinião, porque tem a coragem de expressar em voz alta aquilo em que a maioria da alta hierarquia religiosa acredita – e por isso a sua eleição não foi uma surpresa. Algumas notas negativas em relação às críticas:

1- Os críticos gritaram bem alto a sua raiva pela eleição de Bento XVI. Os ataques de alguns foram desprezíveis, pois não dão o benefício da dúvida a um recém-eleito. Além de que mostram um total ignorância sobre o assunto. Este post é mais um exemplo perfeito.

2- Uma das críticas mais risíveis foi a de que Ratzinger tinha sido membro da Juventude Hitleriana – facto assumido pelo próprio. O problema é que, para se perceber melhor a situação, é preciso explicar tudo: Ratzinger nasceu em 1927, e viveu a juventude na Alemanha Nazi. Para quem não sabe, todos os jovens alemães dessa altura pertenciam à Juventude Hitleriana, já que tal era obrigatório…

3- Ratzinger até teve, em relação ao Nazismo, uma atitude bem positiva, que os críticos tendem a escamotear. Ele foi chamado para o exército alemão em 1943, e desertou no ano seguinte por se opor ao Nazismo (o que na altura era punido com a pena de morte).

4- Outra das críticas ouvidas foi o facto do Papa ter sido até agora prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – que é “o organismo que sucedeu à Inquisição e que tem como função zelar pela ortodoxia da transmissão da fé católica”. Com isso pretendem chamá-lo inquisidor. Ora a Inquisição foi das maiores vergonhas da Igreja Católica, vergonhas essas que nunca devem ser esquecidas, mas a Inquisição já acabou, e o próprio João Paulo II já pediu perdão pelas atrocidades cometidas pela mesma. Comparar o incomparável é intelectualmente reprovável, e seria o mesmo que dizer que todos os alemães, hoje em dia, são nazis, ou que todos os árabes são terroristas.


Não sei se Ratzinger foi a melhor escolha, pois não conhecia a maior parte dos outros cardeais, nem conheço muito bem o próprio – e até estou em desacordo com muitas das ideias que ele defendeu ao longo dos anos. Mas penso que é mais sensato esperar para ver, para se poder criticar depois.
Miguel Oliveira disse…
O ultra conservadorismo de Ratzinger não abona nada ao mundo.. Há aqui algo de estranho: como é que os Cardeais acabaram por escolher esta personalidade? com o seu passado?
.. aqueles que viram na sentida morte de João Paulo II uma esperança vêm-na como um desperdício..
Os cardeais escolheram um pastor alemão para guardar o rebanho e zelar pela pureza da fé.
É um direito que lhes assiste.
Nós, Portugueses, é que não podemos ficar indiferentes à ausência de liberdade religiosa que existe em Timor onde a ICAR impõe um totalitarismo ideológico contra o qual fica mais difícil lutar depois da eleição do último chefe da Inquisição (Prefeitura para a Sagrada Congregação da Fé).
marioruivo disse…
Hoje ouvi na rádio que é bom ser alemão nos tempos que correm, porque quando morrem já podem optar a quem meter cunhas: para o Céu, ao Papa; para o Inferno, a Hitler.
eliana pinto disse…
Assumo. Fiquei desapontada. Tinha esperança no real contributo da igreja católica neste "mundo novo". Afinal, mais uma vez, a igreja não está à frente da sociedade como é seu suposto dever.
Anónimo disse…
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