Óbvio ululante

"Cavaco está a entrar em zonas politicamente perigosas, ao dizer que não lhe cumpre apenas diagnosticar os problemas, mas também apontar 'os caminhos'?"

Paulo Ferreira, "Jornal de Notícias", 07-04-2009

Comentários

Não teria sido nada mau para Portugal, se o senhor Presidente tivesse apontado os caminhos adequados, na década em que chefiou o governo.
Era o tempo em que começou a enxurrada dos fundos, e em que deviam tomar-se as decisões que haveriam de iniciar a modernização do país.
Mas trocaram-se os prazos da agricultura por dinheiro, condenando-a à inexistência; sacrificaram-se as pescas no altar da ganância; pendurou-se na forca a pouca indústria.
A incompetência dos governos cavaquistas fez de Portugal um país rico, com uma varinha de condão. Era o tempo do oásis, e do país do sucesso, em que se sabotou a ferrovia em favor da camionagem privada, e de tudo o que fosse betão e auto-estrada.
Inchou o clube dos gestores que levaram muitas empresas à ruína, e se transformaram em barões que governaram a vidinha.
Os portugueses em geral encheram o peito com os ares do tempo, deixaram-se convencer pelo milagre, acreditaram na fábula do pelotão da frente, e dispuseram-se a ser depenados pela usura dos senhores da finança.
Nada que mereça nota, e que era fundamental, se realizou na educação, nem na justiça, nem na economia, nem na cultura, nem na mentalidade indígena. Às pechas tradicionais juntaram-se vaidades, negociatas e oportunismos novos.
Quando o reinado cavaquista acabou, o país estava sufocado, como ainda se lembra quem não perdeu a memória. E o próprio presidente do conselho se deu conta de que estava rodeado dum partido de alimárias, de oportunistas e de figurões pouco sérios. Por isso os sujeitou a um tabu que durou um ano. No fim tirou-lhes o tapete, e deixou o partido numa orfandade de que ainda não saiu, para nossa actual desgraça. Resta dele um concílio de barões pouco recomendáveis, e uma clique de esquerdistas reciclados, que deixaram de mijar na cama quando aprenderam a ler as citações do Mao.
Guterres veio a seguir, inevitavelmente, porque o país estava cheio das competências do professor Cavaco. E sendo embora o governante mais bem formado, mais culto, mais humanista, mais sério e mais cosmopolita que Portugal já teve, Guterres só demonstrou que isso não chega para ser um bom governante, e evitar erros crassos, como a barragem do Côa, as portagens da CREL, e sobretudo o regabofe dos caciquismos locais, e dos homens das rotundas, e outros megalómanos que nunca faltaram na paisagem portuguesa.
As más opções anteriores e os interesses instalados já tinham a via aberta, e Guterres não quis, ou não soube, ou não pôde fazer alterações à rota. Quando viu que o saco tinha fundo, fez o que faz qualquer tipo decente e renunciou ao poder.
O rústico democrata algarvio entretanto mudou de ares, e deixou poisar a poeirada. E volta agora, do poleiro doirado e inócuo de Belém, a soltar lamentações de crocodilo, e a lançar tiradas sobre as gerações dos nossos filhos, que o deixam muito preocupado. É um bom seringador, o nosso Presidente. O que não faz de nós todos, é claro, coisas muito melhores do que ele! Mas isso já é outra questão.
ana disse…
Jorge Carvalheira:

Na minha opinião foi exactamente isso que se passou. Não suporto ouvir as lamentações do homem, com aquele ar sério e protector, como se não fosse responsável por coisa alguma. Ficará na história apenas como mais um saloio esperto, que se deliciava a ver as vacas caminharem para a ordenha.
FPtrad disse…
Não gosto do Cavaco Silva e nunca gostei dele, nem como presidente da república e ainda menos como primeiro-ministro.
No entanto, ele fez algo que aplaudo inteiramente: vetou o fim do voto por correspondência dos emigrantes.
FPtrad:
Eu também aplaudiria, se ele tivesse ao mesmo tempo vetado as chapeladas eleitorais, que são feitas à pala desse princípio, à primeira vista inatacável.
FPtrad disse…
Pois sim, Jorge, mas quem teve essa ideia de acabar com os votos por correspondência não faz ideia do que se passa no estrangeiro: é que há muitos emigrantes que vivem longe dos consulados e não têm possibilidades de ir quando lhes apetece. Vivo em França, por isso sei do que falo.

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