A procissão abreviada (Crónica)


Regressei às origens para um almoço com familiares e soube dos malefícios do tempo sobre as cerimónias litúrgicas.

Nesta segunda sexta-feira de Abril houve procissões, um pouco por todo o país, para chamar ao redil da fé os crentes que se espantam durante o ano e os curiosos que se aproximam nesta época.

É uma procissão temática, como todas, mas a procissão do Enterro do Senhor obedece a uma cuidada coreografia e à mobilização de recursos que fazem do evento um sinal pio de que a fé está para lavar e durar, como soe dizer-se.

Para durar, não sei, mas, para lavar, provou-o o céu a desfazer-se em água, a desabar em bátegas que dissolveram a procissão e escorraçaram os andores. Fugiram, transidos, os anjinhos, e desembestaram os mordomos a caminho da igreja a pôr a salvo os andores. O Senhor dos Passos, com espinhos bem cravados, para não perder a coroa, com a cruz pesada, viu passar os andores que deviam prestar-lhe vassalagem e ficou para trás, com mordomos ofegantes, a gemerem com o peso da charola, do Cristo e dos adereços. Foi o último a chegar, sem os padres, porque um pregador que não era de perto, nem de graça, ia falar do martírio do seu deus, a quem a borrasca encurtara o passeio, num outro sítio onde os escuteiros mostravam as fardas e a fé.

O Senhor dos Passos, a estrela da confraria, não ouviu o sermão encomendado porque, antes de chegar ao Gólgota, recolheu à igreja paroquial sem que alguém o aliviasse da coroa de espinhos e do peso da cruz. Não ouviu a história das amêndoas da Páscoa que o pregador lhe dedicou.. Não o ouviu, é certo, mas o pregador disse aos paroquianos que se protegiam sob os beirais das casas, que na amêndoa, naquela que se colhe da amendoeira, que se liberta da casca verde e amarga, se esconde dentro da casca grossa o fruto doce que é Jesus. Não importa que seja semente, embora chamado fruto seco, na religião contam as metáforas e é difícil haver sermões inovadores porque a liturgia e o mito vivem juntos e os pregadores recorrem aos clássicos.

Um incréu terá pensado que a amêndoa representa um deus amargo, escondido na casca grossa, mas nestas coisas da fé a verdade é irrelevante e as palavras são pretexto para prolongar rituais enquanto se mantém a devoção. O padre recorreu à morfologia da amêndoa para sugerir a analogia do deus que se oculta na casca dura que o esconde e protege.

Molhados e com a alma lavada, os que resistiram disseram que foi bonito o sermão, não sendo original, porque a amêndoa é mais antiga do que os rituais pagãos e judaicos que rondam o equinócio da Primavera e deram origem à Páscoa cristã, e os sermões são o ganha-pão dos pregadores que se repetem e plagiam.

A tempestade que afligiu os devotos foi maldade do céu.

Comentários

Julio disse…
Adorei [sic] ler este desabafo sarcástico, muito lindo, mas a sentença “O Senhor dos Passos, com espinhos bem cravados, para não perder a coroa,” foi gloriosa!
Os penitentes, claro, conseguiram, molhados que nem pintos, mais uma dúzia de indulgências a contar para a fuga do Purgatório!
Ó Portugal que vítima da Sé vitimas os padecentes atrás do andor em pé!!
Mano 69 disse…
«- Responder às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista e humanista.» sic, Carlos Esperança em post anterior.

Será que CE já está a colocar em pratica um dos objectivos da AAP?

- O abalroamento cientifico:
«Nesta segunda sexta-feira de Abril houve procissões, um pouco por todo o país, para chamar ao redil da fé os crentes que se espantam durante o ano e os curiosos que se aproximam nesta época.»

- O abalroamento racionalista:
«(…) porque a amêndoa é mais antiga do que os rituais pagãos e judaicos que rondam o equinócio da Primavera e deram origem à Páscoa cristã, e os sermões são o ganha-pão dos pregadores que se repetem e plagiam.»

- O abalroamento humanista:
«O Senhor dos Passos, com espinhos bem cravados, para não perder a coroa, com a cruz pesada, viu passar os andores que deviam prestar-lhe vassalagem e ficou para trás, com mordomos ofegantes, a gemerem com o peso da charola, do Cristo e dos adereços..»


A estória sem moral: O magnífico comandante Carlos Esperança, conhecido no milieu etéreo pelo cognome de Mata-frades II, timoneiro sem rival de um vaso (de noite?) denominado AAP faz a abordagem do navio inimigo e sem contemplações, passa tudo e todos pelo fio da sua espada.

- Mais uma garrafa de rum e uma bifana para mesa do canto sff, pago eu!

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