Presidência da Comissão Europeia

1. As coisas aquecem no PS relativamente ao apoio a Durão Barroso. Agora Manuel Alegre e Paulo Pedroso contestam o apoio a Durão Barroso, defendendo, como Vital Moreira, que caso o PSE ganhe as eleições, deverá ter um candidato próprio.

2. Não parece provável, segundo as projecções existentes, que o PSE alcance uma vitória, sendo que no entanto, progredirá em eurodeputados face ao PPE (que aliás enfrenta a secessão dos conservadores britânicos). Os partidos federados no PSE não estão, segundo as projecções, a conseguir capitalizar votos com o descontentamento do eleitorado face às políticas económicas ultraliberais defendidas pelo PPE, votos que serão previsivelmente captados pela extrema-esquerda (EUL/NGL) e pelos verdes, que alargarão o seu grupo parlamentar. Parece portanto que, salvo alguma reviravolta de última hora, que Barroso estará numa situação favorável quanto à sua recondução.

3. No entanto, tudo dependerá da posição do ALDE, o partido liberal europeu, que aumentará previsivelmente o seu peso relativo no Parlamento Europeu. Os partidos "liberais" na Europa, segundo algumas projecções, poderão captar muitos votos resultantes da hemorragia dos partidos conservadores, que estão no poder em muitos estados-membros. Este partido poderá sentir-se tentado a alterar o status quo até agora existente da alternância entre PSE e PPE na escolha do presidente da Comissão.

4. Tal acontecendo, dois cenários serão possíveis: os liberais poderão tentar colocar um candidato seu, servindo de fiel da balança entre PPE e PSE. Esse candidato poderia ser Guy Verhoefstadt, Primeiro Ministro da Bélgica, pessoa competente e com muita experiência na construção de consensos e coligações difíceis (afinal é Primeiro-Ministro da Bélgica desde 1999, tendo conseguido o impossível, considerando o panorama político belga, obtendo coligações entre flamengos e francófonos, conservadores, socialistas, soberanistas e liberais). Um tal candidato (se Verhoefstadt para isso se disponibilizasse, claro) poderia retirar a Barroso muitos apoios dos estados membros. Para já, porque Verhoefstadt, como centrista, poderá gozar de um apoio político mais alargado. E ainda porque é um estadista com enorme capacidade de consenso e compromisso, um verdadeiro especialista em horse-trading. Finalmente, porque goza de grande prestígio entre os seus pares no Conselho da UE. E porque a Bélgica é um país pequeno.

5. Se, no entanto o PSE conseguir um excelente resultado eleitoral, ou se por milagre conseguir uma base de apoio entre socialistas, liberais, verdes e esquerdistas para um candidato seu, o candidato ideal será Poul Nyrup Rasmussen, ex-Primeiro Ministro da Dinamarca e actual presidente do PSE (não confundir com Anders Fogh Rasmussen, que sai agora de PM da Dinamarca para se tornar Secretário-Geral da NATO). Poul Rasmussen é uma pessoa de grande idoneidade, economista de profissão, uma figura de destaque da Social-Democracia Escandinava, e que poderia contar com uma base alargada de apoio político. Já em 2007, este político escrevera um livro, "Em tempos de ganância", criticando e assinalando os riscos colocados pelos "hedge funds" e o "venture capitalism" na economia global. Em suma, seria o homem certo para o momento certo.

6. Na maioria dos países da UE, os eleitores votarão (os poucos que forem votar) normalmente com base em questões internas, premiando ou penalizando os partidos nacionais, sem terem em consideração o que verdadeiramente está em jogo. Por um lado por falta de esclarecimento (e desinformação) , uma vez que frequentemente os partidos políticos recorrem à chicana política para transformar este acto eleitoral em instrumento de sanção ao Governo local ou de barómetro político para questões internas. Por outro lado, por desinteresse, entendendo que o PE é um órgão irrelevante. A decisão final sobre o Presidente da Comissão poderia ser uma forma de credibilização deste órgão, e os partidos por toda a Europa poderiam fazer passar a ideia de que o seu voto contará também para a decisão dessa presidência. Estou a pensar em slogans tais como "Quer mais Durão? Ou alguém que leve a Europa avante?".

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