Eleições/2009 – Fujam, vêm aí os independentes


Vêm aí três eleições, europeias, legislativas e autárquicas, uma rara oportunidade para momentos de elevação cívica e confronto democrático cuja subversão apenas agravará a desconfiança popular na política e nos políticos.

Lugares bem pagos, de relevo social, com capacidade de alterarem o interesse colectivo em benefício particular, podem transformar o confronto dialéctico das ideias em lutas desesperadas por lugares públicos.

Não será difícil ver caciques a mudar de cor, videirinhos, a disputar lugares elegíveis, pusilânimes, a combinar apoios a troco de lugares para benefício próprio ou de amigos e protegidos.

Contrariamente à opinião generalizada e à decisão dos partidos políticos com assento parlamentar, sempre receei as listas de independentes e suspeitei dos independentes nas listas. Sob a capa da independência podem ocultar-se conveniências e perversões.

Os partidos podem ser penalizados a nível nacional pelo comportamento vergonhoso ou desonesto dos seus candidatos a nível local, mas quem pune os «independentes» que solidamente se instalam em redes de interesses locais? Comissões de independentes, com discursos populistas e vagamente fascistas, têm grandes probabilidades de êxito a nível autárquico porque só respondem perante grupos de apoio e os interesses tribais que representam.

Um ex-vereador que encabece a lista de um partido concorrente é provavelmente um trânsfuga, sem ideologia, sem pudor e sem honra, a dizer que está acima dos partidos e que só lhe interessa o bem do povo.

A regionalização está por fazer. Cinco regiões, necessárias e suficientes, continuam a ser uma obrigação constitucional adiada, enquanto 308 concelhos e 4261 freguesias são arenas onde se jogam vaidades, arriscam carreiras e disputam empregos.

De muitas pugnas vão estar arredadas a honra e a ética republicana. Nos tempos de crise por que passamos haverá lutas tribais mortíferas no Portugal profundo. O entusiasmo da política dará lugar, no desespero por um posto remunerado, a lutas cruéis nos pequenos municípios.

Os independentes não contribuem , como se diz, para aproximar os eleitores dos eleitos, vão trazer à superfície o pior que a aflição e a cobiça, reunidas, são capazes.

Comentários

e-pá! disse…
CE:

Por outro lado, há o reverso da medalha.

A possibilidade de se constituírem "listas de independentes", nas eleições nas autárquicas, pretendia - também - aliviar o sufoco, a asfixia e o abafamento das iniciativas livres e cívicas, em que o exclusivismo partidário - não fujamos a realidade - e o caciquismo instalado, persistente, dinossaúrico, tinha conduzido (e confinado) os municípios.
Tudo estava (partidariamente) controlado:
...a iniciativa popular, o associativismo (excepção para o futebol), o “empreendorismo” social (prefiro “empreendorismo” a caridade) das Fundações e IPSS’s…, etc.

Foi, neste campo autárquico, que apareceram os pequenos/grandes escândalos administrativos e financeiros, situações de irregularidades e favorecimentos, como uma elevada percentagem de casos suspeitos de corrupção activa e passiva - assim o denunciou o Prof. Saldanha Sanches (que continua em casa à espera do processo que lhe ia mover F. Ruas...).

Afinal, na escuridão das nossas ingénuas convicções existia um profundo bluff.
A ganância devoradora do dinheiro e a prática de actividades especulativas e ilegitimas, estavam sediadas em algumas instituições financeiras, capitaneadas por ex-governantes, com particulares raízes no Centro- Direita, nomeadamente, naquilo que se convencionou chamar o "período cavaquista".

A verdade é que, fora dos partidos, não há movimentos cívicos organizados para intervirem nas comunidades concelhias (política, económica, social e culturalmente) e, no desenvolvimento de um profícuo trabalho associativo acabarem por, naturalmente, disputarem o Poder Local.
Os movimentos cívicos "independentes", quando aparecem são reactivos.
Dirigem-se contra qualquer decisão ou orientação partidária (todos os partidos têm disso no seu curricula) que favoreceu, ou prejudicou, um grupo com interesses particulares.
Ou, então, servem para retirar todo o tipo de democraticidade partidária, impondo regras e exigências que, quando não são acatadas pelos orgãos regionais ou concelhios ou satisfeitas pelos estruturas nacionais, dão origem a candidaturas "independentes", como Fátima Felgueiras, Isaltino Morais, Ferreira Torres, Valentim Loureiro... (para citar os figurões mais mediáticos)
São de facto candidaturas fracturantes, com um denominador comum.
Todos são arguidos...

Mas isto sucede, também, porque todas as tentativas de desenvolvimento e criatividade cívica de origem popular, são rapidamente canibalizadas pelos partidos tradicionais. À vista de todos ou encapotadamente.

Durante anos temi que o Poder Local caísse nas mãos dos homens da construção civil. A crise económica veio afastar essa minha hipotética ameaça.
Já antes, e antecipando essa crise, tinha caído nas mãos de arguidos, vários... já constituídos ou a constituir futuramente [*]


[*] - Eu conheço qual é o estatuto de arguido. Apesar disso, não o desejo, pessoalmente, nem penso que seja uma condecoração a exibir na lapela…

Mensagens populares deste blogue

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo

Coimbra - Igreja de Santa Cruz, 11-04-2017