AAP - Exposição/Reclamação

Na sequência do programa da Antena 1 - Pano para mangas – Excesso de zelo – João Gobern, a AAP enviou a seguinte mensagem ao Senhor Provedor do Ouvinte:


Exmo. Senhor Provedor do ouvinte

No programa de hoje (ontem) «Pano para mangas» o Sr. João Gobern, certamente por não ter compreendido o comunicado da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) refere-se à «insuportável intolerância» dos «ataístas» e à «precipitação do comunicado» em que os ateístas se insurgem contra a participação de figuras do Estado na Comissão de Honra para a canonização de D. Nun'Álvares Pereira.

Apesar de nos acusar de lermos pouco e de nos recomendar um voto de silêncio, voto esse que nem a ditadura conseguiu impor a alguns de nós, o Sr. João Gobern confunde o que são as convicções pessoais do Sr. Presidente da República que – como diz – nunca escondeu, com a representação do Estado e o respeito que lhe devem merecer as outras crenças, descrenças e anti-crenças dos portugueses.

O problema não é o cidadão Cavaco Silva ser ou não ser católico, o problema é o Chefe de Estado ir a uma peregrinação ao Vaticano em representação de Portugal. Não cabe ao Estado decidir qual é a religião verdadeira, nem ao PR, ao presidente da AR e aos ministros, associarem-se à distinção conferida por uma religião particular a D. Nuno, por ter curado a queimadela do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, feita com óleo fervente de fritar peixe.

Não discutimos o panegírico de João Gobern ao Condestável nem à prudência da Igreja católica por ter demorado tantos séculos a canonizá-lo, assunto sobre o qual lemos o suficiente para saber a razão.

Cremos mesmo que o comunicado da Associação Ateísta Portuguesa apenas serviu de pretexto à homilia do jornalista, à genuflexão à sua Igreja e à subserviência ao Vaticano. Em nome do pluralismo de opinião, pedimos à RDP que nos conceda o direito de resposta, quer ouvindo a Associação Ateísta Portuguesa, quer divulgando a nossa opinião que, aqui, reiteramos:

1 – O Estado laico é a condição essencial de uma democracia e, na opinião da AAP, fica irremediavelmente comprometido com a participação do PR, em nome de Portugal, numa cerimónia de canonização, estabelecendo uma lamentável confusão entre as funções de Estado e os actos pios do foro individual.

2 - A AAP entende que o prestígio do Condestável não se dilata com o alegado milagre e que, se deus existisse, podia mais facilmente ter evitado os salpicos do óleo que queimaram o olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, enquanto fritava o peixe, do que ter de a curar para o beato virar santo.

3 – A AAP duvida da capacidade de um guerreiro morto, apesar de ilustre, para actuar como colírio e duvida de D. Guilhermina, que se lembrou de recorrer à intercessão de um herói, sem antecedentes no ramo dos milagres, em vez de procurar um oftalmologista. E, finalmente, repudiamos que a peregrinação pia seja a expensas do Estado português.

Carlos Esperança (Presidente da Direcção da AAP)

Comentários

Julio disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Julio disse…
Além disso, meus caros senhores estadistas católicos romanos, a beatificação [ou o que quer que lhe chamem] desse Dom Nuno ou o que quer que lhe chamem, além de ser estabelecida em temas não empíricos, é executada por um estado ESTRANGEIRO, com o fim de NEGOCIAR a credulidade humana de outro e daí tirar vantagens económicas e angariar fundos para perpetuar a ofensa! Um abuso intelectual e emocional contra um povo que continua afundado em superstições inaceitáveis do Obscurantismo Retrógrado de há sete séculos, isto no século 21!
Ora, o nosso presente Presidente vai contra os princípios intelectuais que lhe ensinaram no treino para o cargo que agora ocupa!
Merecíamos um Presidente MENOS papista, que raio!
andrepereira disse…
Seria bom ouvir o Colégio de Especialidade de Oftalmologia! Com a falta que há destes especialistas em Portugal, graças à acção política do Primeiro-Ministro Cavaco Silva nos anos 80 e 90, só nos faltava agora termos que andar com umas mezinhas para curar os olhos....
FPtrad disse…
Concordo a 100 000% com este texto do Carlos Esperança e faço minhas as palavras dele.
FPtrad disse…
Esperem aí! O João Gobern não é/era um jornalista ligado à música? O que raio anda ele a fazer agora para ir fazer declarações destas à rádio? Arranjou algum tacho?

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