As gralhas e a imprensa

Só quem não escreve está ao abrigo das nódoas que escorrem para o mais fino bragal da prosa, e só quem não lê escapa a tropeçar nelas.

Não me refiro às derrapagens da sintaxe e à prevaricação ortográfica da nossa iliteracia, recordo as gralhas que perpetuam a glória de uma marca de colchões ou a que provocou a apreensão do Primeiro de Janeiro, quando em caixa alta, em 1963, ocupando todas as colunas da primeira página, quis anunciar que «Reuniu ontem a Assembleia Nacional para apreciar as contas gerais do Estado relativas ao ano findo» e a falta de uma letra transformou a notícia sobre o parlamento fantoche em manancial de humor nacional.

Eça escreveu uma crónica saborosíssima sobre uma partida feita ao Times onde a prosa circunspeta do diário londrino foi trocada por uma enxurrada de obscenidades que uma loura criancinha lia, na sua inocência, ao avô, major reformado de Sua Alteza Real.

O que se adivinha, na descrição de Eça, deixa a perder de vista as gralhas atribuídas ao Diário de Coimbra pela maledicência autóctone ou pelo descuido dos tipógrafos quando atribuiu a morte da criança de três canos a um acidente com uma arma de dois anos, em Ançã, ou «a falta de luz na Rua Visconde da mesma» a avaria no cabo axial da Adémia.

Recordo-me de ter apanhado um número do simpático «Pravda da Sofia» em que a data era completada, como sempre, pelo dia da semana, sendo a edição de «Sábado-Feira», a deixar para a posteridade a marca indelével da zincogravura.

Diz-se que a melhor gralha da imprensa portuguesa pertence a uma  gazeta do tempo de D. Maria II que noticiou a deslocação da ‘Tainha’ a um qualquer destino para, desolada, no número seguinte, pedir desculpa à Real Soberana por ter escrito no número anterior «Tainha em vez de Bainha», referindo-se à Augusta Senhora.

O prestigiado diário El País recordou esta semana as suas próprias gralhas e publicou o recorte de uma que aqui deixo para deleite dos leitores.



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