Lampedusa, o sonho incerto de um trágico pesadelo

Lampedusa foi o paraíso do arquipélago das Ilhas Pelágias onde 5 mil habitantes e 20 km quadrados recebem turistas, ali, a meio caminho do curto espaço entre a Tunísia e a Sicília, com águas cálidas do Mediterrâneo a percorrer-lhe as praias e o sol a dourar os corpos de veraneantes privilegiados.

Hoje, com monótona regularidade, é a linha do horizonte onde se fixam pela última vez os olhos de milhares de náufragos, antes de os tragar a água do mar. Viajam em frágeis embarcações que os agiotas abandonam, depois de os espoliarem dos últimos pertences, para aguardarem desidratados e famélicos o milagre de um resgate pela guarda costeira italiana. Quase sempre as crianças acompanham no abraço das mães o mergulho mortal.

O Canal da Sicília é o sarcófago onde repousam restos das embarcações que arrastam no mergulho letal viajantes sem nome e sem pátria, com pulmões cheios de sal e água, sem direito à vida.

Vêm de países destruídos pela guerra, expulsos pela fome, o medo e o ódio tribal. Não sabem para onde vêm nem por onde andaram. Trazem apenas o sonho de não morrerem, com crianças que querem salvar, sem outro horizonte que não seja a terra firme onde um copo de água e um naco de pão lhes prolonguem a esperança.

Lampedusa é o sonho dos que nasceram no continente errado, à mercê de infames que a avidez do mando tornou algozes, joguetes de interesses geoestratégicos e da banalização da apatia e da morte.

E nós, tolhidos pelo medo, aturdidos com a incerteza do nosso futuro, somos incapazes de um gesto fraterno, esquecemos quem morre sem ser ouvido, com gritos perdidos nas ondas, gente sem lágrimas, raiva e força para se manter à tona do mar que os devora.

Maldito mundo!

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