Adriano Moreira – cúmplice fascista reabilitado – 97.º aniversário

Comemora hoje 97 anos e desejo-lhe longa vida, mas quero pronunciar-me sobre este académico ilustre, de passado pouco recomendável, antes de ser adulado no futuro, e elevado aos altares quando o seu deus for servido de o chamar à divina presença, ao contrário dos ateus que se limitam a morrer quando a vida se extingue.

É preciso fazê-lo, não porque o homem, lúcido e inteligente, não continue a escrever bem e a pensar mal durante mais tempo. Não desejo a antecipação das cerimónias fúnebres, do cortejo das carpideiras e dos elogios generalizados, como tem sucedido, com outros vultos pouco recomendáveis.

Convém fazê-lo agora, por dois motivos, porque posso antecipar-me ao ministro fascista na defunção e porque, como senti no passamento de J. H. Saraiva, não se pode dizer mal de um morto que ainda mal fede. Mesmo depois, esquecidos os crimes, acabam por ser pessoas de bem, com missas sazonais a sufragar a alma, essa benzina que desencarde o passado do pior defunto.

Adriano Moreira foi também ministro de Salazar e não podia ignorar as torturas da Pide, as prisões sem culpa formada, as medidas de segurança, a violação da correspondência, os degredos, os Tribunais Plenários e as enxovias do regime. Era um homem inteligente e informado. Sabia que a Pide matava. Aliás, como subsecretário de Estado do Ultramar (59/61) e ministro da pasta (61/63) foi o responsável da polícia política nas colónias.

Hoje já poucos se lembram de que foi ele quem assinou a portaria que reabriu o Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, dessa segunda vez destinado aos presos dos movimentos de libertação das colónias. Preferem lembrar que foi democrata na juventude e no pós-guerra, quando, após a derrota do nazi-fascismo, a Inglaterra prometia acabar com todas as ditaduras europeias e Salazar e Franco tremeram.

Quando a cadeira livrou Portugal do ditador de Santa Comba foi em Adriano Moreira, além de Marcelo, que os próceres da ditadura pensaram. Era um bom académico? – Sem dúvida, como Marcelo. Mas como ministro do Ultramar, para lá da reabertura do campo da morte lenta do Tarrafal, não teve conhecimento dos atos bárbaros com que as Forças Armadas Portuguesas responderam à crueldade da primeira sublevação em Angola? Ou defendia a pena de Talião? Foi no seu tempo que se cometeram algumas das mais cruéis punições militares. Não tinha força para as impedir? Mas foi determinado a demitir o general Venâncio Deslandes de cuja fidelidade desconfiou.

Depois do 25 de abril de 74 foi militante do CDS e seu presidente. Quando o CDS, por ser excessivamente reacionário e antieuropeísta foi expulso da Internacional Democrata-Cristã Europeia, o político Adriano Moreira demitiu-se ou ficou com Paulo Portas?

Não há a mais leve suspeita nem o menor indício de que seja democrata, e não faltarão Cavacos, Relvas, Coelhos e Marcelos, talvez vestidos de gatos-pingados no funeral, nem lugares-comuns a incensarem o «patriota», o académico e o «democrata», entre os que, à falta de melhor, se engalanaram com as penas da democracia.

Apostila – Texto adaptado do que escrevi há 7 anos, no 90.º aniversário.

Comentários

e-pá! disse…
O 'branqueamento' (político) do Prof. Adriano Moreira já começou há pelo menos 8 anos, senão mesmo antes...

A atribuição do título de 'doutor honoris causa' pela Universidade do Mindelo (Cabo Verde), há 8 anos atrás (2011), foi um gesto que caiu mal no arquipélago (ex-colónia portuguesa) e levantou protestos porque, na verdade, a atribuição da honraria é um insuportável desrespeito pela identidade cabo-verdiana. Pior, para além de desrespeito, é uma autentica violência.

De facto, o grosso da 'intelligentzia cabo-verdiana' - muitos deles envelhecidos mas ainda com memória - passou pelo Campo de Trabalho de Chão Bom, uma eufemística designação para o velho Campo de Concentração do Tarrafal, na verdade um local de extermínio (das pessoas e da promissora cultura africana alinhada com a libertação das colónias portuguesas).
Este crime contra a Humanidade não surgiu do nada ou do além...
Todos aqueles que - direta ou indiretamente - labutam pelo apagar da memória ou pela inculcação da história merecem ser referenciados e denunciados (como o post faz).

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