ITÁLIA: golpe, contragolpe e encruzilhada europeia …


 Um ‘rebuliço neofascista’ varre o continente europeu. As recentes alterações  políticas ocorridas na Hungria, Polónia, Áustria onde a Extrema-Direita fascizante chegou ao poder, acrescidos de outras situações ameaçadoras que se desenham em múltiplos países europeus (França/Front National, Alemanha/AfD, Reino Unido/UKIP, Holanda/FVD, Finlândia/ Verdadeiros Finlandeses, Espanha/VOX, …) são verdadeiramente preocupantes para a sanidade e preservação de um ‘ambiente democrático’ europeu.

A Itália deve (pode) ser considerada (e tratada como) um caso à parte. Daí podem decorrer outros perigos já que se trata de um país especial, isto é, onde a Europa, no século XX, observou displicentemente a natividade do fascismo.


Na realidade, o fascismo é mais um dos produtos (tóxicos) da I Guerra Mundial (1914-18) que, na época, esteve na génese de violentas dissidências - que a participação neste belicoso, sanguinário e destrutivo conflito europeu do início do século XX - gerou nos movimentos ideológicos de Esquerda (socialistas e comunistas) e foi abrindo caminho à génese fascista.

A Itália para além do berço do fascismo - o que per si tem relevância história – é, simultaneamente, o país do ‘Risorgimento’, movimento unificador nacional, capitaneado pela burguesia romana e tramontana sob a batuta de Garibaldi, à margem do elemento popular e enfeudado a conceitos nacionalistas que o tempo tem demonstrado dificuldades na sua digestão. Esta unificação geográfica alcançada sob os auspícios da Casa de Sabóia não correspondeu à criação (automática) de uma identidade nacional.


Existia – e ainda existe - uma brutal clivagem entre o Norte próspero e industrializado e o Sul agrário e empobrecido que alimentou disputas e confrontos no seio de um Estado fragilizando, socialmente desorganizado e pouco coeso em questões de identidade. O fascismo de Mussolini nasce destas fragilidades e impõe um Estado autoritário, repressivo e dominador no sentido em que exerce o poder absoluto, isto é, para além de abolir as instituições democráticas, nomeadamente o Parlamento, condiciona ainda o modo de viver dos cidadãos com posturas xenófobas, homofóbicas e anti-sociais.

A Liga Norte de Matteo Salvini alimenta-se dos mesmos ‘valores’ e das mesmas contradições embora a situação seja hoje substancialmente diferente da dos anos 20 do século passado. Mas não é furtuito, nem ocasional, que a Liga Norte tenha nascido com uma marca regional e alimente a velha e dicotómica confrontação entre o Norte e o Sul, isto é, é a resposta que a Direita ultraconservadora arquitectou para o País em que se pretende, em última análise, uma férrea subordinação dos mais fracos aos mais fortes.

No fundo, a Liga Norte pretende alterar o regime – e não só as políticas - defendendo uma espécie de espúria confederação onde o Norte teria a preponderância política, institucional, social e cultural. Isto é, o Norte seria a ‘componente superior’ do sistema. Trata-se de um projecto interventivo, paternalista, que ‘necessita´ à cabeça um dirigente todo-poderoso, isto é, um chefe (duce) incontestado, quiçá, infalível e inamovível, muito ao estilo dos anos 30.

O ‘golpe’ intentado por Matteo Salvini deve ser encarado como a antecâmara de um golpe de Estado faseado que se inicia com o derrube do governo M5E + LN, mas não termina aí. Pretende repetir aquilo que se verificou no século passado, isto é, a ascensão do fascismo e do nazismo, que chegaram ao poder pela via eleitoral, utilizando-a como mera peça instrumental para a ditadura.


Se de facto, e no terreno político, económico e social a resposta dita institucional agora arquitectada não tiver meios para funcionar, isto é, se não for delineado um programa consensual entre o M5E e o PD que responda às aspirações dos italianos (tarefa deveras complexa) e se, por outro lado, a Liga Norte for capaz de descredibilizar (desestabilizar) a curto prazo a actual resposta governativa torna-se evidente que, um século após, o fascismo estará de regresso a Itália.


Um outro aspecto histórico deve ser invocado. Os movimentos neofascistas e populistas europeus alinham-se em posições eurofóbicas tendo por base um nacionalismo serôdio. Salvini não foge a esta regra e acrescenta-lhe ainda a xenofobia, bem expressas nas políticas sobre migrações que implementou enquanto ministro do Interior do último governo italiano, bem como as restantes posições de força, violências contra minorias, promoção de medidas anti-sociais, etc. Mas para ficarmos pela rama temos de reconhecer que a eurofobia galopante no seio de um País fundador do Tratado de Roma (uma curiosa coincidência), da ex-CEE, agora UE, pode levar a uma ruptura e esse possível ‘acidente’ (exit) tem um inaudito alcance ao nível europeu. 


Neste momento Matteo Salvini - e após a frustrada manobra golpista que intentou para o derrube do Governo de coligação com o M5E de Luigi di Maio e provocar eleições – vai desenvolver toda a parafernália fascistóide de provocações e ameaças que as funções oficiais que desempenhou, até há pouco tempo, o coibiam de fazer. Não deverá ter lugar uma nova ´marcha sobre Roma’ – repetindo a estratégia de Mussolini - mas pouco faltará, pois a Extrema-direita tem larga tarimba na desestabilização de sistemas políticos e na capitalização do caos em seu favor. Logo, o objectivo imediato de Salvini será alimentar, por todos os meios, uma situação caótica.


A solução encontrada pelo regime democrático para sair da crise governamental e conter o golpe ensaiado pela Liga Norte, isto é, a coligação entre o M5E e o PD, é muito frágil em termos políticos e pouco coesa no terreno programático e, portanto, existem fundadas perspectivas de que não se aguentará a não ser que a UE aposte nesta solução para evitar um colapso de grandes dimensões (a enxertar no Brexit).


É imperioso que a UE abandone das suas cíclicas e recorrentes hesitações e as suas salomónicas indefinições em adiar tudo para decididamente ir em socorro do novo governo italiano (encabeçado novamente por Giuseppe Conte), com medidas capazes de evitar a tragédia anunciada porque, cada vez mais, ganha terreno na cidadania europeia a incómoda sensação de esta estar sitiada por populismos vários - desde os neofascistas aos neoliberais - todos eles, destruidores de um projecto europeu ainda longe de estar concretizado.

A ‘crise italiana’, por exemplo, tornou-se incompatível com as ‘posturas austeritárias’ ainda prevalecentes em alguns círculos conservadores de Bruxelas, para não ir mais além. Enfim, esta crise terá, obrigatoriamente, reflexos na União. Para citar um histórico dirigente do Império romano podemos repetir: “Alea jacta est!”.

Muitos europeus interrogar-se-ão: o que restará da UE depois de uma eventual saída da Itália?

Comentários

e-pá:

Há mais semelhanças com a década de 30 do século passado do que parece. Isto, no meu ponto de vista.
e-pá! disse…
CE:

De acordo.
No texto diz-se "...muito ao estilo dos anos 30.".
Sublinho esta parte do texto e acrescento que nunca é demais conservar a memória histórica.

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