Marcelo, política externa e exposição mediática

Não esqueço o alívio da tomada de posse do atual PR, depois de o meu voto ter ido, como devia, para Sampaio da Nóvoa, por coerência e fidelidade aos meus princípios.

Mantêm-se, aliás, as razões do alívio, após duas décadas alternadas de um ressentido e rancoroso PM e PR. Marcelo, inteligente, culto e simpático, criou um ambiente salubre, com a vantagem de prescindir da prótese, omissa na CRP, uma primeira dama, resquício monárquico que as Repúblicas deviam abolir, porque é uninominal o cargo e há muitas razões para ser mulher a titular, e nenhuma para ser adereço.

Perdoei ao PR a outorga da Ordem da Liberdade a Cavaco Silva, a venera que devia ser reservada aos militares de Abril e aos que lutaram, sofreram e resistiram à ditadura. Vi no ato uma traquinice de quem serve sopa temperada com presunto a um muçulmano.

Depois disso, vieram os ósculos aos anéis dos bispos, as genuflexões pias, as cerimónias públicas com crescente clericalização, cerimónias onde os clérigos romanos mancham a laicidade e abrem um precedente para os de outras religiões.

A exposição mediática é excessiva, e o que o torna inconveniente é a pressão que exerce sobre governantes em casos cuja decisão exige reflexão, como nas indemnizações nos fogos de Pedrógão, ou vulnerável, como dar azo a ser referido no caso de Tancos.

Entre virtudes e defeitos, as primeiras sobrelevam os segundos, mas é nas viagens, cuja ruidosa cobertura contrasta com o sepulcral silêncio dos média na crítica das vantagens de viagens erráticas, de utilidade duvidosa, opaca transparência e custos exorbitantes.

A política externa é reserva exclusiva do Governo e pode ser do interesse do País que a articule com o PR, se constituir uma vantagem acrescida, mas não se vê o benefício de tantas viagens, cujos custos deviam ser ponderados em função dos benefícios.

As viagens, que exigem a presença de membros do Governo e de comitivas, não devem ficar ao arbítrio do PR, nem este deve vulgarizar a comparência a atos irrisórios, como a tomada de posse de Bolsonaro, ou a destinos sentimentais.

O PR é um político com grande poder simbólico e parcas atribuições. Não pode fazer da exibição mediática uma permanente campanha de sedução sem o escrutínio do povo que o elegeu e ao qual deve contenção nos gastos e nos comentários sobre outros políticos.

Não basta a Marcelo a indiscutível honradez pessoal, exige-se-lhe prudência nos gestos, nas palavras e nas despesas. Precisa de ser o oposto do seu antecessor.

Ponte Europa / Sorumbático

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