segunda-feira, outubro 03, 2016

Espanha à beira de um ataque de nervos…

Ontem, poderá (ou não) ter acontecido mais uma ‘pasokização’ de um partido socialista.
Pouco do que sucedeu está directamente ligado à demissão do líder do PSOE, Pedro Sanchez, previsível desde que Felipe Gonzalez, e outros barões, lhe tiraram o tapete mas, fundamentalmente, o desenlace fica a dever-se à incapacidade de o PSOE responder às necessidades e aspirações dos espanhóis.

Ao permitir que a Direita governe o PSOE, nas actuais circunstâncias e tendo em conta os resultados eleitorais, como tudo indica que sucederá, o PSOE está a correr enormes riscos.
Algumas das responsabilidades pelo eminente desastre são externas e devem-se às alterações na arrumação do espectro partidário, causadas por uma austeridade imposta por Bruxelas e adoptada por Mariano Rajoy.
Há, portanto, culpas internas e poderosas condicionantes externas. E os problemas internos surgem a reboque de uma ideia que se revelou substancialmente falsa. O descontentamento criado pela governação de Direita, e existiram múltiplos motivos para tal, não foi – como alguns esperavam – directamente (mecanicamente) capitalizado pelo PSOE.
 
Perante indignação popular – e uma galopante desagregação social - levantada pelas medidas de Rajoy, o PSOE manteve-se ‘quieto e sossegado’ (tranquilo), esperando que a fruta caísse de madura, e abriu espaço a todos os tipos de populismo, eleitoralmente relevantes mas politicamente inconsequentes.
 
Nunca a Esquerda - na sua globalidade - teve um claro e bem definido projecto de Governo e a vã tentativa de Pedro Sanchez, realizada em Fevereiro/Março 2016, para formar Governo só conseguiu pôr a nu as suas insuficiências e divergências. Assim, nas eleições seguintes, traduziu-se subida da votação no PP e continuará a ter um impacto negativo para todas as forças que, querendo o fim do Governo do PP, continuam a guerrear-se.

A Esquerda deixou-se encurralar na capacidade de propor mudanças e afundou-se nas questões constitucionais (autonómicas e independentistas), misturando – na hora da verdade - a capacidade de criar alternativas com a distribuição de cargos e, alegremente, suicidou-se.

O populismo (neste caso de Esquerda) não pode ficar-se pela indignação que tem certamente motivações profundas na sociedade mas que só por si, não basta.
Faltou antevisão política a toda a Esquerda, mas esse pecadilho recaiu fundamentalmente sobre o PSOE.
A solução constitucional e democrática emergente em Espanha para o ‘pós-franquismo’, controlada pela Direita falangista, sob os auspícios de Fraga Iribarne, esgotou-se.
 
O consulado de Felipe Gonzalez que foi a grande emergência e marca política do 'pós-franquismo'- não tão efémero como isso - baqueou perante um subproduto neo-falangista de nome José Maria Aznar. Interessa compreender como. Aznar surge, em 1996, na sequência de inúmeros casos de corrupção, uma situação económica difícil, acompanhada de níveis de desemprego intoleráveis (> 15%) e da incapacidade em lidar com os movimentos autonomistas e/ou independentistas.
Apresenta-se ao eleitorado com uma proposta neoliberal, redução do aparelho de Estado, privatizações em catadupa e uma postura musculada face aos separatismos. Consegue com este programa aliciar muitos espanhóis desiludidos com o impasse da governação socialista.

Quando Aznar cai de podre sem conseguir resultados, nomeadamente no campo dos movimentos autonomistas, dá-se o regresso do PSOE ao poder, em 2004,  liderado por José Luís Zapatero que, depois de difíceis negociações, aplaca os movimentos independentistas outorgando-lhes mais autonomia.
Todavia, a crise financeira de 2007-8 viria a derrubar, a médio prazo, mais concretamente em 2011, Zapatero, pelas dificuldades criadas por um sector financeiro completamente desregulado e enfeudado a interesses muito próximos dos negócios do imobiliário, apresentando um espectro de colapso (nomeadamente as Cajas de Ahorro).

Sendo necessário recapitalizar e regulamentar a Banca – a mando de Berlim e Frankfurt – o ‘filhote de Aznar’, Mariano Rajoy, ganha, finalmente, as eleições e aplica um duro plano austeritário que, à custa de um programa articulado com a União Europeia, faz encolher drasticamente a economia e disparar o desemprego.
 
No fim do 1º mandato Rajoy perdeu a confiança do eleitorado, não resolveu os problemas estruturais económicos e financeiros, intensificou as fracturas sociais, afundou-se em sucessivos casos de corrupção e arrastou o País para um impasse (governamental e político). Ao fim de 2 eleições mantêm-se na  agenda política os mesmos problemas e, ironia das ironias, o PSOE poderá estar, nos tempos mais próximos, nas mãos do PP.

A Espanha enquanto País (reino) unitário, vivendo sob uma monarquia constitucional congeminada por Franco para dar coesão nacional e silenciar as multinacionalidades históricas, parece ter esgotado as capacidades de manobra no domínio institucional.
O PSOE, com as alterações ocorridas na última semana, deverá dar mais um ‘balão de oxigénio’ ao sistema político-constitucional em vigor. Todavia, as grandes questões ficam por resolver e a agonia do actual modelo político-constitucional, manter-se-á.

O problema é, como se começa a perceber, muito mais profundo, tendo a dimensão de uma indispensável reforma de regime que encerre o período transitório do pós-franquismo. Só a criação, por alterações constitucionais, de um Estado federado, ou confederado (não é a mesma coisa), parece, no momento, oferecer uma solução estável e duradoura.

Resta saber o que sucederá aos grandes partidos que até aqui, têm tido, um âmbito nacional (PP e PSOE) e os rebates que mudanças deste tipo terão em partidos de protesto e indignação, como o Podemos.

Para já a fragmentação dos grandes partidos do actual regime está à vista em consonância com a multiplicidade de nacionalidades e de povos.
Em primeiro lugar, esta subterrânea alteração da conjuntura vai contaminar o PSOE mas o PP não ficará incólume. E, finalmente, para um partido como o Podemos o espectro de uma diluição não é de todo para afastar.
 
Os próximos tempos mostrarão como e para aonde evoluirá esta crise que se abateu sobre o maior país ibérico.