Entrevista de Passos Coelho: um exercício de sebastianismo (neo)liberal…

Ontem, o líder do PSD deu uma entrevista à Sic Notícias em que comentou a atualidade política e a situação partidária link
 
A imagem que transmitiu ao País é a de um político que continua amarrado e marcado à fatalidade que lhe sucedeu há 1 ano, resultante do escrutínio popular.
Continua a lamentar que o partido mais votado não esteja a governar. Não é, passado um ano de luto, capaz de enxergar que a sua perplexidade é um caso com múltiplos exemplos por essa Europa fora. Prefere representar o papel de vítima a encarar a realidade.
 
O seu entendimento sobre o regime está inquinado por uma conceção menor da democracia, onde a sua interpretação numérica (e para além do mais relativa), estritamente de ordem partidária, se sobrepõe às características naturais de um sistema constitucional em que o governo exerce funções baseado no apoio parlamentar que, dependendo de números (maioria no Parlamento), tem como suporte uma conceção política para o País, isto é, um programa.
Não quer perceber que os votos não se agrupam por simples critérios de contabilidade mas por projetos políticos que possam ser assumidos, conjuntamente, por diferentes forças políticas, por uma 'maioria política', que tenham um substrato programático.
 
Revelou uma absoluta incapacidade para fazer uma análise concreta da sua governação, de revisitar um programa eleitoral baseado na vacuidade de 'mais do mesmo' e, finalmente, perceber como, e porquê, chegou às eleições completamente isolado, sem pontes com as outras forças partidárias.
 
Tem dificuldades em compreender que foram as suas opções ideológicas - que tem todo o direito de as ter - o calcanhar de Aquiles que ditou o afastamento da coligação de Direita da governação.
Ainda não percebeu que a via de uma austeridade férrea pode ser (e é) aplaudida pelos mercados mas não colhe apoios no terreno político e social e, o que é mais grave, não tem perspetivas de futuro. Quando critica a atual governação pelos números (sempre os números!) do investimento, crescimento e exportações não tem a honestidade de tomar em consideração os fatores estranhos (externos) à atual conjuntura nacional e não possui a hombridade, ou a sinceridade, de explicar quais as alternativas que propõe.
 
Quer esconder com tiradas analíticas difusas, descaracterizadas e obtusas que – se por desgraça – tivesse permanecido à frente da governação estaríamos enredados num colete-de-forças decorrente uma austeridade galopante e autofágica, onde cada ‘vitória’, teria como contrapartida medidas (austeritárias) substitutivas ou equivalentes, um pouco no esquema de um ‘movimento perpétuo’. 
 
Poderia, ter aproveitado a entrevista para explicar uma coisa que nunca foi capaz de o fazer durante mais de 4 anos de governação. Trata-se do conceito que esteve subjacente ao seu governo de uma mítica ‘austeridade libertadora e criadora’, no seu entender, capaz de impulsionar o desenvolvimento.
Não percebeu que essa conceção é – para qualquer povo e não só especificamente para os portugueses – uma aberração política que só foi possível neste País sob uma trágica (e imposta) ‘intervenção externa’.
 
O fim de um ajustamento financeiro coxo (em pouco mais de 1 ano contam-se duas falências bancárias), deixando uma economia mais débil da que existia no início da crise, apesar dos falsos encómios de uma ‘saída exitosa'  (hoje sabemos que muito ‘suja’), acabariam por ser fatais, a médio prazo, para a persecução das suas políticas.
 
Se existe uma coisa que Passos Coelho poderia lamentar-se seria o facto de a Troika ter ido embora. Parece um contrassenso tendo em vista a vistosas celebrações (conduzidas pelo seu companheiro de governo Paulo Portas), mas é a verdade. A chegada ao poder e a sobrevida política de Passos Coelho está indelevelmente ligada à presença da Troika entre nós. Esta será uma das razões porque, recentemente, nos círculos políticos europeus (Comissão Europeia) e nos mercados financeiros (agências de rating) se fala de um ‘novo resgate’. Seria, como é percetível, o seguro de vida político da Direita.
 
Já todos percebemos que, sub-repticiamente, o líder da Oposição, aposta num eventual re-intervenção da Troika (ou equivalente) o que, no seu imediatista entender, significaria o regresso à governação.
Este foi o facto político que o entrevistado não teve a coragem de explicitar mas é, na realidade, a sua estratégia oculta. Assim, vai continuar emboscado nas suas contradições, visões e conjeturas à espera que o 'diabo' chegue. 
 
Uma atitude que pouco ou nada dista do sebastianismo. Muito próxima dos que, nos finais do século XVI, acreditaram que uma manhã de nevoeiro nos libertaria do pesadelo de ter perdido a soberania.

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