Guterres e a encruzilhada das Nações Unidas…

Ainda vivemos o período festivo e exultante pela designação, por aclamação, de António Guterres para novo Secretário-Geral da ONU. Trata-se de algo (verdadeiramente importante) que, no clima de incertezas e medos globais, vale a pena celebrar.

À euforia popular contrapõem-se reações diplomáticas discretas e cautelosas das chancelarias dos membros da ONU.
Países considerados nossos ‘parceiros’ ou remetem-se a manifestações formais ou ao mais sepulcral silêncio. É, por exemplo, o caso da Alemanha que não consegue ‘engolir’ a ‘sacanice’ inerente à candidatura extemporânea de Kristalina Giorgieva. O facto da diplomacia alemã vir, pela  boca do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Frank-Walter Steinmeier, afirmar, à posteriori, que Guterres é uma “excelente escolha” link não disfarça nem o incómodo político, nem a derrota da diplomacia alemã. Trata-se de uma ‘traição’ que, apesar das declarações de circunstância, levará algum tempo a ultrapassar.

Todavia, passada a euforia do momento chegarão, inevitavelmente, os desafios e, a cavalo destes, os problemas.

A ONU é (deveria ser) o fórum internacional privilegiado onde se manifestam em toda a sua complexidade os ‘problemas globais’. Questões com o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, a interdependência entre Estados subsidiária de uma incontornável agenda para o desenvolvimento e, ainda, as diferenças culturais, são problemas candentes que se arrastam há dezenas de anos e não parecem ter soluções fáceis ou à vista.

Problemas mais concretos, isto é, regionais ou focais, eventualmente geradores de tensões ou conflitos como os do Médio-Oriente (Síria e Palestina), do Leste europeu (Ucrânia), do corno de África (Etiópia, Somália, Eritreia), da Península arábica (Iémen), das Ilhas do Pacífico (China, Rússia, Filipina, Japão) etc. mantêm-se insolúveis e o ‘espaço de diálogo’ (especialidade de Guterres) é muito exíguo.

Uma outra vertente é os equilíbrios geoestratégicos (políticos e militares) onde os elementos perturbadores campeiam desde a questão nuclear norte-coreana à situação decorrente das ‘primaveras árabes’, passando ainda pela instabilidade política e territorial do Médio Oriente e por fim o candente problema das migrações.

O Mundo ainda está na ressaca do fim da ‘Guerra Fria’ e os equilíbrios sempre necessários para construir a Paz são indispensáveis mas apresentam-se, neste momento, com uma imensa volatilidade.
Os grandes blocos económicos e financeiros (UE, MERCOSUL, ALCA, NAFTA, APEC, etc.) têm foros de discussão e concertação próprios, à margem da ONU (G-7 ou G-20) e longe de qualquer tipo de escrutínio.

As ‘derivas populistas’ conotáveis, na sua grande maioria, com o aproveitamento político da Extrema-Direita da insegurança, dos medos e frustrações carrega, concomitantemente, razões para o avanço do terrorismo. Dificuldades acrescidas quanto à segurança, bem-estar e desenvolvimento dos povos fomentam a violência. Aliás, estas perturbações têm uma relação direta e intrínseca com o mapa de distribuição da pobreza e da exclusão social.

Esta é uma breve resenha do panorama global que aguarda a entrada em funções de António Guterres.
Não sendo propriamente um presente envenenado porque é tão-somente a realidade existente no terreno não deixa de constituir uma tarefa ciclópica para uma organização que não dispõe de força e meios suficientes para acudir simultaneamente em tantos e diversificados pontos.

Quando se fala em 'reformar a ONU' e se adianta que a unanimidade conseguida à volta da eleição de Guterres poderá ser uma oportunidade para tais 'mudanças', deve entender-se o gigantismo da tarefa, isto é, avaliar a capacidade, a oportunidade e a vontade política para reescrever uma nova Carta da Nações Unidas e alterar a composição e competências do Conselho de Segurança.
São tarefas impossíveis para um homem fazer isoladamente. Na verdade, percecionamos que ‘ninguém’ (nenhum ser humano por mais dotado que seja) tem forças e capacidades suficientes para protagonizar esta mudança e que das duas uma: ou esperamos pelo fim de uma (já anunciada) 3ª. Guerra Mundial ou, subitamente, surgirá um amplo consenso mundial que suplante interesses nacionais, regionais ou até imperiais (uma autêntica ficção!).
De qualquer modo, entre duas opções tão díspares seria preferível não ter lugar - ou evitar acontecimentos precipitantes  de - uma 3ª. Guerra Mundial.
Todos suspeitamos que essa trágica eventualidade seria um desastre físico, ambiental e humanitário (global) que não daria oportunidade, nem azo, a qualquer reforma. Nem sabemos se a Humanidade sobreviria a tal catástrofe.

Tudo isto serve para precaver armadilhas e cobranças (futuras) indevidas. O novo Secretário-Geral da ONU é um político preparado, competente, honesto e inteligente. Mas todos sabemos que o Superman é uma criação fictícia da DC Comics.

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