O referendo húngaro

O perigo vem do Leste, e o extremismo de direita já percorre toda a Europa.

Desde que a retórica nacionalista de Víktor Orbán começou a acusar todos os refugiados como potenciais terroristas e deu início à construção de muros, na Hungria, nunca mais deixou de crescer a onda xenófoba que criou, no Leste europeu, uma perigosa aliança ultraconservadora e eurocética num bloco comum.

Na Polónia, o ultranacionalista Jaroslaw Kaczynski, do partido Lei e Justiça, acusou os refugiados de serem portadores de parasitas transmissores de doenças contra as quais eles estavam imunizados nos seus países de origem, mas não os europeus.

À Polónia e Hungria, juntaram-se a Chéquia e a Eslováquia numa perigosa aliança que nos remete para um passado anterior à última guerra. A Polónia e a Hungria lideram a discriminação que atinge os refugiados e se estende aos ciganos e às minorias sexuais, transmitindo medo e mensagens de ódio.

Sob o slogan “liberdade, democracia e soberania nacional” irrompeu com virulência, na Hungria e na Polónia, um fundamentalismo cristão xenófobo, que alastra nesta Europa à beira da implosão e incapaz de absorver os refugiados, que já excedem a sua capacidade de acolhimento e integração.

Perante a impossibilidade de resolução do problema que nasceu fora da Europa, e a que esta não foi alheia, medram e tomam o poder os partidos herdeiros da ideologia que foi derrotada na II Guerra Mundial.

Na Dinamarca o primeiro-ministro Lars Løkke Rasmussen deseja implementar a prisão incondicional, durante 14 dias, para todos os mendigos, sem, no entanto, assumir que se destina a refugiados. Na Alemanha, os ultraconservadores recuperam expressões nazis, até há pouco impensáveis, perante o desespero da chanceler Merkel e a aflição de quem não esquece o passado.

O perigo vem do Leste, mas chegou aos países de tradições democráticas e pergaminhos humanistas. A impossibilidade de solução compromete o asilo de quem dele carece, e as democracias correm perigo perante o avanço da extrema-direita.

O último desafio à UE foi feito por Orbán com o referendo sobre as quotas de asilados, com uma vaga xenófoba e apelos ao nacionalismo húngaro. Os resultados de domingo não são vinculativos, por terem votado menos de 50% dos eleitores, graças aos partidos que promoveram a abstenção, mas são assustadoramente eloquentes.

A Europa encontra-se impotente e num beco, enquanto a extrema-direita regressa sete décadas depois de destroçada pela derrota do nazi-fascismo, partidos que aguardam a desintegração da União Europeia para o assalto ao poder.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

e-pá! disse…
A desagregação da UE não é uma miragem ou uma hipótese remota e está, de facto, a decorrer em velocidade de cruzeiro e o (ainda) Reino Unido, pela boca da Srº. May, vai adiantando medidas sobre os emigrantes e refugiados que nada ficam a dever às que Viktor Orbán quer impor na Hungria, com a total complacência de Bruxelas.

O 'grupo de Visegrado' mostra-se particularmente ativo. Ninguém, no meio da confusão, instalada quer revisitar e analisar o processo de alargamento da União a Leste. A pressa em capitalizar a queda do muro de Berlim - uma das prioridades de Barroso - deu nisto. Todavia, o pior ainda poderá estar para vir com a questão ucraniana e eventualmente a Turquia.

Entretanto, a Comissão Europeia entretém-se a discutir sanções a Portugal e Espanha um pouco ao estilo da orquestra que continuava a tocar durante o naufrágio do Titanic.

Depois da queda de um muro começaram a erguer-se, por todo o lado, muralhas. Quando se defendeu - De Gaulle há dezenas de anos - que a muralha a Leste da Europa é natural, são os Montes Urais, ninguém pareceu dar atenção a este aviso.
Por detrás dessas muralhas que vão sendo levantadas, paulatinamente estão a ser escavados profundos fossos, onde acabarão sepultadas todas as boas vontades e as veleidades de construir uma União Europeia.
e-pá:

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