Escândalo no Vaticano ou o Fim do 'Império Teocrático'?


A detenção de Paolo Gabriele, mordomo de Bento 16, levanta ‘fumos’ (o ‘fumo branco’ é simbólico neste minusculo Estado) de estar em marcha, na Cúria romana, um complexo processo de destituição do actual papa. link

Nada de transcendente ou de original nos sobressaltos históricos que ocorrem em qualquer Estado se não estivéssemos perante um ‘sistema de governação’ medievo e autocrático, com características particulares. Na verdade o poder (no Vaticano) assenta numa total miscigenação entre a legitimidade secular e a divina. Interessa recordar que acordo com a herança do ‘santo império romano (!)’, o titular deste cargo é eleito (nomeado) por um colégio seleccionado e selectivo, que decide sob ‘inspiração do espírito santo’. Portanto, tudo leva a crer que o processo em curso representa um ‘voto de desconfiança’ ou de 'rejeição' do deus dos católicos em relação ao seu putativo representante no Vaticano.
Estaremos perante o ruir dos dogmas, i.e., da base teológica que tem sustentado, ao longo de séculos, esta religião ?…

Comentários

Mario Neiva disse…
Os dogmas cristãos e cristãos-católicos são expressão da fé ou de uma determinada interpretação dos ensinamentos do conjunto do Novo Testamento. Como interpretação, podem sofrer evoluções e até podem surgir novos dogmas. Desaparecer é que não, pois com eles ia a fé, uma vez transformada em perfeita religião. (Embora alguns teólogos "progressistas" se esforcem por demonstrar que o cristianismo é mais que uma religião).
Penso que não podem subsistir para sempre, na humanidade, a religiâo e o ateismo. São tese e antítese, claramente desde o século XVIII. E a síntese não fazemos ideia como será. Mas acabará por acontecer, como acontece com qualquer "desiqilibro" natural. Natural, sim, porque religião e ateismo são "farinha do mesmo saco", como quem diz, realidades humanas cem por cento. E se os teistas parecem esquecer este facto, que devia ser óbvio para todos, o mesmo acontece com os ateus, quando decidem combater os "moinhos de vento" que são os deuses das religiões.
Combater directamente o teismo é, no minimo, uma perda de tempo. Util mesmo é investir no conhecimento.
soudocontra disse…
Meu caro Mario Neiva, se não houvesse religião não precisaria de haver ateismo; toda a humanidade viveria naturalmente, sem seres humanos a serem enganados, explorados e assassinados pelos chefes religiosos, como foram durante séculos e são ainda. Combater o teismo é dar conhecimento científico aos teistas e provar-lhes que não há fantasmas a vogar no espaço cósmico infinito donos de infernos e paraísos obscurantistas medievalescos, infelizmente nos dias de hoje ainda credíveis para certas pessoas menos informadas.
Mario Neiva disse…
Sou do Contra, se nâo houvesse religião, não fazemos a mínima ideia como seria o desenrolar da nossa História. Vou, pois, aceitar o teu "se nâo houvesse.." como hipótese académica. Então ficava assim, na minha opinião: se nâo houvesse religião, era APENAS menos um motivo para os homens se massacrarem. O que podemos constatar é que, quando a religião tem fraca influência sobre uma determinada sociedade, depressa emerge o culto da personalidade do imperador,do rei ou do presidente, como verdadeiros deuses na terra. Deuses substitutos.
De modo que, insisto: mais útil, muito mais, que combater o teismo, é fazer a aposta vigorosa no conhecimento.

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