Bertolt Brecht, Mota Pinto e a Ópera dos Três Vinténs

Quando Paulo Mota Pinto, sem problemas éticos, suspendeu as funções de presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (CFSIRP) para aceitar a sinecura de chairman do BES, pareceu que não restava mais um módico de pudor, um resquício de amor-próprio, uma noção vaga de serviço público no país que lhe concedeu uma reforma obscena aos quarenta anos como ex-conselheiro do Tribunal Constitucional.

Nem o facto de ele ter votado o período de nojo obrigatório a quem exerce funções no SIRP, impedindo a entrada numa empresa privada com os segredos que detém, fez com que o chefe dos fiscais se sentisse vinculado ao que os fiscalizados estão sujeitos.

A decadência ética tem acompanhado a dívida pública e, se a segunda chegou ao ponto de impagável, a primeira atingiu o ponto de não retorno.

Brecht, na Ópera dos Três Vinténs, coloca-nos no Soho, bairro pouco recomendável de Londres, no século XIX, onde antecipa o Portugal venal, corrupto e marginal de hoje.

Mota Pinto não é Mac Navalha, mulherengo e bígamo, casado com Lucy, filha de Tiger Brown, chefe de polícia, que casa secretamente, num estábulo, com Polly, a filha do seu colega marginal, Peachum, "Rei dos Mendigos", mas, ao regressar às funções que devia ter honrado, sem as trocar por uma sinecura, que falhou, no grupo financeiro do maior e mais trágico escândalo português a nível global, dá de si, da política e do país a imagem que podia ter inspirado o grande dramaturgo, poeta e encenador alemão.

Retorna à presidência do CFSIRP num final feliz, a recordar a peça notável de Brecht, desta vez em deprimente comédia e sem necessidade de perdão real. Devia regressar ao som da música de Kurt Weil, para que, nesta medíocre ópera-bufa, pudéssemos recordar a Ópera dos Três Vinténs com o som do genial compositor. (30 de agosto de 2014)

                                                                *****

Volto ao texto escrito em 30 de agosto de 2014. Como é sabido, falhada a sinecura do BES, com a conivência desta maioria e deste Governo, Paulo Mota  Pinto regressou a presidente do CFSIRP. As práticas ilegais são tão “graves e alarmantes” que Bacelar Gouveia, Jorge Miranda e Paulo Otero consideram o acesso a dados telefónicos pelos serviços secretos «uma violação muito grave».

Silva Carvalho, ex-superespião, denunciou a prática como «habitual, ainda que ilegal». O PR, receoso de ser espiado por um PM, deixou-se envolver numa manobra partidária pouco edificante e, agora, mantém o silêncio que lhe merece o BPN, o BES, a dívida da Madeira e todos as tragédias que ultrapassem o milhar de milhões de euros.

Fernando Negrão, deputado do PSD, homónimo de um violador do segredo de Justiça, quando diretor da PJ, quis ouvir Paulo Mota Pinto. Sempre que a direita está no poder as ilegalidades das secretas alarmam juristas e deputados perante um povo amorfo e um PR em severo retiro, cego, surdo e mudo, perante a desintegração do Estado de direito.

Comentários

castrantonio disse…
Do (p)residente de Belém não se esperaria outra coisa, diria mesmo que seria este silêncio que eu estava à espera, do povo amorfo começo também a habituar me.
Manuel Galvão disse…
Esta guerra não é a do povo. Perguntem a quem não vota. Perguntem aos outros também.
E, finalmente, esta maioria chumbou a convocação dos fiscais das secretas. Óbvio ululante.

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