UE e Euro Grupo: a ameaça de implosão …

A Grécia poderá ter conquistado, na 6ª. feira passada em Bruxelas, o tempo necessário para arrumar a casa ou, então, preparar uma saída da zona euro. Esta a realidade crua e nua difícil de aceitar por quem acredita e apostou num Europa unida e solidária.

Na próxima 2ª. feira vamos conhecer os desenvolvimentos do pré-acordo já alcançado e como será possível compatibilizar, num acordo duradouro, sério e honesto, uma solução que respeite os interesses dos gregos e a ortodoxia  que se apossou dos restantes membros do Euro Grupo, alinhados pelos interesses de Berlim. Não será fácil essa compatibilização já que estão em confronto questões políticas e ideológicas divergentes e interesses financeiros díspares.
Por outro lado, os 4 meses que a Europa concedeu a si mesma (e não só à Grécia) para assentar a poeira, podem (devem) ser utilizados para a Grécia (e demais países em dificuldades) estudar e planificar ‘saídas amistosas’, nada airosas, como referiu o ex-presidente da França e 'pai' da malograda constituição europeia - Giscard d‘Estaing link.

A reunião do Euro Grupo mostrou algo que os europeus teimam em não acreditar porque tem sido diligentemente ocultado.
O “grupo” enquistou-se nos seus meandros austeritários e orçamentais e sob esta ortodoxia ignorando o problema fulcral que está no modo e nas circunstâncias que ditaram a construção da moeda única. Esta a centralidade do problema. Acresce a esta situação problemas de governação (de âmbito nacional) que ao longo da existência do euro foram coleccionando défices orçamentais e consequentemente uma dívida excessiva. Deste modo, fechou-se todas as portas a uma recuperação digna e expedita dos países em dificuldades, dependente de economias mais débeis.

A saída da crise onde a Grécia está, no imediato, mergulhada – mas também outros países do Sul – passa pela necessidade (e a possibilidade) de ter uma política cambial e monetária autónoma que permita uma desvalorização da moeda. A Grécia não dispondo de tal instrumento de acordo com as ‘regras’ unionistas sabe que todas as medidas serão sempre paliativas e todos os acordos fragéis e ilusórios. Na verdade, todos os impecilhos relativos à recuperação da crise europeia passam por questionar em que moldes se criou o euro.
Ora tal mudança não é possível dentro do actual quadro da moeda única que engloba (sem servir de igual modo) um vasto e divergente contingente de 19 países e de um Banco Central erguido segundo os moldes germânicos e sob a tutela de Berlim. E não vale a pena fixar-se em culpas pessoais, i. e., na chanceler Merkel. Qualquer governo alemão, independentemente da sua coloração política, defenderá o ‘status quo’ vigente porque, na realidade, a existência de uma moeda forte serve – para já - os interesses da Europa rica, i. e., economicamente mais desenvolvida e, portanto, beneficiária directa desta situação.

Todos sabemos que a pressão germânica não abrandará após o frágil acordo conseguido na última reunião do Eurogrupo. É extremamente prematuro e manifestamente despropositado 'decretar' o fim (ou mesmo o alívio) da austeridade porque, na realidade, este é um instrumento fundamental de dominação (a par do ‘Pacto Orçamental’) que permite assegurar a manutenção, no seio do grupo euro, de um devastador caudal de transferências dos países pobres para os ricos.

A única possibilidade de inverter o actual rumo seria a conjugação de esforços (e de políticas) dos países do Sul contra os mentores ideológicos destes modelos e a postura adoptada (induzida?) pelo sistema financeiro  - parasitário em relação ao euro - e que, no presente, por razões de natureza táctica e mediada por complexos meandros técnico-monetaristas, os levam a advogar 'à fortiori' o prolongamento de severas políticas de austeridade geradoras de um empobrecimento galopante e progressivo. Táctica que, para futuro, compromete drasticamente o desenvolvimento, a coesão europeia e, consequentemente, a viabilidade da União Europeia.
O tempo aparentemente atribuído à Grécia, mas que está à disposição de todos, deverá ser utilizado nesse sentido. Repensar os moldes de funcionamento e os equilíbrios da Zona Euro, tendo por base o questionamento objectivo e realista dos parâmetros que orientaram a criação e entrada em funcionamento da moeda única e a vontade de corrigir as suas maléficas deficiências.
Esta será a última esperança para a preservação da Zona Euro. A partir daí a desagregação da Europa entrará num caminho irreversível.

Esta também a nefasta consequência das políticas emanadas de (ou apadrinhadas por) Berlim e que tem merecido um subreptício apoio do actual Governo português.
A transição do estatuto de ‘bom aluno’ para o de ‘cúmplice’ será dramática em termos políticos e tremenda para as pessoas. Porque todos os sacrifícios impostos aos portugueses em nome de um saneamento financeiro (feito à custa de alguns) e uma prometida ‘regeneração económica’ reveler-se-ão vazios e despidos de sentido estratégico. No fim de tudo, saberemos que nada é sustentável. Nem a disciplina orçamental, nem o crescimento, nem a dívida, nem a crispação social.
Contudo, dentro da linha que tem sido expandida desde a Europa Central e do Norte sobre os ‘malandros do Sul’ que ‘vivem acima das possibilidades’, vamos verificar, a breve prazo, que a liderança férrea e errática da Zona Euro lançará sobre os cidadãos o opóbrio dos resultados destas más políticas. Não podemos permitir ‘isso’. A última oportunidade foi datada e durará no máximo 4 meses.

Se nada for feito neste curto intervalo de tempo, se deixarmos a Grécia ser ‘cozinhada em banho-maria’, se não afrontarmos estas novas indignidades que estão na forja, estamos todos perdidos. Todos e não só a Grécia.

Comentários

A desagregação da União Europeia é o caminho mais curto para a desagregação das nações que a compõem.
e-pá! disse…
CE:

As cegueiras (com várias etiologias!) levam, muitas vezes, à adoção dos caminhos mais curtos...
Palmilhar a contrapé em 4 meses uma rota que começou a ser iniquamente desbravada em 1999 (início do euro) só é possível pelo caminho mais curto e não pelo vasto mar de Ulisses...
Daí a preocupação acerca de uma eventual 'implosão'.

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