Desnatar a NATO ?…


Donald Trump, no seguimento dos distúrbios que protagonizou na última cimeira do G7, considerou que a NATO é ‘tão má quanto o NAFTA[*]’ e pretende discutir este assunto com Putin, na Finlândia, após a cimeira da citada organização atlântica marcada para 11 e 12 de julho, em Bruxelas link.
 
Sendo a NATO um produto do pós II Guerra Mundial (inicio da ‘Guerra Fria’) criado para ‘enfrentar o comunismo’, seria natural que após o colapso da URSS (e dissolução do Pacto de Varsóvia) o futuro da organização fosse repensado.
Na realidade, tudo indica que o futuro dos 2 blocos militares fez parte das negociações à volta da reunificação alemã mas as condições contratuais terão sido torpedeadas.
 
Ora, o que verificamos - nos dias de hoje - é um exponencial alargamento onde se observa que cerca de metade dos países membros da NATO (13 – República Checa, Hungria, Polónia, Bulgária, Estónia, Letónia, Lituânia, Roménia, Eslováquia, Eslovénia, Albânia, Croácia, Montenegro) foram admitidos (incorporados /aliciados) depois de 1991.
 
Há algo nesta questão que não bate certo. A maioria destes novos países admitidos são anteriores membros do Pacto de Varsóvia e esta 'transladação' tem características de cerco à Federação Russa, uma remanescência da ex-URSS..
Esta ‘expansão’ nasce – é lícito supor – à revelia dos equilíbrios de Paz que o mundo necessita. Sedimenta-se em conceitos hegemónicos a que não será estranho o conceito americano de ‘polícia do mundo’ que os tempos recentes demonstraram, por exemplo, na Líbia, Egipto e Síria, ser uma má experiência. Mas os mais recentes 'episódios trumpianos' mostram que o ex-promotor de talk-shows encara a NATO como um negócio que é preciso rentabilizar à custa dos seus parceiros.
 
A recente carta que Tump dirigiu aos seus aliados (da NATO) mostra uma conceção de partilha de custos sem que com isso venham a usufruir de uma correspondente preponderância nos mecanismos e metodologias que geram as decisões político-militares globais link.
Nem sempre os 'interesses europeus' são coincidentes com os sinuosos interesses norte-americanos, como os últimos acontecimentos internacionais têm revelado. Mas esse é outro problema.
 
O que fica subjacente às posições yankees é a ‘obrigação’ dos ‘aliados-membros’ da NATO serem o suporte financeiro da política imperial americana sem direito a piar.
Interessaria saber se nas atuais circunstâncias a defesa dos interesses europeus pode estar confinada à tutela norte-americana. Uma primitiva ‘doutrina Truman’ (1947) de cariz liberal e pendor ‘atlantista’ foi substituída, na presidência Nixon (1968), por uma nova conceção de ordem internacional, marcadamente ‘imperial’ e de dimensão político-militar, cujo ideólogo foi Henry Kissinger.
 
Hoje, passados mais de 50 anos e apesar de variadas convenções e acordos que foram sendo celebrados depois do fim da bipolaridade mundial (desmembramento da URSS) é, ainda, o espirito da ‘conceção de Kissinger’ que vigora. O alargamento da NATO também cabe aí.
 
De novo a proposta adiantada por Trump só acrescenta a vertente do negócio (que já existia antes de forma encoberta).
O que o presidente americano está a propor aos 'seus aliados' da NATO  – a par com a mais indigente incapacidade de usar a Organização como instrumento político - são alterações orçamentais visando o reforço do investimento na Defesa. Uma démarche ao encontro das exigências dos lobbys da indústria militar norte-americana, sector tradicionalmente ligado ao Partido Republicano.
 
É nestes simplificados termos e com estas nebulosas sombras que decorrerá a próxima cimeira da NATO, em Bruxelas, em 11 e 12 de Julho.
 
Interessa saber se este passo convém à Europa ou se a atitude de Washington deve abrir (tardiamente) uma discussão que vá mais longe e passe pela avaliação da existência (persistência) da NATO nos dias que correm. Isto é, num ‘Mundo Global’.
 
[*] - NAFTA - Tratado comercial que envolve México, Canadá e EUA.

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