A religião, a doença e o sofrimento

O prazer é o alimento da felicidade e do bem-estar. O hedonismo preserva a espécie e dá sentido à vida. A doença é o revés que devasta, e a dor a infortúnio que transforma a vida em tragédia e a morte na única forma de libertação.

A morte é aliciante para quem se alimenta dela, industriais funerários, gatos-pingados e funcionários de Deus. Estes últimos encontram no medo o húmus para a evangelização, o meio para a sua eficácia, e a estratégia para a manutenção do emprego.

O medo da morte criou os deuses, à imagem e semelhança dos homens, mas foram os chefes tribais da Idade do Bronze que criaram o deus misógino, xenófobo e vingativo que deu origem aos monoteísmos.

Confundir o direito à vida com a obrigação de a prolongar quando se torna insuportável, é a maldade de uns e o masoquismo de outros, a perversão pia que o sadismo sustenta e a crença que condena a vida com as dores inventadas para depois da morte.

Quando a crença se sobrepõe à razão, a insensibilidade resiste ao sofrimento, sobretudo dos outros, e cria o pensamento totalitário, que leva ao desprezo dos direitos individuais e à exaltação do sofrimento, como se o deus violento, que mora na imaginação dos seus funcionários, se rebolasse de gozo perante as dores humanas.

É a ausência de discernimento, que o embotamento da fé produz, que ateia fogueiras ou leva imbecis a atar um cinto com explosivos à barriga, a demência que criou cruzados e fabrica talibãs, a crença que leva um clérigo a trocar a compaixão por um versículo e a atormentar um moribundo para o levar a agradecer ao carrasco que inventaram.

Comentários

Jaime Santos disse…
Muito naturalmente, há quem encontre na crença uma racionalização para os males de que sofre. Os seres humanos procuram, desde sempre, dar sentido a um mundo que não o tem, ou parece não o ter. Daí a alguém dizer que a doença foi boa porque o levou ou fez regressar a Deus, parece-me um passo natural, Carlos Esperança.

Como a justificar de outro modo, senão reconhecendo que a existência carece de sentido e o Mundo não é regido pela providência divina e sim por Leis Naturais Impessoais, logo nem boas nem más? Tal requer uma coragem particular, o abandono ao desespero de que falava Bertrand Russel...

Deveria este pároco responder-lhe que Deus não deseja o sofrimento de ninguém e ser confrontado com a pergunta do doente, sobre então qual a razão que leva um Deus benevolente e omnipotente a permitir o sofrimento?

Penso que não, mas se calhar deveria preservar-se, ao paciente, e preservar-nos a nós, evitando contar estas histórias edificantes. Isto admitindo que lhe sobra o mínimo de humanidade e que não acredita que o sofrimento faz parte do plano divino para castigar os transgressores e também os justos, a começar por Job...
Caro Jaime Santos:

O seu último parágrafo é a razão do meu texto. Um abraço.

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