Coimbra – A homenagem a Antunes Varela

Quando, em outubro de 2000, o presidente da Relação de Coimbra mandou recolocar o busto de Antunes Varela no Tribunal, desolado por ser um amigo e antigo colega de turma do liceu da Guarda, não deixei de gritar a minha indignação, nos jornais locais e num diário, contra o branqueamento da ditadura que o gesto representou.

Então, já o ancião Antunes Varela se tornara inócuo pela idade, sem que a vergonha e os remorsos lhe abreviassem os dias, mas foi o ministro da ditadura que se homenageou.
Agora, em 18 deste mês de dezembro senti revolta acrescida pelas palavras e, sobretudo, pela presença da ministra da Justiça, a elogiar o legado do professor que foi governante quando o cargo, ao contrário de hoje, lhe conferia ascendente, de facto, sobre os juízes.

Se um professor competente, como se alegou, merecia a homenagem, Salazar merece a estátua do tamanho da indignidade e dos crimes, e será breve a reabilitação.

O cúmulo foi atingido pelo presidente do S.T.J., a 4.ª figura do Estado, com palavras de devota saudade à «mente brilhante e multifacetada», que viu na homenagem um «claro testemunho da reconciliação e encontro de um país com a sua História». E continuou o panegírico ao ministro que manteve os Tribunais Plenários, enquanto mandava construir palácios da Justiça, numa época em que os processos só eram instruídos se o ministro o permitisse, com remoques aos ministros da democracia por, ao contrário dele, terem os edifícios em más condições.
 
Antunes Varela foi ministro da Justiça de agosto de 1954 a setembro de 1967, enquanto os juízes dos Tribunais Plenários deixavam agredir os presos na sala de audiências, sob aparente distração, e condenavam cidadãos por delitos de opinião a pesadas penas e medidas de segurança.

Não se terá lembrado o excelso presidente do STJ do assassinato de Humberto Delgado e do silêncio crapuloso de quem lhe merece tamanhos encómios? Terá esquecido o que foi o terror do governo de que fez parte? Sabe de alguma preocupação do ministro com as prisões arbitrárias, as medidas de segurança, as torturas nas prisões e o encobrimento dos crimes de altos dignitários? Antunes Varela pode ter sido mestre do Direito Civil, mas foi um almocreve dos Direitos Humanos e cúmplice da repressão salazarista.

A homenagem foi microcirurgia reacionária e insulto aos democratas; não foi um gesto sem conteúdo político, foi a tentativa de branqueamento da ditadura; não é uma atitude anódina, é uma ofensa a todos aqueles que um Governo, que Antunes Varela integrou, prendeu, torturou, deportou ou assassinou. Uma homenagem a um ministro de Salazar é uma condenação dos que derrubaram a ditadura e uma censura aos que se bateram pelo regime democrático.

A insidiosa afronta, injustiça gratuita e intolerável ofensa do Presidente do STJ deixam a revolta cujas palavras calo, para não ser constituído arguido, mas temo a sua noção de Direitos Humanos, indiferença perante um regime de terror e admiração por um algoz.

Na deslocação a Coimbra, a ministra da Justiça esteve mal e o presidente do STJ pior. Cuspiram nas campas dos que morreram pela liberdade, exaltaram um cúmplice da ditadura.

Comentários

José Lopes disse…
Em total desacordo com o que escreveu.
Estive presente na cerimónia e sei bem o que se passou.
Pretendeu-se homenagear um jurista, um grande civilista, o maior responsável pelo Código Civil de 1966, cujo ensino influenciou gerações de juristas em Portugal. Conheci advogados de esquerda, que integraram listas da oposição em 1969, que tinham uma grande admiração pelo jurista que foi Antunes Varela, nascido pobre, numa aldeia do Alentejo e que ficou apenas a dever ao seu trabalho e à sua inteligência a sua carreira.
Só quem trabalha no direito civil sabe o quanto deve às obras de Antunes Varela.
E se houve um discurso que chamou a atenção para o seu papel no regime anterior, foi justamente o do Presidente do Supremo.
Se estivesse estado lá, e tratou-se de uma cerimónia aberta ao público, poderia ter visto uma foto de um almoço de confraternização nos anos 80 em que sentado ao lado de Antunes Varela estava o socialista Almeida Santos.
Rosalvo disse…

O busto de João de Matos Antunes Varela, por Gustavo Bastos, 1967, também está no Palácio da Justiça do Porto

ANTUNES VARELA (1919-2005) – "Salazar entrega-lhe a pasta da Justiça em 1954, lugar que mantém até 1967. Fez aprovar o novo Código Civil. [...] Adquire a imagem de defensor da renovação da política económica e social do regime [...] encarado em 1968 como candidato à sucessão de Salazar."
Dicionário de História do Estado Novo, vol. 2, Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito (dir.), António José Telo. Círculo de Leitores, 1996, p. 1001
José Lopes e Rosalvo:

A minha formação política permite-me pensar sempre que a posição contrária pode ser a certa e jamais ostracizei alguém por divergir de mim, mas não posso acompanhá-los na defesa de um ministro da Justiça de Salazar, com Tribunais Plenários, prisões arbitrárias, desterros, violência e tortura, enfim, o fascismo a que não faltaram cúmplices, pelos vistos, com inteligência, boa formação académica e execrável indiferença pelos Direitos Humanos.

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