Rui Rio e a maçonaria

Rui Rio é, dos candidatos que disputam a liderança do PSD, o único não comprometido com a herança tóxica de Cavaco, Passos Coelho e Santana Lopes. Este último foi, aliás, o adversário que representou os anteriores e resolveu, num ataque de narcisismo, fundar um novo partido, de ideias velhas, vícios antigos e tentações neoliberais.

A liderança do PSD, pelo papel importante que o partido representa no espetro político, não pode ser indiferente a qualquer quadrante e, muito menos, aos que defendem uma democracia pluripartidária, como é o meu caso.

Rio será assim o mal menor e a única opção capaz de reconduzir o PSD à matriz inicial de Pinto Leite, o líder da ala liberal da Assembleia Nacional, onde se distinguiram Sá Carneiro, Magalhães Mota, Miller Guerra, Francisco Balsemão e Mota Amaral.

Pinto Leite seria o líder natural do PSD. Morreu num desastre de helicóptero, na Guiné, antes do 25 de Abril. Assim, foi Sá Carneiro a fundar o partido e viria a morrer também num trágico acidente de avião em Camarate, quando PM. Magalhães Mota abandonou o partido, desiludido com a deriva direitista, e só Balsemão e Mota Amaral ficaram, dado que Miller Guerra aderiu ao PS. Depois foi a deriva direitista do partido que sempre se afirmara social-democrata, até à tomada do poder por Cavaco, com o apoio de Marcelo, Júdice, Barroso e Santana Lopes, então a ala direita do PSD, na conspiração da Figueira da Foz.

Isto é a história do partido e das pessoas que estiveram na sua origem, dos seus desvios e desvarios. Rio parece ser ainda uma reserva moral e ideológica. Lamentavelmente trouxe à disputa interna a referência à maçonaria, a que o ódio do fascismo quis lançar o ferrete da ignomínia, à instituição que esteve na origem do liberalismo, da República e de todos os avanços políticos no campo dos direitos humanos e da democracia política.

Ser maçon devia ser o mesmo que pertencer a um clube de futebol, associação cívica, de benemerência, artes ou letras, com acrescidas obrigações éticas. Ora, o que se passa, é a demonização da associação de livres-pensadores, defensores dos ideais da Revolução Francesa, da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Rui Rio, não distinguiu Lojas Regulares do Grande Oriente Lusitano, na pugna interna, e, à semelhança da Pide e do clero salazarista, estigmatizou uma instituição respeitável.
 
É lamentável que substitua por acusações gratuitas o combate de ideias e que a denúncia de determinada pertença possa ser suspeição. Na maçonaria convivem pessoas de várias opções filosóficas, na luta comum pela liberdade e justiça social, com diversas afeições partidárias, no respeito absoluto pelos Direitos Humanos, ao contrário de religiões, onde o proselitismo, espírito totalitário e desrespeito dos direitos individuais são frequentes, sob o pretexto de alegada vontade divina.

O devaneio de Rui Rio foi um mau serviço à democracia e um ataque que não o honra. Talvez fosse um mau aconselhamento do Opus Dei.

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