Memórias da ditadura

Memórias da ditadura

Basta uma geração para outra esquecer de onde veio e menosprezar aonde chegou.

Poucos saberão hoje que os funcionários públicos não tinham, em 1961, data em que comecei a dar aulas, como professor do ensino primário, nem assistência médica nem medicamentosa.

Em 1962, com 19 anos, tive necessidade de uma consulta urgente e valeu-me ser menor de idade, a maioridade atingia-se aos 21 anos, e o meu pai ser sócio de uma instituição particular, Montepio Egitaniense, que lhe dava direito a consultas gratuitas para mulher e filhos. Escusado será dizer que os medicamentos receitados foram integralmente pagos por mim ou pelo meu pai.

Porque os homens eram poucos, apesar de lhes ser vedada a docência em escolas mistas e femininas, efetivavam-se no segundo ano de trabalho, praticamente onde desejassem, mas as colegas passavam longos anos ou a vida toda como professoras agregadas, sem lhes ser contado o tempo de serviço e sem ordenado, de 14 de julho de cada ano a 1 de outubro, 2 meses e 27 dias, situação a que se sujeitavam para não saírem da localidade onde tinham a família.

Para lá de vencimentos miseráveis, o que me levou a abandonar a docência, ainda se era vigiado nas companhias, nas leituras e na correspondência, como prova uma inofensiva carta de 25 de novembro de 1963, data do carimbo de correio, dirigida ao diretor do jornal República, Carvalhão Duarte.

Seria hoje crível que um delegado escolar, função para que fui nomeado em novembro de 1963, tendo sido exonerada a professora que exercia essa função, porque “uma mulher é que não”, tivesse a ousadia de proibir, às professoras, regentes e auxiliares de limpeza, saias curtas, decotes pronunciados e mangas curtas?

Pois era o que fazia o Albininho, colega que conheci, presidente da Câmara e delegado escolar de Óbidos. Não admira, pois, que uma professora só pudesse casar, depois de autorizada pelo ministro, com quem tivesse rendimentos superiores aos dela e gozasse de boa reputação e comportamento.

Enfim, se deixasse a memória exumar os esqueletos do fascismo, faltar-me-iam meses e anos para descrever o que era o país concentracionário da ditadura nos tempos em que fui jovem.


Comentários

JA disse…
Pela preservação da memória, obrigado pela publicação do testemunho. Pena é que eu não tenha conseguido ler a primeira página, que não consegui ampliar.
É uma carta inócua de um assinante do Jornal República ao diretor. O interesse é a apreensão pela Pide. Há muito que tenho a referência de todos os documentos a meu respeito que estão na Torre do Tombo, mas não tenho paciência de ir a Lisboa fotocopiá-los, Só tenho meia dúzia cujas fotocópias paguei quando eram muito caras.
Na minha página do Facebook lê-se bem: https://www.facebook.com/carlos.esperanca.1?__cft__[0]=AZZku1gd0CbknW9pJRzL8KvVSqdMXHYbbXJ4z0tvPo3JXxs_T7UKqFKhp8A6MbcK6bM7JLGSnzxGlljcCnYckHtlt77Vcf1hrSayvPK2GtEDYN0_qTWBFr5pzvJBSXSM0rG3Krdb_6h3HfTcptDMACpL&__tn__=-UC%2CP-R
JA disse…
Obrigado por me enviar a ligação para o seu facebook, mas como não faço parte da rede, não consigo aceder-lhe. Contudo, acabei por ler a sua carta, copiando-a para um documento que permitiu a ampliação. Não posso deixar de gabar-lhe a coragem, julgando que tais gestos engrossaram o rio que haveria de desaguar em 25 de ABRIL.

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