quinta-feira, abril 13, 2017

A Síria e o uso do gás sarin – A contrainformação pode ser terrível


Não padeço de antiamericanismo primário, capaz de comparar Obama a Trump, nem de seguidismo moscovita capaz de ver na Rússia de hoje a falecida URSS. Aliás, os factos acabarão por desmascarar o maniqueísmo de quem vê o mundo de forma unilateral.

Posso, pois, errar, sem desejar enganar, e refletir sem preconceitos, surpreendido com a rapidez com que os países do sul da Europa apoiaram Trump no ataque punitivo a uma base Síria. Estavam ansiosos pelo pretexto que lhes permitisse apoiar quem desprezam, alheios à prudência da ONU, instituição que o presidente americano quer neutralizar.

Raramente uma guerra teve tantos suspeitos dos dois lados. A luta entre sunitas e xiitas lembra a guerra europeia dos Trinta Anos, sem Paz de Vestefália à vista, e a reedição da invasão do Iraque, agora de duração indeterminada.

EUA e Rússia digladiam-se com terroristas bons de um lado e terroristas maus do outro, alternando conforme o lado de que são vistos. Entre uns e outros, venha Alá e escolha.

A ONU identificou 25 ataques químicos desde 2011 e os seus investigadores atribuíram a maioria dos ataques às forças governamentais da Síria, sublinhando que a lista não era definitiva, e, sobre o ataque que serviu de pretexto à retaliação unilateral americana, não houve ainda qualquer veredicto. O precedente do Iraque exigia prudência dos que se apressaram a defender o ataque americano, de nebulosa finalidade.
 
A Síria teve armas químicas e usou-as, mas, tal como Saddam, aceitou que o seu arsenal fosse destruído. Não custa acreditar, até prova em contrário, que o bombardeamento de um depósito de rebeldes tenha causado a dispersão do gás que matou escassas dezenas de pessoas e teria, se provada a autoria Síria, uma repercussão devastadora para Assad.

Numa guerra que já provocou centenas de milhares de mortes e milhões de refugiados, o preço de gasear deliberadamente dezenas de pessoas era excessivo para a ameaçada sobrevivência do Estado da Síria numa altura que a correlação de forças o favorecia.
 
O acordo entre a Síria e Irão para o oleoduto para escoar o petróleo do Cáspio evitando a Turquia, preterindo sauditas e outros países do Golfo no fornecimento de petróleo ao Ocidente, é talvez a principal causa da guerra. Também por isso, é legítimo duvidar da origem do gás e saber se a Síria o usou no ataque ou se este o libertou de um depósito rebelde.

Ponte Europa / Sorumbático

3 Comments:

At quinta abr 13, 08:55:00 da manhã, Blogger e-pá! said...

A balbúrdia que vai nas cabeças dos populistas que se instalaram na Casa Branca é tão grande que o seu ‘boss’ anunciou (triunfante?) ao presidente chinês ter bombardeado o… Iraque! link
Lamentáveis têm sido os créditos políticos atribuídos pelos governos ‘ocidentais’ e ‘aliados circunstanciais’ a uma discricionária, intimidatória e desproporcionada demonstração de força efetuada à revelia das instituições internacionais e antes que estejam concluídas as investigações sobre o grave incidente ocorrido na Síria que envolveu armas químicas. Mais parece o exercício do medievo 'direito de pernada'.

O Ocidente nunca ganhou nada (pelo contrário) em atribuir aos EUA o estatuto de ‘polícia do Mundo’. O resultado foi sempre pôr o Mundo a reboque de ‘particulares e obscuros ’ interesses norte-americanos.

E, finalmente, os States não possuem de jure ou de direito tal estatuto e, pior, autoridade moral e condições éticas para assumirem tal papel. Convinha, em momentos dramáticos deste tipo (utilização de armas químicas) não esquecer o comportamento das forças armadas americanas no Vietnam.
Na realidade, durante a guerra que travou no Vietnam, os EUA, ignoraram ostensivamente o ‘Protocolo de Genebra’, que aparece após os massivos gaseamentos da I Guerra Mundial, e tinha sido assinado (pelos Estados Unidos) em 1925…

 
At quinta abr 13, 03:01:00 da tarde, Blogger Duarte Bruno said...

Não.

Não se pode acreditar até prova em contrário que os rebeldes teriam capacidade de produzir Sarin.

Não se pode acreditar que um gás que necessita precursores bi-componentes se mistura sozinho nas proporções corretas.

Não se pode acreditar que um gás que se degrada em semanas esteja pronto a ser convenientemente espalhado por uma bomba.

Até prova em contrário, não se pode acreditar que os rebeldes tinham uma fábrica de armas químicas no meio da população.

Até prova em contrário, não se pode acreditar que não foi a Força Aérea Síria a perpetrar este Crime.

 
At quinta abr 13, 07:32:00 da tarde, Blogger Manuel Galvão said...

Bruno, não se pode acreditar! Mas já lá dizia o velho Sherlock Holmes; deve investigar-se primeiro quem ganha com o crime.
No meio da confusão das hostes diversas no mesmo campo de batalha, poderá haver sempre uma que aceite fazer um frete ao amigo americano.
Fartava-me de rir se se descobrisse que o gás tinha um rótulo desleixado "Made in USA)...
É que até hoje ainda ninguém compreendeu como as torres gémeas poderão ter implodido, logo as duas, tão certinhas, a caírem na vertical!

 

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