A laicidade é a vacina do proselitismo

A laicidade é uma exigência constitucional e um instrumento que assegura a liberdade religiosa e a neutralidade confessional, sem a qual o espaço educativo se transforma em veículo prosélito de uma só confissão ou em arena de confronto de todas.

 A laicidade remete o livre exercício das várias opções religiosas ou filosóficas para a esfera privada. Exige, pois, uma neutralidade confessional absoluta e a separação radical entre a esfera pública, regida por valores cívicos e políticos consensuais, e a privada que, essa sim, deve ser um espaço de liberdade individual.

Os que hoje procuram usar as instituições do Estado ao serviço das suas crenças, serão os primeiros a exigir a sua neutralidade se as crenças exógenas à tradição e cultura da civilização europeia se impuserem com a sua agressividade e vocação totalitária.

A laicidade não impede a existência de ensino confessional privado, apenas exige aos órgãos do Estado e, naturalmente, à escola pública, a neutralidade que lhe permita defender as práticas diversas de uma sociedade plural, civilizada e cosmopolita que é hoje (ainda) o ethos da matriz europeia.

Não há nenhum país livre e democrático se o Estado não se comportar com neutralidade em relação às crenças, às descrenças e às anti-crenças dos cidadãos que administra.

Comentários

Manuel Galvão disse…
A Direita trata a Esquerda como preguiçosos e perdulários, há séculos que assim é. Excluindo o período de 1945 a 1989 no qual a Direita abriu mão de parte dessa política na Europa Ocidental e permitiu a criação de partidos socialistas “do arco do poder”, a que chamou “socialistas em liberdade”, para evitar males menores, isto é, para evitar que as ideias comunistas atingissem amplamente as classes trabalhadoras. A URSS aqui tão perto!
Foram os tempos áureos de Willy Brant, Mitterrand, Mário Soares, até de Yasser Arafat, todos dentro da grande irmandade da Internacional Socialista (em liberdade), todos tolerados pelo Grande Capital, e até subsidiados, uma vez que foram muitos deles que geriram os dinheiros do Plano Marshall.
Mas o Muro caiu, permitindo a Globalização da economia mundial e do Dólar como moeda de reserva de grande parte das nações pobres. Dólar liberto da paridade ouro e ancorado no controlo da produção de petróleo mundial por parte dos EUA. Permitindo a divulgação da liberdade de circulação de capitais e com isso a generalização dos Mercados Financeiros, empresas de rating, etc., e as tentações de acesso a crédito barato e fácil, sem contrapartida de garantias reais, mas como contrapartida única a destruição total de quem prevarica… Esse foi o verdadeiro golpe que tem permitido ao Grande Capital chamar a si TODA a riqueza produzida em todos os países, sob a forma de Juros de empréstimos.
Os partidos socialistas “em liberdade” e suas perspectivas ideológicas não estão em crise. Estão, isso sim, a ser DESTRUÍDOS.
Não é um “‘golpe’ há largos anos em curso”, é um ‘golpe’ posto em movimento há menos de 2017-1989=27 anos…
Ainda há quem não entenda a dimensão do desastre que foi a queda do muro de Berlim…
Esse evento pôs fim ao medo da destruição do capitalismo pelas ideias comunistas. Os banqueiros e grandes empresários perderam a vergonha desde então e para eles a palavra de ordem, hoje é "regressar ao antigamente, ao tempo do poder absoluto".
Manuel Galvão:

O seu comentário, pertinente e bem pensado, destinava-se certamente ao post do e-pá.

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