Espanha - a herança franquista

É difícil a defesa da laicidade, a exigência da neutralidade do Estado, a reivindicação de conduta igual para todas as religiões. Os cálculos eleitorais superam a salubridade cívica e um módico de pudor republicano.

Os hospitais portugueses enchem-se de imagens de Senhoras de Fátima e crucifixos que os doentes oferecem, alheios aos médicos, enfermeiros e medicamentos que os curaram, para imporem os símbolos da sua religião particular, que o laxismo e a cumplicidade de direções pusilânimes favorecem.

As escolas são já, através da autonomia que o ministério lhes confere, um instrumento de proselitismo religioso, com missas, terços e excursões pias, onde a laicidade a que a Constituição obriga é profundamente desprezada e espezinhada.

Nas autarquias, onde o fervor pio medra em anos eleitorais, organizam-se peregrinações a santuários, com transporte, seguro e farnel, para angariar os votos em lares de idosos sensíveis à salvação da alma e, sobretudo, à atenção aceite por quem enfrenta a solidão.

A Europa, cuja democracia se estabeleceu com a repressão política sobre o clero, cedeu a tradição laica aos interesses partidários e às negociações com minorias religiosas que a ameaçam. A cobarde cedência ao clero de que se libertou obriga-a a proteger ideologias que sob a capa de religião têm a obsessão de sujeitar o mundo às exigências tribais que as crenças perpetuam.

No entanto, a Espanha franquista cuja transição impediu a votação sobre a natureza do regime (as sondagens apontavam regularmente a vitória da República), manteve-se fiel à vontade do genocida Franco e ao paradigma da velha aliança do trono e do altar.

A apoteose do ridículo é a aplicação de um Decreto Real que manda colocar a bandeira a meia haste pela morte de “militares em serviço, rei, herdeiro, consorte ou em dias de luto nacional”, ter sido estendida à morte de Jesus Cristo. Assim, o atual ministério da Defesa ordenou içar a bandeira a meia haste em todos os quartéis, pela morte de Cristo.

Uma ordem interna estabelece que “desde as 14:00 horas de Quinta-feira Santa até às 00:01 horas de Domingo de Ressurreição, a insígnia nacional ondeará a meia haste em todas las unidades, bases, centros e aquartelamentos”. E, assim, segundo o Ministério, “respeita-se o exercício da liberdade religiosa”, convertendo os quartéis em sacristias.

O imperecível defunto voltará a morrer nos anos que vierem e ressuscitará de novo para arejar a bandeira.

Comentários

Jaime Santos disse…
Trata-se exatamente daquilo que refere, o fim da repressão política sobre o clero. A nossa segunda República, mau grado a água benta imprescindível às inaugurações de infraestruturas públicas, comporta-se de forma bem mais inteligente relativamente às religiões do que a primeira, com a alienação do eleitorado católico e os sucessivos golpes e contra-golpes anti e pró-republicanos. O meu avô, mais velho do que o século, não guardava dela grandes saudades, mau-grado o republicanismo de seu Pai, que o levou a participar na intentona de 1891 e mais tarde, já depois de 1910, a ligar-se à Formiga Branca. Não, Carlos, a existência de um regime político liberal obriga a acomodação com as religiões ou mesmo com as superstições de cada um. Pode isso representar um perigo para a própria Democracia, com o surgimento de Partidos de índole religiosa? Pois pode, mas um regime que não se atreve a correr esse risco não é uma Democracia. Como a primeira República não era, note-se...

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