Associação Ateísta Portuguesa - Mensagem do presidente


Ao comemorarmos o 4.º aniversário da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) saúdo todos os sócios, ateus e ateias que vieram e os que não puderam vir, agnósticos, racionalistas e todos os livres-pensadores, especialmente os que vivem em países onde são excluídos, perseguidos e mortos pelo fanatismo das teocracias ou marginalizados pelo poder, onde as religiões se infiltraram no aparelho do Estado. Neste caso, estendo a solidariedade aos crentes das religiões minoritárias, igualmente vítimas das religiões dominantes.

Em Israel, com os judeus das trancinhas à Dama das Camélias, o sionismo espalha a violência e a morte na faixa de Gaza; nos EUA o protestantismo evangélico ganha força e restringe as liberdades; em África assiste-se a um duelo mortal entre o islamismo e protestantismo evangélico; no norte de África a primavera árabe caminha para a sharia e, enquanto na Grécia a Santíssima Trindade preside aos atos políticos, por intermédio do clero ortodoxo, a Turquia reislamiza-se perigosamente e muitos países são vítimas do fascismo islâmico. Os monoteísmos são detonadores de guerras mas o islamismo e o cristianismo digladiam-se na imposição das suas superstições e mentiras à escala planetária.

Em Portugal a Constituição é letra morta quando se trata de cerimónias de Estado, quase sempre assistidas por dignitários católicos, embrulhados nas vestes talares, em lugares de evidência. As procissões e outros atos pios são abrilhantados pelos cavalos da GNR e pelas forças policiais e militares dos diversos ramos à custa do erário público. Em época de eleições não faltam excursões a Fátima promovidas e pagas pelas autarquias.

Os professores de Religião católica são nomeados discricionariamente pelos bispos e pagos pelo Estado, contando o tempo para progressão na carreira de uma disciplina para a qual tenham habilitações e, assim, ultrapassarem colegas mais classificados.

O feriado do 5 de outubro, data emblemática do regime e da separação da Igreja e do Estado, foi suprimido em conluio com a Igreja católica, a única que acrescenta aos 52 domingos que já tem, os únicos feriados religiosos que existem e gozam de igualdade perante os feriados cívicos.

Enquanto a Irlanda suprime a embaixada do Vaticano, Portugal mantém, a cem metros da Italiana, outra, que não cabe no bairro de 44 hectares onde está acreditada. A pobreza e o desemprego fazem com que a Igreja católica readquira o poder perdido, infiltrando-se nas áreas da educação, assistência e saúde, com o poder crescente das Misericórdias.

Cabe à AAP lutar para que, neste período de crise, o IMI e o IRC seja estendido às instituições da Igreja, com exceção dos edifícios destinados ao culto. Os privilégios de que goza são uma ofensa à laicidade e uma fonte de iniquidade, muitas vezes de concorrência desleal, com colégios, lares, hospitais, universidade, editoras e outros estabelecimentos comerciais isentos de impostos.

Cabe à AAP defender a igualdade dos cidadãos perante a lei e a laicidade do Estado, respeitando os crentes e combatendo o poder das religiões, rumo a uma sociedade onde as crenças particulares não interfiram nos assuntos de Estado. É o nosso objetivo, a bem da paz, do progresso, da cidadania e da secularização de Portugal.

Bom almoço. Vale mais um bom almoço do que a última ceia. Saudações ateístas.

Coimbra, 26 de maio de 2012

Comentários

Carlos P. P. disse…
Subscrevo! Saudações!
Mario Neiva disse…
Acompanho-vos no reconhecimento das barbaridades cometidas em nome de Deus ou da ideia que se constrói de Deus. Para mim, aquilo que os humanos chamam de Deus não passa de uma cosntrução humana, como é tudo o que constitui a sua cultura. Por isso não é de estranhar que, ao lado dos "monumentos" fabulosos de arte contruídos em torno do Amor, 0os homens tenham feito outro tanto em torno da ideia de Deus.
As desgraças que acompanharam e acompanham Deus ou o Amor são os inevitáveis danos colaterais na forma como vivemos a vida.
Já foi pior. Mas concordo com a vossa análise: ainda é demasiado mau.
Não sou teista, nem ateu, mas também nâo me considero agnóstico, pela simples razão de que admito o "mistério". E este não é algo de sobrenatutal, como se fosse uma realidade paralela à nossa, mas o simples desafio do inifinito. A aproximação a este mistério faz-se em direcçâo ao futuro e não ao passado, a um "princípio".
Naquele tempo Deus criou os homens.
Mas não tardou que estes lhe respondessem à letra.
Era bom um pouco de ordem neste despautério.
Daí o meu aplauso.
Mario Neiva disse…
"Vale mais um bom almoço que a última ceia". Esta é uma daquelas tiradas que não surpreendem, quando saídas da pena da iliteracia.Fazer uma abordagem da narrativa bíblica da "última ceia" com esta leviandade, absolutamente descontextualizada, equivale ao gargalhar do burguês enfiado na sua fatiota, diante da vestes rudimentares de um dos nossos longínquos antepassados.
E o pior é este senhor presidente nem se dar conta da barbaridade que escreve. Os fiéis seguidores apalaudem acriticamente, como fazem os crentes de qualquer religião, diante de sermões tão falhos de cultura humana como este do senhor presidente.
Enfim, "cegos guias de cegos".
Não há, entre os piedosos fieis ateistas, um só que faça ver ao senhor presidente que a chaga do obscurantismo se combate com a luz inelutável do conhecimento? Não percebeu que a "minha palavra contra a tua" só conduz ao confronto alargado? Que o teista acabará por recorrer a todos os meios disponibilizados pela ciência para uma vida mais saudável, longa e feliz, marginalizando cada vez mais a sua "fé" cega? Será que o senhor presidente ainda não percebeu que é o apego a qualquer forma de poder, sobretudo económico, que faz mover a grande máquina das políticas e das religiões? Passa pela cabeça de alguém, encetar o combate a tais poderes ridicularizando a história da cultura humana nas suas expressões concretas e datadas?
Mas se vos "dá pica", cheguem fogo à peça. Podem não contribuir grande coisa para o progresso da humanidade, mas têm o mérito de colocar o dedo numa chaga. Pena que o façam tão atabalhoadamente.
Luis disse…
Carlos, poderá ter razões para se regalar com um bom almoço, mas a Igreja ainda ajuda a entregar o almoço possível a muita gente.

Não o reconhecer é ir travar a batalha no sítio errado. E não são equívocos desses que unem os ateus: é, tão somente, a ausência de crença num deus.

Luís Ateu

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