O ‘ilusionismo académico’ e o carreirismo político….

A qualificação dos dirigentes políticos passa por uma avaliação concreta, vasta e polifacetada e, por estas razões, trata-se de um processo meticuloso, exigente e permanentemente escrutinado.
Interessa – aos cidadãos – conhecer os percursos de vida (curriculum) e, acima de tudo, o empenhamento em projetos e causas políticas, cívicas e sociais.

Assim, um dirigente empresarial de sucesso, isto é, um empresário virtuoso não será obrigatoriamente um bom político. E vice-versa.
Por outro lado, um brilhante académico não é necessariamente um mestre na política. Entre as vetustas paredes dos campus universitários e a ‘Universidade da Vida’ (como p. exº Gorki a descreveu) existe um largo fosso.
 
A 'predominância da sociedade civil’ – que é um assunto do momento na boca de toda a gente - não passa exatamente pela transposição mecânica de funções e qualificações pessoais, profissionais ou setoriais e adaptações à balda (mecânicas) à 'coisa pública'.
 
Se nos reportarmos a Gramsci verificamos que o ‘fenómeno educativo’, complexo e diferenciado - institucionalizado ou não - vai condicionar decisivamente o poder de intervenção político e social.  Althusser - na década de 80 - chamou a atenção para o papel da educação no sistema capitalista como instrumento estratégico de dominação de classe. É um pouco a reafirmação da teoria marxista que atribui à ‘Escola’ (latu sensu) a capacidade instrumental de reproduzir (perpetuar) as desigualdades sociais, aprofundando as diferenças de classes.
 
Antonio Gramsci tenta ultrapassar o âmbito deste ‘instrumento replicador de desigualdades’ enquadrando a ‘Escola’ numa perspetiva mais vasta e abrangente, reconhecendo-lhe uma função transformadora (social e ideológica). Assim, a Escola forneceria os meios (iniciais e primários) para, a par da consciencialização cívica e política, temperada pela atividade social e participação no mundo associativo e cultural, dotar todos os cidadãos, incluindo os oriundos de classes mais desprotegidas, da capacidade de se prepararem e organizarem para ‘governar o sistema’ que, na realidade, os cerceia e oprime.
 
Esta ‘função libertadora’ da Escola tem sido descurada pelo Estado (superestrutura) e pelas infraestruturas educativas e sociais (disponíveis) e dificilmente é possível encontrar exemplos de sucesso.
Os jovens enfrentam, na idade escolar, uma sociedade multiforme (ideologicamente), diversificada (politica e organizativamente) e vinculada a determinado tipo de respostas sociais, económicas, financeiras e culturais.
 
O Mundo moderno exige opções muito precoces e demasiado pesadas para estruturar um tirocínio qualificado de cidadania. Na ausência de uma livre formação ideológica baseada no conhecimento histórico e filosófico (das ideias) e no esforço de aquisição de uma cultura teórica (doutrinária), cuja consolidação só será cimentada por participações em estruturas comunitárias e associativas, muitos são literalmente aliciados para uma intervenção política precoce através das organizações juvenis, na maioria dos casos de índole partidária. Transformam-se em ‘jotas’. Na realidade, as ‘juventudes partidárias’ não se empenham na formação ideológica dos jovens aderentes, não são ‘escolas cívicas’ e, no essencial, promovem a ascensão carreirista dentro das estruturas organizativas partidárias tendo como finalidade primária o 'apressado' desempenho de funções de chefia. Existe, nessas organizações, uma ‘cultura de reprodutividade’ (replicação) e de dominância mesclada com preocupações hegemónicas, muito pouco saudável e bastante distante do exercício de uma liderança que seja reconhecida pelos cidadãos.
 
O trajeto formativo, isto é, educacional, é um longo percurso feito de experiências no terreno político, social e cultural o que se torna muito moroso e pejado de obstáculos, circunstância que frequentemente (repetidamente) põem à prova as qualidades de liderança, escrutinando-as no dia-a-dia. Mais fácil, expedito e profícuo, é fazer curtos-circuitos com base em compadrios de grupo, ou de fação, dentro das estruturas partidárias.
E para suprir as carências de currículo cívico os(as) candidatos(as) às lideranças político-partidárias,  bem como os  que aspiram desempenhar cargos políticos (de nomeação ou de eleição)  são tentados a enveredar pela adoção de falsos adornos académicos, no âmbito de um espúrio carreirismo. A par desta perversão todos são - ou se arrogam - como 'especialistas em economês’. Um ‘vício’ que se observa, tanto na política doméstica, como na internacional, nomeadamente, na Europa pretensamente erudita, culta e civilizada.
 
Os graus académicos são, hoje, exibidos como títulos nobiliárquicos na galeria dos embustes e das vaidades. A ‘nova aristocracia liberal e ultraliberal’ adora as licenciaturas, os mestrados e os doutoramentos. Os títulos tornaram-se os novos brasões para exibir na ausência de qualificação cívica e para colmatar défices de formação e para dar credibilidade aos maiores dislates.
Exemplos como ex-presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que inscreveu no seu CV um falso mestrado em Economia Empresarial pelo University College Cork; da ex-ministra da educação alemã, Anette Shavan que plagiou a tese de doutoramento, aliás na peugada do seu colega de Governo e ex-ministro da defesa Karl-Theodor zu Guttenberg que também – pelo mesmo motivo - foi obrigado a demitir-se, parecem estatisticamente pouco significativos mas são - em termos éticos - paradigmáticos.
 
Os nossos díspares e variados casos paroquiais como seja a licenciatura de Miguel Relvas, a licenciatura em engenharia do José Sócrates, entre outros, parecem 'meninos de coro' em relação a idênticos acontecimentos numa Europa ascética, reformadora e calvinista.
 
Recentemente – muito embora num outro âmbito - o caso do ex-secretário geral do PSD, Feliciano Barreiras Duarte, cujos contornos são um alerta para qualificações introduzidas no CV ad libidum e, ainda mais recentemente, o da presidente da Comunidade de Madrid, Cristina Cienfuentes, que está sob investigação com a acusação de ter forjado o seu mestrado, revelam algo de profundamente errado e enviesado no processo de qualificação académica dos políticos. Agora já não chegam os ‘cursos de aviário’ e entrou no programa de angariação e recrutamento de dirigentes políticos as graduações pós-licenciatura, forjadas ou obtidas ad hoc.
 
Estamos a resvalar para outro patamar. Os putativos representantes do povo iludem (dispensam) a parte cívica e, cavalgando uma imprudente impunidade, empolam a académica. Quem pretende esconder deficits de formação política, pouca ou nenhuma tarimba em questões sociais, ostensivo distanciamento de atividades cívicas e, por fim, habita um deserto cultural, descobriu um novo passatempo: rechear o curriculum com devaneios académicos.
 
Este é um embuste primário que, não sendo desmascarado, será o prelúdio de outros. O que se constata é que não há nada - nem ninguém - capaz de escapar incólume à voracidade destes ilusionistas que, nestes tempos sombrios e invernosos, proliferam como cogumelos…

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