Panmunjom e a anunciada cimeira Kim/Trump…

A situação que se vive na Coreia (nas Coreias) depois do encontro entre os dois  presidentes – Moon Jae In e Kim Jong Un – está traduzida, em termos formais e diplomáticos, por um . comunicado conjunto subscrito pelos  dois países conhecido com a ‘Declaração de Panmunjom’ link.
 
Sinteticamente, esta declaração defende, no imediato, a ‘desnuclearização’ da península coreana e ainda um quadro de paz e prosperidade para os povos (melhor um só povo coreano divido pela guerra). Finalmente, existe nessa declaração um patriótico apelo à reunificação das duas Coreias.
 
Trata-se de importantes avanços no degelo de relações desde há muito conturbadas. Na verdade, o fim da II Guerra Mundial não chegou às Coreias. A divisão da península coreana e a fratricida guerra que se seguiu e conduziu ao armistício (1953) não sofreu alterações com o fim da ‘Guerra Fria’. O impasse era a principal característica do pós ‘Guerra das Coreias’.
 
O alcance do acordo conseguido em Panmunjom é de difícil avaliação. Tanto poderemos estar perante o cansaço – a usura - de uma cruenta divisão de um País com todos os problemas daí resultantes, como perante uma inflexão estratégica (global) que envolve algo mais do que as Coreias. China, Japão, entre outros protagonistas regionais e internacionais, introduzem novos ingredientes no problema que se entroncam em sinuosas estratégias hegemónicas, no presente momento, deslocalizadas para o Oriente. 
Uma visão a longo prazo acerca da evolução da situação na península coreana e os seus reflexos regionais e globais é, no momento, um mero exercício especulativo.
 
Em 2018 (65 anos após o armistício) é imperioso realçar o papel que o actual presidente da Coreia do Sul Moon Jae In desempenhou em todo um processo de desbloqueamento desta latente e conflituosa situação. Tudo começou há alguns meses atrás com a abertura à participação da Coreia do Norte nos Jogos Olímpicos de Inverno 2018. Mais um exemplo da ‘diplomacia através do desporto’. Este primeiro passo, levou a que, no desenvolvimento do processo diplomático, o presidente dos EUA aceitasse uma reunião com Kim Jong Un.
 
O recente encontro dos presidentes das 2 Coreias antecede uma histórica reunião entre a Coreia do Norte e os EUA. Antecede esse esforço e a ‘Declaração de Panmunjom’ esvazia de resultados esse encontro. Não haverá - em pouco espaço de tempo - capacidade para progredir e ultrapassar o vasto e audacioso acordo assinado na ‘Casa da Paz’ em Panmunjom.
 
Não é de crer que toda esta movimentação diplomática tenha acontecido sem o conhecimento e a bênção dos EUA. Só que estas conversações ocorrem quando a Secretaria de Estado norte-americana está em mudança de titular e existe, na prática, um ‘vazio diplomático’ na política externa americana (o indigitado secretário de Estado Mike Pompeo na altura desta cimeira ainda aguardava o agrément do Senado).
Moon Jae In e Kim Jong Un aproveitaram este lacunar vazio e avançaram para terrenos que estariam, porventura, para além do expectável.
 
Da permanente rotatividade e as recorrentes demissões e saídas no staff da Casa Branca começam a revelar-se as inevitáveis consequências. O presidente Donald Trump quando se encontrar com o dirigente da Coreia do Norte, tentando afirmar um liderança mundial que lhe está a escapar, pouco mais poderá adiantar em relação ao exposto na ‘Declaração de Panmunjom’.
 
Vamos ver com será desenvolvido e tratado o tema de ‘desnuclearização’. O que significa e qual o alcance da expressão ‘completa desnuclearização’?
 
Na verdade, Kim Jong Un deu um inesperado (tático?) passo – ou iniciou um perigoso jogo -  na marcha para a reunificação das Coreias e só o tempo o esclarecerá. Por outro lado, Moon Jae In, ao subscrever a declaração, ‘emparedou’ Donald Trump - o mesmo personagem que há meses atrás ameaçava com os ‘tuitados FF’s’ / ‘Fogo e Fúria’- num irrelevante (bacoco) ensaio de protagonismo na política exterior (internacional).
 
Na projecta reunião entre Trump e Kim Jong Un pairará a sombra de uma incontornável ausência que poderá fazer toda a diferença em termos de resultados para a Paz: o presidente chinês. Mas esse será um outro problema em desenvolvimento.

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