Síria: primaveris contradições e os abissais perigos…

O ataque promovido por uma restrita ‘coligação ocidental’ à Síria - sob ao manto diáfano de uma NATO - representa o abrir de uma ‘caixa de Pandora’ link . Poderá ser o sobressalto final prenunciador de um desastre e transformar-se no epílogo de uma eminente e inglória rendição estratégica (dos ditos ‘aliados’).
 
Daqui para a frente será difícil, no concerto das Nações, falar ou invocar questões de soberania. Os mais fortes, isto é, os pretensos ‘donos do Mundo’ arrogam-se do direito de impor - à força – as suas soluções políticas e estratégicas, ao arrepio dos organismos internacionais (ONU, p. exº.) dispensando, inclusive, a necessidade de evidências (como é o caso da ainda não confirmada utilização - em Douma - de armas químicas).
 
Questões estratégicas que orbitam à volta da manutenção de hegemonias – em risco global, sublinhe-se – tendem a abafar o direito internacional e são capazes de perturbar os equilíbrios e a Paz. O passatempo do Ocidente será a ‘invenção’ de pretextos.
Sempre que a situação no terreno é desfavorável aos intervenientes ditos ocidentais é certo e sabido que surgirá uma denúncia de utilização de ‘armas químicas’ ou casos de bombardeamentos em alvos civis. Nada disto é inovador pois o Mundo, hoje, conhece os pretextos e descortina as motivações últimas que conduziram, p. exº., à invasão do Iraque.
 
É certo que a ‘intervenção aliada’ foi cirúrgica tendo evitado as posições russas e iranianas instaladas no terreno (como é público). Nem mesmo a sede do Governo sírio em Damasco - alvo fácil instalado no alto de uma colina - foi um objetivo tático desta nova provocação bélica. Apesar de toda a ‘propaganda trumpista’ os sírios (e não só os adeptos do Assad) sabem que, nas difíceis condições que vivem no seu País, Washington porfia em promulgar legislação, proibindo a entrada de cidadãos (sírios) nos EUA. Uma acabada imagem do que chamamos por cá ‘amigo de Peniche’.
 
Na realidade, para além de um crescendo de ameaças a que assistimos nos últimos dias a montanha pariu um rato e esta recente manifestação do belicismo orquestrada pelos falcões de Washington pouco difere das que vem sistematicamente fazendo nos últimos anos neste teatro de operações regional.
 
Em princípio, esta manifestação bélica será mais uma ‘jactância do trumpismo’, que aparece acolitada pela Srª. May e por Monsieur Macron (ambos com sérios problemas domésticos). Significativo - para nós europeus - é o facto de a Alemanha ter ficado pela condenação formal do uso de amas químicas (atitude que qualquer cidadão subscreve). A ‘prudência alemã’ deve questionar se o alimentar do conflito entre a União Europeia e a Rússia é do interesse europeu, ou se o ruído de fundo, imanente da nebulosa situação da Administração Trump em relação a Moscovo deve mobilizar a União.
 
A intervenção militar da coligação ocidental na Síria tem, por outro lado, uma finalidade concreta que é difícil iludir. Visa colmatar os sucessivos erros, hesitações e duplicidades que levaram ao soçobrar de uma ‘política aliada’ para o Médio Oriente, nomeadamente, na Síria, Egipto e Líbia.
 
A falácia da existência de uma guerra civil síria originada por questões internas, onde reconheça-se que a democracia não pontifica, não pode servir para encobrir ou dissimular um vasto plano geoestratégico para a região, que ficou (tristemente) conhecido pela surrealista e pretensiosa designação de ‘as primaveras árabes’.
O paralelismo entre a eclosão destas ‘primaveras’ sustentadas e manobradas pelo Ocidente e a crescente implantação do ‘terror jihadista’ (Daesh, Al Qaeda e outros pequenos e voláteis grupos fundamentalistas) é uma ‘pescadinha de rabo na boca’ e, de concreto, será bom anotar que esta ‘política sinuosa e circular’ pejada de permanentes contradições – a par com interesses económicos - poderá exibir no seu seio as chaves fundamentais para a compreensão do que está a acontecer no Médio Oriente.
 
Na realidade, este novo ímpeto guerreiro acontece logo após a reunião do início de Abril, em Ankara, entre Putin, Ergodan e Houhani onde, se tentou desenhar um futuro para a Síria, perante a gritante ausência dos EUA e, acrescente-se, da União Europeia.
Este divórcio que traduz o afastamento do ‘Ocidente’ dos centros de decisão política na região, será o remoto responsável pela tímida provocação militar ontem ensaiada que mais do que punitiva visa a humilhação do regime de Damasco. Foi um ataque punitivo contra Assad e para  a capacidade deste em defender a soberania do País mas, caminhando mais em profundidade, trata-se acima de tudo de uma retaliação política contra Moscovo.
 
O importante será saber se a escalada vai prosseguir e até que ponto as potencias (ainda) envolvidas no problema sírio - com especial destaque para a Federação Russa e EUA - conseguem manter equilíbrios e contenções que evitem uma incontrolada disseminação. A anunciada ‘resposta russa’ é, no momento, a principal preocupação para os defensores da Paz.
 
A Rússia não estará interessada em promover uma resposta simétrica, ou desproporcionada, já que o tempo joga a seu favor. O Ocidente, na prática, já ‘entregou’ a resolução do problema sírio a Moscovo. O anúncio da retirada das tropas e ‘conselheiros militares’ americanos da Síria, feito há muito pouco tempo por Donald Trump link, tem mais significado político do que os arremedos bélicos deste último sábado.
 
Resta aos beligerantes negociar - com ou sem provocações pelo meio - os termos e as condições da solução. Existirá alguém que vai ficar mal na fotografia. Entre estes estarão a Grã-Bretanha e a França que se tornaram ‘compagnons de route’ no enterro da fracassada política do Ocidente para o Médio Oriente.
 
Por estas razões, e passado o impacto inicial, prevalece a sensação que a détente que naturalmente se seguirá não passa de um equilíbrio frágil e continuará a colocar o Mundo ‘à beira do abismo’…

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