Momento de poesia

Velhice
Já não são meus os meus dentes,
São dentes de dentaduras.
E nos olhos trago lentes
Para não viver às escuras.
Que não sou de todo mouco,
Já toda a gente entendeu.
Oiço pouco, muito pouco,
Mas quem no sabe sou eu.
Não tenho os brancos cabelos
De um venerado senhor.
O que pesa é não tê-los,
Nem brancos, nem de outra cor.
Não uso ainda bordão
Para passear sozinho,
Mas conto as pedras do chão
Que piso no meu caminho.
Treme-me a mão quando pego
Num cálice, numa taça.
E na cama já me nego
Ao amor de quem me abraça.
Já sou, enfim, o detrito
De qualquer coisa que hei sido.
Confesso-me neste escrito
E não estou arrependido.
Armando Moradas Ferreira
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