Ainda sobre a oportunidade da candidatura de Mário Soares

No meu comentário ao post anterior do Carlos, talvez não tenha deixado claras as razões da minha opinião relativamente à má escolha de Mário Soares como candidato.

Mário Soares foi um dos "founding fathers" da democracia portuguesa, político extraordinário, de idoneidade inatacável, daqueles da mesma massa de Cunhal, de Sá Carneiro e de Freitas do Amaral. Daqueles que, infelizmente, já poucos existem, tendo sido, na sua maioria, substituídos por políticos profissionais e outros aparelhistas que desde a mais tenra idade militam nas "jotas" e depois nos partidos, sem que outra actividade profissional, para além da política (ou em virtude da política), lhes seja conhecida.

No entanto, após dois mandatos (ainda que breves) como Primeiro Ministro e dois mandatos como Presidente da República, e ainda que nenhum preceito constitucional obstaculizasse a sua recandidatura interpolada à Presidência, não me pareceu essa recandidatura uma boa ideia.

Não pelo argumento da idade- Soares tem hoje mais vitalidade e lucidez que Cavaco Silva, 15 anos mais novo.

Mas Soares é um político que protagonizou um determinado momento- o mais delicado, a transição para a democracia e a sua consolidação- da história política recente de Portugal. A sua recandidatura serôdia deu a muitos eleitores uma certa ideia de apego ao poder, que entra em confronto com o princípio republicano moderno, iniciado por George Washington em 1799, ao prescindir de uma terceira candidatura à presidência dos EUA. A candidatura de Soares era ainda fragilizada, alvo de ódios ad hominem por parte de determinados sectores da sociedade que foram afectados ou desfavorecidos por determinadas convulsões desse perído histórico delicado que protagonizou- nomeadamente a descolonização.

Por outro lado, a teimosia (Socrática??) da cúpula do PS em apresentar o seu candidato como facto consumado, sem negociar com os partidos de esquerda ou com Manuel Alegre, revelou-se trágica. Soares era, de qualquer forma, um candidato inaceitável para o PCP. Uma atomização da esquerda semelhante à das presidencias francesas de 2002.

Outro erro da cúpula do PS terá sido o de subestimar o perigo político de Cavaco Silva na presidência- um erro pesado, em retrospectiva.

Também não defendo que Manuel Alegre- que tem excelentes qualidades como combatente anti-fascista e como orador- fosse um bom candidato- fenecem-lhe algumas outras qualidades que qualificam um bom PR.

Isto dito, esperemos que a Esquerda consiga encontrar um bom candidato às próximas presidenciais, de preferência um candidato que possa fazer o pleno de todas as esquerdas, e que não seja essa candidatura um resultado de teimosias e fitas- nem de teimosias da cúpula do PS, nem de teimosias de Manuel Alegre, nem de teimosias voluntaristas do BE e do PCP.

Comentários

ana disse…
Oxalá a Esquerda consiga engolir os sapos necessários para evitar outro cavaco na Presidência. Mas ao contrário da Direita, espertalhona e matreira, perde-se em discussões inúteis e não aprende com os erros do passado.
André Pereira disse…
Para 2011 temos Alegre, Gama ou Freitas do Amaral. Guterres e António Vitorino estão-se a guardar para 2016.
e-pá! disse…
Caro André Pereira:

Pouco originais as novidades para 2011!

Excepto Gama - que Soares, salvo erro, chamou um "peixe de águas profundas" - e, com isto está tudo dito, quer Alegre, quer Freitas do Amaral, são personagens dejá-vue...que, como o PS sabe, nunca conseguirão o pleno da Esquerda.

No entanto, se for para pescar em águas turvas, i. e., na Esquerda, no Centro e na Direita, talvez Gama seja mais uma aposta falhada.

Gente doutra geração, com prestígio, impoluta, de profunda cultura democrática e com uma prática humanista reconhecida.

Guterres para 2016, porquê?
Ainda não fez 35 anos?
Graza disse…
Num certo sentido, águas profundas ou águas turvas vai dar ao mesmo: não se enxerga nada! Os únicos que enxergam alguma coisa são os predadores. Ora, nós queremos tudo na Presidência menos predadores! Não?
Rui Cascao disse…
Alegre, como já referi, não tem determinadas valências necessárias para um bom PR, mas poderá unir a esquerda.

Gama é uma pessoa extremamente competente, idónea, podendo cativar a esquerda, mas tem uma imagem algo cinzenta e falta-lhe uma boa capacidade de comunicação com o público.

Freitas do Amaral, que poderia ser um excelente candidato, nunca seria aceite pela esquerda.

Guterres seria o candidato ideal, mas seria um sapo difícil de fazer engolir à esquerda.

Vitorino seria um bom candidato... mas será que estaria interessado?

E porque não Cravinho? Esse seria, na minha opinião, o candidato ideal.

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