A homília natalícia do Cardeal Patriarca


A homília de Natal de D. José Policarpo trouxe a público posições rígidas e dogmáticas (para não chamar fundamentalistas) da ICAR que reflectem o modo como as autoridades religiosas olham a sociedade actual.


Disse, Sua Eminência:
“…É um dos grandes paradoxos da História, um povo oficialmente crente em Deus não reconhece Deus que o visita”…

Bem. Não existem povos oficialmente crentes em Deus fora das teocracias, quaisquer que elas sejam.
A confusão entre o Estado laico que temos e a liberdade de prática de qualquer religião, não pode levar o cardeal a reivindicar qualquer privilégio, nem qualquer estatuto de excepção. A liberdade religiosa é um princípio democrático – só existe em plenitude nos Estados laicos – e está acima dos interesses e das mordomias da ICAR, como é o incompreensível regime de excepção da Concordata...
A liberdade religiosa diz respeito a todos os crentes - católicos ou de outras religiões - , e inclusive, aos agnósticos e aos ateus.

Mais adiante afirmou:
"Outros refugiam-se na atitude agnóstica de quem não se pronuncia, de quem não sabe dizer nada sobre Deus. Respeitam os crentes, mas não se sentem interpelados por eles, esquecendo que há inquietações profundas que dificilmente se podem calar".
Estas “inquietações” do eminente purpurado mostram-se distantes de qualquer racionalidade dialéctica.
Na verdade, os agnósticos e os ateus interrogam-se sobre múltiplas posições dos crentes que transbordam para a sociedade. A Igreja, melhor dizendo, as Igrejas, nomeadamente, as hierarquias religiosas, são as primeiras a não tolerar a existência de “não-crentes”, como se vivêssemos em tempos em que a arrenegação dos “Deuses” fosse um abominável crime.

Este foi o imaginário paradoxo histórico que o patriarca não soube resolver e “atirou-o”, numa grosseira generalização, para cima dos cidadãos, acompanhadas do público exorcismo dos agnósticos e dos ateus. De facto, antes destas natalícias congeminações, tecidas no ano da graça de 2009, “sucedeu” há mais de 200 anos a Revolução Francesa. O paradoxo está aqui!

Comentários

André Pereira disse…
Por isso ele saudou os outros monoteístas, mas não saudou os ateus e agnósticos. Que fique bem!
André:

Pela minha parte dispenso saudações pias.
Julio Carrancho disse…
Mais um cardeal papagueando o costumeiro sermão do comércio religioso natalício que o sustenta e protege em uma vida parasitária e improfícua.
Só vingam pela ameaça aberta ou disfarçada, conforme a ocasião [mandou o Loyola].
Perdeu uma belíssima oportunidade de estar calado, lamentemos.
Já se tinham escutado aquelas néscias baboseiras antes.
É sempre o mesmo disco partido, na tentativa de tentar representar-se importante!
Mete nojo!
ana disse…
Do que eu mais gostei foi da tolerância que expressou pelos praticantes de todas as religiões - excepto, é claro, agnósticos e ateus.Estes, só merecem a fogueira.
Graza disse…
"...um povo oficialmente crente em Deus não reconhece Deus que o visita”…

Esta quase me feriu os ouvidos!

Quem lhe conferiu a ele poderes para me excluir do povo? Ou estaria ele só a referir-se aos seus oficialmente crentes por andarem com alguma crise de fé? Talvez seja isso.

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