PSD, o ultimato ou uma execrável chantagem…

O Ultimato inglês sobre o mapa cor-de-rosa apressou a queda da monarquia e levou a que o último monarca (fazendo jus ao cognome de ‘o breve’) se refugiasse na velha Albion. Acabou, deste modo, por desencadear um efeito boomerang.
 
Por cá o PSD ainda não percebeu as voltas que a vida dá. Hoje, o nóvel chefe do grupo parlamentar do PSD, Hugo Soares, aparece a terreiro a lançar um outro ultimato link. Uma auspiciosa estreia. Resta saber como acabará.
 
De facto, Este não é o primeiro ultimato oriundo do partido de Passos Coelho. Tudo começou com um assunto mais modesto. O primeiro ultimato girou à volta dos SMS trocados entre Centeno e Domingues sobre a CGD. A maioria parlamentar fez o PSD/CDS engolir o ultimato link.
 
Os ultimatos são, em regra, a criação de posições extremadas em que o promotor já sabe quais os resultados. São atos de desespero. Todavia, os ultimatos têm consequências. É uma estratégia de enfrentamento que fecha todas as saídas presentes e compromete irremediavelmente muitas das futuras. É um processo de rutura. A Direita sabe como é. Portas fez uma coisa do género com a demissão ‘irrevogável’.
 
Uma outra característica dos ultimatos é que eles (a existirem) tem um tempo certo e uma oportunidade. A gritaria que a direita levantou sobre as funções do Estado no combate aos incêndios não será um bom momento. Os 'sound bites' correm o risco de ‘abafar’ o ultimato.
 
Finalmente, num ultimato não se podem exigir irracionalidades. Exigir que o Governo explicite como fez e os critérios utilizados na contagem de vítimas mortais da tragédia de Pedrogão Grande é liminarmente irracional. Os dados foram fornecidos por diversas entidades intervenientes no terreno e coube ao Governo coligi-los. A divulgação dos nomes pode ser verificada em documentos públicos, quanto mais não seja, nas certidões de óbito. Os portugueses certamente acreditam que as vítimas da tragédia de Pedrogão Grande foram sepultadas legalmente.
 
A publicidade à volta dos cidadãos falecidos, com especial relevo para aqueles o que fazem de uma forma manifestamente gratuita, só deveria ser permitida com o consentimento dos seus familiares. Não creio que o PSD tenha procuração para isso. Como, por outro lado, não há notícias de desaparecidos, ou de famílias que procurem o paradeiro de residentes na zona de catástrofe, resta acreditar que o ultimato tem outros fins para além de um esclarecimento dos cidadãos.
 
O PSD ao gerir a chicana política à volta de Pedrogão Grande com base em ultimatos mostra pouca sensibilidade política, social e um comportamento ético reprovável. Ninguém gosta de receber ultimatos e regra geral a resposta é negativa.
 
A esta hora não é [ainda] conhecida a reacção do Governo. Mas uma resposta negativa é muito plausível por todos os motivos. E um deles é este tipo de ultimatos ter um franco odor a chantagem. E, se acaso, cedesse a esta aviltante chantagem, o Governo ficaria nas mãos do(s) chantagista(s).

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