Eleições presidenciais – Algumas notas heterodoxas

O fascismo dormente já tinha perturbado a democracia com a eleição tangencial de um deputado saído da incubadora autárquica de Passos Coelho para a AR, e era esperada a explosão fascista, com o partido lamentavelmente normalizado pelo PSD, nos Açores.

A presença de Ana Gomes foi útil para evitar o valor simbólico do segundo candidato mais votado numa eleição onde apenas há um vencedor. Prestou um excelente serviço à democracia, mas o resultado não lhe permite aspirar a ser a próxima candidata do PS. A sua propositura por Francisco Assis debilitou-a perante os sociais democratas.

Marisa Matias teve um resultado injusto, a pagar a fatura da sanha persecutória do BE a Mário Centeno para o Banco de Portugal e, sobretudo, a imponderação do voto contra o OE-2021, em clima de ansiedade generalizada, precipitando o abismo que se abriria em período de pandemia, quando o recurso a eleições era impossível e o governo de gestão agravaria a tragédia. Valeu a maturidade do PCP.  

Marcelo ganhou de forma indubitável, aquém dos seus desejos, e a sua legitimidade não se discute. Fez um excelente discurso de vitória, bem elaborado na forma e no conteúdo, algo excessivo no pendor presidencialista num regime parlamentarPortugal tem o PR da direita democrática, eleito pelo bloco central. É o nosso PR e merece parabéns.

António Costa mostrou, contra a opinião de muitos dos seus apoiantes, que o apoio que deu a Marcelo, embora pessoal, antecipando-se ao PSD e ao CDS, saiu vencedor com a vitória do adversário ideológico que nem todos os partidos juntos conseguiriam travar.

Durante a campanha defendi igualmente os três candidatos de esquerda e apelei ao voto em qualquer deles.

As eleições não discutiram a Europa nem o euro, de que sou um entusiasta, e, perante a ascensão do fascismo foi com emoção que homenageei aos mais corajosos e abnegados antifascistas que encontrei durante 13 anos, antes do 25 de Abril.

Votei João Ferreira.

Apostila – 1 – Registei a delirante leitura eleitoral de Rui Rio, exuberante com a votação do Chega, no Alentejo, o seu maior adversário, e a patética assunção de vitória do líder do CDS, associando-se à vitória de Marcelo.

2 – Ana Gomes, com sentido de Estado, quando o PR reeleito dava voltas à faculdade de Direito para ser o último a falar, como era devido, falou antes do candidato fascista, como ele queria. Este fez um discurso histriónico e já prepara nova demissão, para nova recondução e tempo de antena. Foi pena Marcelo ter esperado por ele.

Comentários

Jaime Santos disse…
Acresce a leitura delirante de Carlos César e de comentadores encartados. Há dois vencedores na noite de ontem. Marcelo, que fará da vitória o que quiser e André Ventura que sonha com voos mais altos.

Manuel Alegre disse uma vez que derrotado só é quem desiste de lutar. Costa desistiu e abriu espaço, pela demissão do seu Partido, à candidatura de Ventura. Ana Gomes, com o seu populismo inconsequente (o eleitorado dela não vai nessas modas) revelou-se incapaz de descolar face a Ventura, mas mesmo assim a Democracia deve-lhe o serviço de ter deixado o facho em terceiro lugar, ele que ontem chorava baba e ranho e lhe chamava representante da Esquerda mais medíocre.

Se a noite não lhe saiu em pleno, foi graças a Ana Gomes...

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