Salazar e a cadeira da nossa esperança – Aconteceu há 58 anos (Homenagem anual)

Salazar e a cadeira da nossa esperança – Aconteceu há 58 anos (Homenagem anual)

Não falo das duas cadeiras que a oposição dizia faltarem-lhe, a elétrica e a que lhe devia ter rachado a cabeça, antes de mandar assassinar adversários políticos e dirigentes dos movimentos de libertação das colónias, que os nostálgicos designam por nosso ultramar infelizmente perdido.

Refiro-me à cadeira que o caruncho laboriosamente minou ao longo dos anos, sem que a Pide suspeitasse, e que, na sua aparente robustez, estava patrioticamente escavada pelo inseto que ofereceu ao país o dia que a oposição falhou durante 4 décadas.

Foi há 58 anos. No dia 3 de agosto de 1968 o calista Augusto Hilário preparava-
se para tratar dos pés e cuidar das unhas do ditador, as unhas perversas que cravou na liberdade do povo e na carne dos democratas.

O caruncho poupou ao calista o tratamento dos pés do ditador porque, há muito, cuidava dos pés da cadeira com a eficiência da sua condição e a devoção de um patriota, e assim continuou enquanto Hilário e D. Maria lhe ergueram o corpo e a cabeça cuja dureza não fez mossa no chão. Nunca mais deitou as unhas de fora.

O caruncho foi o herói anónimo que passou as malhas da Pide, sem suspeitas da Legião Portuguesa ou denúncia de um qualquer esbirro, e franqueou as portas do Forte de Santo António para ser conduzido dentro da madeira para o terraço onde o seu labor de anos terminou em apoteose quando a cadeira ruiu com o ditador sentado.

É por isso que ainda hoje, 58 anos depois, presto a minha homenagem ao caruncho da nossa esperança.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo

Non, ou a Vã Glória de Mandar…[*]