Jorge Amado – hoje, 114.º aniversário do seu nascimento – N. 10-08-1912
Jorge Amado – hoje, 114.º aniversário do seu nascimento – N. 10-08-1912
Em 2001 ia agosto no sexto dia quando morreu Jorge. Amado e
lido por tantos. Acabou o curso de Direito sem nunca procurar o diploma, num
país onde se vai sempre buscá-lo mesmo sem frequentar o curso. Partiu da vida
sem querer caixão. Quis ser apenas cinza à sombra de uma mangueira, no seu
quintal.
A seis de agosto deu à eternidade os quatro dias que ainda
eram seus até aos 89 anos.
Apreenderam-lhe e queimaram-lhe livros na praça pública.
Sofreu a prisão e o exílio, e nunca deixou que lhe aprisionassem a alma ou lhe
roubassem os sentidos que guardou para o sortilégio do amor, a vertigem do
desejo e a paixão da escrita.
Levou o país do Carnaval às terras do sem fim, ao mundo
todo, nas páginas dos seus livros. A sua vida foi navegação de cabotagem
circum-navegando o povo brasileiro para quem foi, também ele, um cavaleiro da
esperança a sonhar searas vermelhas nos subterrâneos da liberdade.
Percorreu a vida, cumprindo-se. Amou. Amou profundamente. O
corpo feminino. As mulheres. A vida. Capitão de longo curso a navegar a língua
portuguesa através dos livros a que aportou. Viajou com meninos pobres,
capitães da areia, ladrões, bêbados, prostitutas e bandidos, em repetidas
viagens pelo sertão infestado de coronéis, donos de fazendas e de gente, de
cacau e café, de jagunços e honrarias, de garimpo e engenhos.
Jorge sabia o valor da mestiçagem, sabia que no amor, como
na vida, é boa a diferença e sabe bem. Alimentou-o o desejo, ardente fixação no
corpo feminino, desejo de que ainda tinha fome quando já não podia amar.
Em Salvador vinha-lhe da baía o cheiro a mar que o inebriava
e da terra a força telúrica que o acompanhou. Foi lá que tantas vezes fez da
palavra arma e dos seus livros a carabina que empunhou ao serviço das causas
que defendeu. Foi lá que a tocaia grande o apanhou. Ao grande Obá.
Levou do banquete da vida um quinhão largo, mas deixou
abundantes e gostosas vitualhas na mesa da literatura: 44 livros sobre a
toalha.
Partiu feito cinza para a sombra da árvore que plantou.
Iemanjá ficou com ciúmes no mar de S. Salvador da Baía de Todos os Santos.
Vestida de água, disponível para ele. Jorge preferiu a terra do porto a que o
ligavam as amarras da vida. E por lá ficou. A imaginar os negros da Baía a
dançar candomblé à volta da mangueira. Com Orixás a velar. À espera de Zélia.
Jornal do Fundão, 07-08-2003 – In Pedras Soltas – Ed. 2006 (esgotada)

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