Narana Coissoró (n. 3/X/1931 – f. 29/VIII/2026)
Narana Coissoró (n. 3/X/1931 – f. 29/VIII/2026)
Faleceu ontem o deputado histórico do CDS e seu líder parlamentar,
durante 13 anos, no tempo em que o CDS existia e eram democratas os deputados
que o frequentavam.
O advogado, professor universitário e político, era uma
referência da democracia-cristã e da urbanidade, com amigos em todos os
partidos.
Na sua morte curvo-me respeitoso perante este homem a quem
as divergências políticas nunca transformaram em inimigos os adversários.
Era hindu heterodoxo, como dizia, não dispensava o bife de
vaca com ovo a cavalo. Até nisso, para ele, não havia vacas sagradas.
Na sua morte lembrei-me de me ter sido apresentado pelo neurocirurgião
e deputado do PCP, o saudoso amigo Fernando Gomes, na AR. Eram amigos, como Narana
era, aliás, de muitos outros deputados de todas as bancadas.
O Fernando Gomes só exercia funções parlamentares para
defender o SNS, porque um neurocirurgião não pode estar muito tempo sem operar
e, nesse dia, com o mandato suspenso, foi uma conferência médica que nos levara
a Lisboa, por interesses diferentes para cada um de nós. Depois de almoçarmos,
levou-me à AR para rever os seus amigos de várias bancadas.
No fim da conversa, pontuada por um notável humor, à
despedida, Narana Coissoró, julgando que eu era membro do PCP, disse-me, diga lá
no seu partido que, quando se referir aos eleitores que votam nos aliados da
reação (como o PCP designava o PS), os aconselhe a votar diretamente na
reação (CDS). Havia eleições próximas.
Como era diferente a salubridade da AR e diferente o ar que ali
e no país se respirava! No CDS, da democracia-cristã e da democracia restam
hoje o ex-presidente Francisco Rodrigues dos Santos e poucos mais. À boleia do
PSD foram eleitos deputados o Nuno Melo e Paulo Núncio, um incapaz de pensar e
outro capaz de pensar o pior.
A degenerescência intelectual e ética do CDS é hoje o reflexo
da decadência intelectual e ética que povoa o poder e o Parlamento.
Talvez por isso sinta saudades do deputado Narana Coissoró,
de quem gostava do bife de vaca e dos amigos, de quem era culto e urbano, vigoroso
no combate político e afável nas relações pessoais, de quem não merecia ver
transformado o CDS numa sucursal do PSD de Montenegro com gente que, nas eleições
presidenciais, votou no líder do Chega contra o descolorido social-democrata António
José Seguro.
Com Narana Coissoró perde-se mais uma referência da
democracia, da democracia que o ódio e o ressentimento pretendem extinguir.
Já poucos se lembram dele, um dos que ajudou a resgatar o País
do passado a que hoje nos querem reconduzir.
Obrigado, Narana Coissoró.

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