A ponte 25 de Abril e os saudosistas do fascismo
A ponte 25 de Abril e os saudosistas do fascismo
Há 60 anos, no dia de hoje, foi inaugurada e
convenientemente benzida a primeira ponte que ligou Lisboa à margem sul do rio
Tejo. Américo Tomás, mordomo do déspota, quis que o apelido do ditador desse o
nome à ponte que, fardado de almirante, inaugurou.
Gonçalves Cerejeira, cardeal e amigo do ditador, com um
báculo de dois metros, mitra e vistoso vestido rendado, rodeado de clero,
fascistas e pides, expeliu latim e água benta. Brandindo vigorosamente o
hissope, aspergiu a ponte e exibiu o reluzente anelão.
Foi a obra grandiosa do país que então liderava a Europa no
analfabetismo, mortalidade infantil e materno-fetal, pobreza e atraso. A
lavadoiros, fontanários, caminhos e escolas, o ditador juntou a glória de
mandar construir a Ponte com o seu nome.
As prisões estavam cheias de opositores; a emigração
clandestina era o destino de quem fugia à miséria; a censura estendia-se aos
jornais, revistas, livros, rádio e televisão; em Angola, Moçambique e Guiné
continuavam a morrer jovens numa guerra injusta, inútil e criminosa; os
Tribunais Plenários tinham juízes com vocação de algozes e, em Caxias, Peniche
e na R. António Maria Cardoso, a tortura era o método de investigação; o poder
discricionário da ditadura ia do Minho a Timor.
Faltavam quatro dias aos dois anos que o ditador ainda oprimiria
o povo até de cair da cadeira, uma eternidade para quem sofreu a tirania a que
não faltou o precário sucessor.
Hoje, os trogloditas que sobraram, e os que nasceram depois,
não deixarão de incensar o tirano. Gostariam que o seu nome tivesse perdurado
na ponte. O 25 de Abril é chumbo derretido que continuará a dilacerá-los, e a
História, embora tarde, fez justiça.
Os nomes de Franco, Hitler e Mussolini também foram banidos
da toponímia, a bem da salubridade pública dos seus países, mas há saudosistas
em cujo devocionário se escreve a memória dos carrascos que oprimiram os povos
a que pertencem.
A Ponte foi aberta ao trânsito há sessenta anos. Às rendas e
vestes talares não conseguiu o Portugal de Abril erradicá-las das cerimónias
laicas e republicanas.
Há sessenta anos, no dia de hoje, foi aberta ao trânsito a
Ponte 25 de Abril. Era sábado.

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