VIDA DEPOIS DA MORTE (4 e fim)
VIDA DEPOIS DA MORTE (4 e fim)
Por Onofre Varela
As escolas estabelecidas em todas as sociedades não são apenas lugares de transmissão de saberes… também desenvolvem estilos de consciência… e de esquecimento de outras capacidades, orientando as consciências para comportamentos locais, podendo distanciá-las do entendimento universalista das coisas naturais, construindo um modo de pensar limitado a uma facção, como acontece no xamanismo e também é notório na aprendizagem de cultos religiosos e políticos ministrados pelos interesses instalados em cada grupo.
Carlos Stépanoff é membro do Laboratório de Antropologia Social do Colégio de França e director da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Especialista nos rituais xamânicos, diz que o sonho, o devaneio (o sonhar acordado) ocupa 50% da actividade do espírito, desempenhando um importante papel no funcionamento da imaginação.
Estudos de neuropsicologia mostram que a imaginação é mobilizada quotidianamente durante toda a nossa vida, implicando incessantes “viagens mentais”. Esta construção da nossa consciência, do espírito humano, não evoluiu na contemporaneidade, no ambiente que hoje nos faz, construído por interacções acontecidas entre humanos, mas reporta-se, sim, a contextos que o Ser Humano viveu como presa de outros animais predadores.
Tais ensinamentos de antanho, passados de geração para geração, são a base da consciência religiosa que hoje ainda nos domina. Na modernidade, estes “sonhos” da actividade espiritual favorecem uma inovação individual imprimindo alguma transformação na passagem de antigos conceitos para as novas gerações, o que se reflecte na criação constante de novas técnicas rituais, como é bem visível nas seitas ditas evangélicas que romperam com as missas tradicionais católicas, mas que têm, na sua essência, a mesma razão de ser que trazemos colada, como cromo de colecção, na caderneta que o nosso cérebro é.
Quem sabe muito sobre a consciência é o nosso cientista António Damásio, um dos mais reputados neurocientistas do mundo, radicado nos EUA há imenso tempo, onde dirige o Braind and Creativity Institute na Universidade da Califórnia do Sul. Nas suas obras “O Livro da Consciência” (2010) e “Sentir & Saber” (2020), ambas editadas pela Temas e Debates / Círculo de leitores, diz-nos o que é possível sabermos, hoje, sobre a consciência como produto do cérebro.
Começa por informar que o cérebro não é mais do que um aparelho físico-químico composto por objectos físicos, denominados neurónios, que se contam em número astronómico na ordem dos milhares de milhões.
Várias são as características que o nosso cérebro nos oferece: a Inteligência, que nos dá a capacidade de resolver problemas colocados na luta pela vida; a Mente, como grande armazém de imagens; o Raciocínio, como ferramenta que nos permite recordar e resolver problemas; os Afectos, que provocam reacções emotivas e alteram o organismo numa dinâmica a que também chamamos “estado de espírito”; os Sentimentos, experiências mentais que acompanham vários estados do organismo, como a fome e a sede, mas também provocam emoções como o medo, a raiva e a alegria; e, por fim, a Consciência, que entra em nós guiada pelos sentimentos, já que todos eles são conscientes por definição.
“Sem consciência nada se pode saber […] [ela] foi indispensável para a ascenção das culturas humanas e mudou o rumo da História”.
A Consciência não é uma faculdade exclusiva dos seres humanos. Outros animais também a terão de um modo mais rudimentar, mas em nós ela permite reagir à “experiência do sofrimento ou do prazer com a invenção de novos objectos, acções ou ideias, os quais se traduziram na criação de culturas”… o que, obviamente, não acontece aos outros nossos companheiros da vida que no planeta eclodiu e de cujo reino animal fazemos parte.
As religiões só poderiam ser desenvolvidas em torno dessa consciência que nos formata, e sem a qual a nossa espécie seria outra que não a que realmente é.
Há um significado da palavra “consciência” reconhecido por neurocientistas, biólogos, psicólogos e filósofos contemporâneos, que diz assim: “Consciência é um sinónimo de Experiência Mental. E o que é uma experiência mental? É um estado da mente e tem uma característica notável: os conteúdos mentais que o constituem são sentidos e adoptam uma perspectiva singular. Uma análise mais aturada revela que essa perspectiva singular pertence ao organismo no interior do qual se encontra a mente”.
A Consciência acaba por ser um sistema mental enriquecido, produzindo a escolha moral, a criatividade ou cultura humana, as quais só fazem sentido à luz da Consciência. Porém, não é líquido que a integração de um determinado indivíduo numa determinada sociedade, construa a sua consciência de acordo com uma “bitola” hipoteticamente existente nela, e na qual o indivíduo se integra já depois de ter desenvolvido a sua consciência noutro meio cultural.
A capacidade mental de cada indivíduo é como uma mala onde se vai guardar a bagagem que cada um possui… ou não possui! Não é só o conteúdo da mala que faz a qualidade do que nela se guarda. A própria mala terá de ter robustez e capacidade hermética para que o conteúdo não se danifique. Aqui entra a “construção da mala”, que é a nossa realidade biológica, e cada um terá a sua.
Nas várias capacidades do Ser Humano também entra a Homeostasia, que é a propriedade de determinados seres vivos, a despeito das variações do meio ambiente, manterem o equilíbrio de todas as funções, mas também a própria constituição química dos tecidos.
De facto o “Homo Sapiens” é um animal especial entre todos os outros animais nossos companheiros de vida na Terra. O cérebro que nos dá a consciência é único… e todos os dias vemos tanta gente desperdiçando as suas melhores capacidades, ou a usá-las do pior modo (que também é um desperdício)… como os ditadores que já desilustraram a Humanidade, como Hitler no meu tempo de bebé, mais os actuais e horrendos Putin, Trump e Netanyahu, na minha terceira idade…
E aqui, no final desta série de textos, eu volto ao princípio: não sei explicar as experiências que a minha filha garante ter, inseridas na “secção mental” rotulada “Vida depois da Morte” .
Não lhes encontro lógica (a minha lógica) mas sei que ela não mente quando me afirma “a sua lógica”, que também ela diz não saber explicar… mas que a sente… o que me leva a aceitar a minha ignorância: não sei responder a questões que me são narradas como “sobrenaturais” porque parto do princípio que tudo quanto existe é natural… e se é “sobrenatural”… então não existe!…
É preciso que me expliquem, muito bem explicadinho, tim-tim por tim-tim, as razões naturais que nos levam a evocar a sobrenaturalidade em que não creio. Só então (depois de perceber) aceitarei o fenómeno como coisa natural… mas já com a devida explicação incluída no modo de usar… e, por enquanto, a minha filha ainda não me apresentou tal folheto. Mas acredito nela quando me afirma sentir o que sente…
(Fim)
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