VIDA DEPOIS DA MORTE (3

Por Onofre Varela

Perante as duas hipóteses com que terminei o último artigo, penso que a verdade poderá estar mais próxima da segunda hipótese. A cultura religiosa do paciente fará a interpretação daquele acidente vivencial, construindo a primeira hipótese de acordo com a sua fé.

Eu nunca experimentei a EQM com tanta espectacularidade… mas a minha mulher sentiu-a quando fez uma infecção no pós-operatório de uma cirurgia aos intestinos causada por uma peritonite. Depois da calma, da paz, da luz intensa dentro de um túnel, e da observação da enfermaria do hospital a partir do tecto onde se sentia flutuar vendo-se deitada no leito com médicos e enfermeiras à sua volta, de repente tudo ficou negro e sentiu dor, obrigando-a ao grito e ao choro. O médico acabara de lhe perfurar, a sangue frio, a zona do abdómen onde se localizava a infecção que por pouco não a matou, expulsando todo o pus ali concentrado.

A falência dos seus órgãos estaria a ser iniciada, tendo sido interrompida (em boa hora) pelo médico que “a ressuscitou” pela intervenção urgente praticada “in extremis”.

Da minha juventude recordo um episódio que pode constituir a experiência da primeira fase da EQM. O caso deu-se numa tarde de Verão, passada na praia fluvial do Areinho, em Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia), com travessia do rio Douro em barco a partir da marginal do Porto na zona do Freixo, num tempo que situo no início da década de 1960, altura em que ainda não tinha aprendido a nadar, e por isso não me aventurava a mergulhar nem a sair de local onde tivesse pé e a água não me ultrapassasse a linha da cintura.

Um colega que queria, por força, ver-me mergulhar, não aceitou a minha recusa e empurrou-me violentamente obrigando-me ao mergulho. A aflição de me sentir envolvido pela água sem saber esboçar gestos que me permitissem flutuar, levou-me a esbracejar energicamente sem conseguir levantar-me nem colocar a cabeça fora de água.

Naquele momento, que foi ínfimo, pois logo a seguir o mesmo colega agarrou-me um braço e colocou-me em pé, vi a minha curta vida projectada no cérebro a uma velocidade estonteante mas com imagens perfeitamente distintas, nas quais identifiquei os meus pais, irmãos, familiares, amigos e vizinhos (experiência idêntica às que contam os alpinistas que sobrevivem a uma queda).

Escusado será dizer que jamais voltei àquele lugar na companhia daquele colega, e obriguei-me a aprender a nadar, o que fiz no rio Leça, na zona da Ponte de Pedra (S. Mamede de Infesta) num tempo em que naquele bucólico lugar se alugavam barcos a remos para passeios fluviais com a namorada, e a indústria do azeite estabelecida na margem do rio, a montante, ainda não poluía (muito) aquelas águas.

É pela cultura religiosa que se interpreta o “túnel de luz” e a paz como caminho para o Paraíso onde se encontra a luz divina.

Na realidade, quem conta o “seu regresso à vida” após a situação de quase morte, fá-lo de acordo com a sua cultura. Quem tem o cérebro clonado por uma religião, inevitavelmente irá dizer que teve um encontro com Deus após a viagem que fez até ao Paraíso por um túnel iluminado pela divindade, garantindo que lhe aconteceu o que, na realidade… não aconteceu.

O que terá acontecido foi a construção de uma “explicação” à medida da sua crença formatada na sua consciência religiosa… e talvez não seja mais do que isso…

Mas aqui temos que indagar: o que é a consciência?

A consciência é uma qualidade da mente e é por ela que cada um é como é, age e reage do modo como o faz, e é sempre limitada àquilo com que cada um a equipou. É uma construção do cérebro de todos nós, independentemente da etnia do seu portador. A matriz é a mesma para qualquer indivíduo sem importar a sua origem. Sendo constituída por conjuntos complexos de neurónios, a consciência acaba por ser forjada de acordo com a sociedade onde o indivíduo se faz, pois embora seja algo inerente a todos os seres humanos e funcione com a mesma química, a verdade é que a herança genética, a educação e o meio social acabam por moldar a consciência de cada um.

Durante tanto tempo reservada aos filósofos, a consciência é terreno fértil para sementeiras religiosas, e conhece hoje um notável progresso com o desenvolvimento das neurociências que, pouco a pouco, progridem na revelação dos segredos que ainda nos esconde o mais complexo órgão do nosso corpo, que é o cérebro.

O cérebro é um órgão biológico admirável e surpreendente. Nele se origina a produção e o desenvolvimento de todas as ideias, de raciocínios, de percepções, de sonhos e de sentimentos que fazem a vida de qualquer ser humano.

Cada indivíduo tem a sua própria consciência que é aquilo a que chamamos “espírito”, ou modo de ser, de fazer e de sentir. Isto é, a sua personalidade. Para os religiosos será a sua “alma”, o seu animismo… quer dizer, o que o movimenta e anima (mas aqui,num patamar de fé, relacionado com uma divindade).

A consciência educa-se, e cada sociedade tem na “consciência colectiva” aquilo que ela produziu através da educação nacional e da sua própria história. Na Coreia do Norte, por exemplo, as consciências foram educadas no culto da personalidade do seu chefe Kim Jong-un, e no Japão induziu-se a imagem do trabalho como símbolo da vida e da honestidade, levando muitos reformados a considerarem o suicídio quando deixam de produzir para, economicamente, não pesarem ao Estado.

Paralelamente há, em cada comunidade, consciências diversas do colectivo porque sendo a consciência naturalmente universalista, ela pode ser independente das influências do meio em que o indivíduo cresce e se educa, causando dissidentes. Por isso é que há ateus em sociedades religiosas, religiosos em sociedades que quiseram impor o ateísmo colectivo, e que na Coreia de Kim Jong-un há quem o deteste!

A consciência e a sensibilidade estão irmanadas, quer seja na Religião, na Política e na Cultura – incluindo nesta a Arte – exactamente por serem características universais inerentes ao facto de se ser Ser Humano, sem importar o local onde se nasce. A igualdade é natural e universal (os talibãs é que não sabem disso!).

Como acontece com a maioria dos estudos sérios e precisos sobre o corpo humano – para além das conclusões dos não menos importantes sábios da antiguidade, que usaram pela primeira vez as palavras “Psyché” (Grego) para Psíquico, e “Anima” (Latino) para Alma, também a palavra “Conscientia” (para Consciência) foi escrita, pela primeira vez, por Cícero [106–43 aC]. Mais tarde, já na nossa era, o escritor cristão Cassiodoro [490580] inspirado por Platão, referiu o “Homem Interior” – também o estudo do cérebro se iniciou entre os séculos XVII e XIX. Talvez o primeiro cientista a trabalhar no terreno do Conhecimento tenha sido o alemão Korbinian Brodmann (1868–1918)… mas devemos juntar-lhe o espanhol Ramón Cajal (1852–1934).

A consciência é usada como se usa o corpo em sociedade, e é alvo de uma aprendizagem muito diversificada… daí haver “consciências desencontradas” na nossa formatação, indutoras de tantas sensibilidades, levando à criação de tantas religiões e de tantos partidos políticos… culminando em todas as guerras já feitas e tantas outras por fazer… somos ainda (enquanto Homo sapiens) um produto muito mal acabado!…

(Continua)



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