Vade-retro União Nacional
Vade-retro União Nacional
Há 94 anos (1932) foram publicados os estatutos da União
Nacional (UN), a única força política autorizada em Portugal, durante a
ditadura fascista.
Quem nunca viveu o horror de um partido único, o cinismo de
um frio ditador e o poder ilimitado do regime fascista, pode pensar que Salazar
era um ditador honesto e manso.
Quando o general Humberto Delgado foi assassinado pela PIDE,
em Espanha, ele e sua secretária, Salazar foi à televisão garantir que os
autores do crime eram os comunistas. Quando surgiu um enorme escândalo sexual
do regime, com ministros, generais e altos dignitários eclesiásticos, o antigo
seminarista e presidente do CADC proibiu as notícias e a investigação policial
e judicial.
O regime não pode ser avaliado apenas pelo número dos que
prendeu, torturou e matou, mas pelos que deixou morrer e, sobretudo, impediu de
viver. Caxias, Tarrafal, Peniche, Aljube e Campo de S. Nicolau foram alguns dos
mais perversos centros de tortura onde penaram intelectuais, artistas e
democratas de vários quadrantes. Recordar os Tribunais Plenários, os juízes
venais que aí conspurcaram as becas e a decência, os degredados e demitidos por
razões políticas, é regressar ao mundo concentracionário do salazarismo.
A guerra colonial onde imolou a juventude portuguesa e
assassinou combatentes da independência, onde explorou rivalidades tribais e a
fome de quem se alistava para ter comida, é uma ferida aberta entre os que
tiveram de fugir, abandonando os seus haveres e alguns mortos, os militares que
vieram estropiados e as famílias dos que se enganaram na trincheira e pereceram
na vertigem do ódio dos vencedores, tornado vingança.
Há quem apelide de honesto o abutre de Santa Comba, que
condenou os portugueses ao medo, à miséria e ao analfabetismo, que transformou
a República num bando de beatos, tímidos e idiotas, que o aclamavam por medo e
o incensavam. O frio ditador, que fez de Portugal o país mais atrasado da
Europa, com maior mortalidade infantil e materno-fetal e com menor esperança de
vida, foi um ex-seminarista e presidente do CADC.
A ignorância e a falta de memória e de vergonha andam aí, de
mãos dadas, a limpar o passado de quem viveu da censura, repressão e analfabetismo,
a reabilitar o criminoso que tinha sobre a escrevaninha a fotografia
autografada de Benito Mussolini.
Como é débil a memória dos povos, e como idiotas úteis e
eternos reacionários se unem no apagamento da memória!
Faz hoje 94 anos que foi criada a União Nacional.

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