CNN – Algumas notas sobre o «Prime Time»
CNN – Algumas notas sobre o «Prime Time»
Não é um programa particularmente estimulante ou
equilibrado, mas é um barómetro político do estado a que a política portuguesa chegou.
Por isso, é útil acompanhá-lo.
De um lado está Bernardino Soares, sólido, coerente,
incisivo, a representar o PCP. Do outro estão Adalberto Fernandes, liberal
moderado e urbano, rotulado de esquerda e do PS, Miguel Relvas, do PSD, empresário
equidistante do PSD e do Chega, e Pedro Frazão, beato, reacionário, difamador e
alheio à verdade, lídimo militante do Chega.
O mais interessante dos quatro é Miguel Relvas, aguerrido,
com excelente currículo político e ascendente sobre Adalberto Fernandes. É um
ex-licenciado relicendiado, padrinho e ministro do governo de Passos Coelho de que
saiu avisando que o fazia de motu próprio.
No programa referido é um rolo compressor da esquerda,
especialmente demolidor para o PS, defensor do neoliberalismo, da unidade das
direitas, e do Governo até há semanas.
É aqui que o ex e de novo Dr., Miguel Relvas, merece
especial atenção. Sendo arriscado defender o governo de um PM ferido na ética e
na capacidade, que soçobrou na Saúde e nas contas públicas, fracassou no
cumprimento de promessas eleitorais e foi temerário e opaco em compras
militares que hipotecam o futuro do País, virou-se contra o Governo.
As investigações ao MAI e acusações judiciais a despachos do
ex-vereador, Pinto Luz, ora ministro das Infraestruturas, pela venda de
terrenos municipais de Cascais a preços de amigo e a licença de construção em
zonas proibidas ao Hotel Hilton, viraram casos de polícia. Os danos dos exames agastaram
pais, alunos e professores perante a inépcia ministerial e o fiasco da
digitalização de provas foi celebrado como reforma estrutural.
Depois de ter deixado de acreditar na sobrevivência de
Montenegro e do seu governo, Miguel Relvas tem a alternativa desejada, Passos
Coelho, ora catedrático, cujo regresso vai preparando em apresentações de
livros que não lê e bicadas ao ex-líder parlamentar do PSD, agora PM, que
defendeu o seu medíocre governo.
O regresso de Passos Coelho, cuja geometria eleitoral o favorece,
é uma probabilidade forte. A desilusão popular com este governo, a amnésia coletiva
e o apetite de antigos cúmplices e do próprio abrem-lhe caminho para o
regresso.
Miguel Relvas é um conspirador experiente e perigoso. Urge prestar-lhe
atenção quando o PM já não pode insistir em eleições para branquear nas urnas o
comportamento ético dos seus ministros que têm como fasquia a sua própria bitola.
O cinquentenário da Festa do Pontal, em Quarteira, que terá
como momento principal o discurso do líder e primeiro-ministro, Luís Montenegro
pode ser a última Festa do líder que Marcelo levou ao poder e Seguro será
incapaz de segurar no governo que se desfaz.
Miguel Relvas voltará a ser regente do que restar da desafinada orquestra do PSD e a ter uma palavra na constituição do Governo Passos Coelho bis.

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