VIDA DEPOIS DA MORTE (2)

Por Onofre Varela

Como disse no último artigo, só a História é o único modo de manter a memória daqueles que morreram e deixaram obra para serem recordados. Só assim se consegue a “eternidade” como cantou o nosso poeta maior, Luís Vaz de Camões: “Aqueles que por obras valerosas da lei da morte se vão libertando”.

Na nossa sociedade cristã, quando se aborda o tema “Vida Depois da Morte”, é inevitável falar em Jesus Cristo (JC) e na mitologia da sua ressurreição, por ser o paradigma do tema que teima em não largar a vida.

A maioria das religiões (não só a Cristã) tem como denominador comum a preocupação com a morte e a mensagem da vitória da vida sobre ela. O Cristianismo refinou esta regra, porque Jesus Cristo só existe… porque morreu!… A sua crucificação foi a porta que se abriu à vida, fechando-a à morte, através da ideia da ressurreição como “a vitória final da vida”, onde a morte já não tem lugar!

O engraçado é esta ingenuidade cristã da ressurreição acabar por se transformar numa pedra no sapato da crença, sendo difícil de retirar… porque se JC ressuscitou, tem de estar algures. Tem de andar por aí!… Quem vence a morte, não morre outra vez (penso eu)!… E o que, ou quem, não morre, tem de se conservar vivo. E o que, ou quem, é, ou está, vivo, tem de conservar a sua forma material, consumir alimentos para manter a energia, mostrar-se e produzir ou provocar algo!

Onde está Jesus Cristo? Em que circunstâncias? Como sobrevive?!… São perguntas sem resposta que deveriam embaraçar a crença… e só não embaraçam porque os crentes não se interrogam… só crêem!…

Os crentes típicos estão convictos da existência de um céu para albergar almas caridosas, e aceitam que é aí que se encontra, não a alma (segundo a crença espírita), mas o corpo material de JC!… O que não se entende.

O factor mais importante do Cristianismo, na vertente que mais afirma a sua característica de religião é, sem dúvida, o conceito da ressurreição. O vencer da morte. A ressurreição dá-lhe a dimensão mais deifica e religiosa… que é aquele factor que inebria a maioria dos crentes, relegando para segundo plano a ideia humanista contida nos “ensinamentos de Jesus” que os Evangelhos propagam.

Mas aqui estamos na presença de algo que não pertence exclusivamente ao Cristianismo. A libertação da morte é uma ideia que o homem persegue desde quando teve consciência de que o seu fim seria morrer, abandonando a vida, o que, convenhamos, não configura um fim simpático, nem desejável!…

Essa consciência alimentou a religiosidade levando ao acto misericordioso do enterramento. Por isso os nossos antepassados mais remotos já enterravam os mortos, e os poderosos levavam consigo os seus mais ricos pertences para usufruírem deles para além da morte que não aceitavam como fim da vida, acreditando que iriam viver numa outra dimensão onde continuariam com a mesma importância que lhes era reconhecida em vida, e viver “à fartazana”.

A imortalidade é desejada desde a mais remota antiguidade e encontrámo-la na mitologia egípcia. O Cristianismo não fez mais do que copiar, adaptar e reeditar conhecidos rituais, como é exemplo a narrativa mitológica de Átis, deus frígio da Natureza e da Primavera, cujo mito refere a sua morte e ressurreição (estando de acordo com a “morte” das árvores no Outono e da sua “ressurreição” na Primavera) . A própria missa pascal do rito cristão é cópia de antigos rituais nocturnos comemorativos da morte e ressurreição de Átis, com ligação a celebrações animistas na passagem do equinócio da Primavera. 

A morte sempre foi uma das grandes preocupações do Ser Humano. Segundo o filósofo e sociólogo Edgar Morin (falecido recentemente com a bonita idade de 105 anos), o Homem de Neandertal não só enterrava os mortos; também os reunia como se prova na “gruta das crianças” perto de Menton (França).

O sepultamento dos mortos é um elemento cultural que demonstra a preocupação de prolongar aquele que morre, para além da vida que efectivamente perdeu. Prolongamento que os egípcios transformaram na conservação dos cadáveres pela mumificação. Quando não abandonamos, ou não esquecemos, os nossos mortos, eles “sobrevivem”.

A crença na imortalidade universalizou-se transformando a morte numa espécie de “vida prolongada”, como disse Morin. O trauma da morte conduziu à aspiração da vida eterna… e até o alindar das campas (como é comum na nossa cultura) tão presente no lembrar dos nossos familiares mortos, no dia 1 de Novembro, transformando os cemitérios em exposições de flores, obedece a esse acto piedoso de não esquecermos os nossos entes queridos que morreram. Não há dúvida de que o registo memorial que temos deles é a verdadeira eternidade em forma de recordação…

Mas, para além desta irrefutável verdade biológica, antropológica e histórica, há imensos testemunhos, recolhidos em todo o mundo, de gente que diz ter experimentado a proximidade da condição de morta, mas que, no último instante, se manteve viva, ou, se o podemos dizer, “regressou à vida”, não tendo, por isso, morrido concretamente.

É essa experiência que têm para contar, e todos os relatos são unânimes na descrição de uma mesma imagem: visão panorâmica de toda a sua vida; um forte sentimento de paz; a sensação estranha de saírem do seus próprios corpos sentindo-se flutuar junto ao tecto do quarto ou da enfermaria do hospital, vendo-se deitados no leito onde repousam, e terem a sensação de atravessarem um túnel que se transforma em espaço de luz resplandecente.

Na “Experiência de Quase Morte” (EQM), ou morte iminente, há a referência a um estado vivencial no qual a pessoa experimenta um conjunto de sensações associadas à iminência da morte no decorrer de uma doença grave ou outra ocorrência da qual possa resultar perigo de vida.

Em tais circunstâncias há uma espécie de “projecção da consciência” que o paciente refere como “experiência fora do corpo”, acompanhada de uma sensação de serenidade e a passagem por um “túnel de luz”.

A Experiência de Quase Morte é um termo que foi proposto pelo psicólogo francês Victor Egger, em 1896, em resultado das discussões mantidas entre cientistas, relativas às histórias contadas por escaladores que, durante as quedas a que sobreviviam, tinham uma visão panorâmica da vida durante o momento em que durava a queda. O interesse generalizado pelo tema só aconteceu em 1975, resultando da publicação do livro “Vida Depois da Vida” do psiquiatra e parapsicólogo norte-americano Raymond Moody.

Os cientistas que estudam os casos de EQM ainda não chegaram a um consenso científico que explique o fenómeno de forma definitiva. Há quem considere a característica de “alucinação” surgida durante um estado de coma, ou perda de consciência profunda, sendo esta a tentativa de explicação mais plausível que até hoje foi encontrada, desconhecendo-se, no entanto, o modo como o nosso cérebro processa tais alucinações.

Em 1982, um estudo do Instituto Gallup (empresa que se dedica à pesquisa de opinião, nos EUA, fundada em 1930 pelo técnico de estatística George Gallup) referiu que cerca de oito milhões de norte-americanos já tinham passado pela EQM. Até 2005 foram registados casos idênticos em 95% das culturas do mundo, o que torna a experiência bastante frequente, independentemente do grau académico e cultural de cada protagonista.

Perante tais depoimentos há quem avance duas hipóteses explicativas do fenómeno:

1 – Prova da existência de um Paraíso para onde vamos após morrermos, no qual não há sofrimento nem trevas… apenas paz e luz;

2 – Última reacção neurológica construída pelo nosso cérebro, por deficiente função química resultante da menor irrigação sanguínea quando se aproxima o momento da falência de órgãos vitais.

No próximo artigo explorarei estas duas hipóteses.

(Continua)

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