terça-feira, maio 31, 2005

Notas soltas: Maio/2005

1.o de Maio – O entusiasmo e a força das comemorações empalidecem com a ameaça neoliberal, o furor do individualismo e a chaga do desemprego a alastrar.

Timor – A detenção e agressão a dois portugueses na residência do bispo de Díli e o julgamento popular por manifestantes católicos são o início de uma teocracia e um vigoroso ataque aos mais elementares princípios do Estado de direito.

PSD – Marques Mendes, ao vetar as candidaturas de Isaltino Morais e Valentim Loureiro às câmaras de Oeiras e Gondomar, respectivamente, comprometeu a liderança mas deu uma lição de ética a outros partidos. Tem ainda um acto de higiene cívica à sua frente – afastar Alberto João Jardim.

Inglaterra – A reincidente vitória de Tony Blair mostra que os ingleses têm um ressentimento maior aos conservadores do que à invasão do Iraque, mas não há desculpa para um bom governante ter embarcado numa aventura idiota e criminosa.

USA – A condecoração atribuída a Paulo Portas, na sequência da compra de duas fragatas americanas, mostra que não basta a subserviência política. Há encomendas que dão comendas e não há medalhas grátis.
Iraque – O terror desencadeado após a posse do novo Governo é um desmentido brutal da normalização democrática e um revés para os alegados objectivos que serviram de pretexto à ocupação.

Madeira – A bizarra concepção de democracia e a subserviência ao líder vitalício levou os deputados do PSD/M a retirarem a imunidade parlamentar a um colega do PS, para ser julgado por ofensas verbais a Jardim a quem chamou «tiranete».

Lisboa – José Sá Fernandes é uma excelente opção do Bloco de Esquerda para as autárquicas. O apoio de António Barreto e outras personalidades de direita prova que não acreditam no candidato da sua área e procuram combater a esquerda através do BE.

Orçamento – Perante o estado calamitoso a que o défice público chegou, sem que a alienação do património e o congelamento de salários servisse de alívio, devemos perguntar-nos para que serviram os últimos três anos.

PSD/CDS – A leviandade ou má fé com que ministros pactuaram em negócios suspeitos, indignos de quem jurou servir o País, não lesaram apenas o interesse público, arruinaram a confiança nas instituições que lhes cabia acautelar.

Terrorismo ideológico – O padre Domingos Oliveira, do Porto, disse na missa do 7.º dia de uma criança assassinada à pancada pelo pai e avó: «matar uma criança no seio materno ainda é mais violento do que matar uma menina de 5 anos».

Desemprego – A chaga continua a aumentar. A percentagem de portugueses sem trabalho atinge números aterradores. As débeis redes de segurança ameaçam romper-se e o aumento da criminalidade espreita.

Clonagem – Cientistas coreanos produziram células estaminais embrionárias, com capacidade de darem origem a todos os tecidos humanos, devolvendo a esperança a numerosos doentes. Clonar para curar, SIM, sem hesitações. Para outros fins, NÃO.

Alemanha – A derrota do SPD na Renânia do Norte, o Estado mais populoso da Alemanha, levou o chanceler Schröder, líder do partido, a pedir a antecipação de eleições legislativas para as quais os conservadores da CDU partem com vantagem.

Nações Unidas – A escolha de António Guterres para Alto Comissário para os Refugiados é uma enorme vitória pessoal e a consagração internacional da elevada competência e destacadas qualidades intelectuais, éticas e humanas que o exornam.

Governo – Quando a generalidade dos economistas garante que as medidas de contenção são escassas para fazer face ao orçamento de ficção legado por Bagão Félix, é obrigação cívica vigiar os alvos sobre quem recai o pagamento da crise.

Luís Nobre Guedes – A trapalhada do abate de sobreiros, mesmo sem efeitos penais, merece uma forte sanção política. Valha-nos o humor português que encontrou semelhanças entre o ex-ministro e o Papa: ambos adoram o Espírito Santo.

França – A vitória do NÃO foi talvez o princípio do fim de uma comunidade multicultural que precisava da aprovação do tratado para legitimar a integração de novos países e o aprofundamento da solidariedade social.

União Europeia – O próximo NÃO holandês é mais uma ferida no corpo dorido de um gigante que agoniza. Não tarda, estão à solta os demónios nacionalistas e disputas internas que comprometem a paz e o progresso para gáudio dos EUA e de potências emergentes.

Monumento ao 25 de Abril em Almeida – Durante mais dois meses teremos de esperar decisões que a Câmara e o IPPAR procuram. Quem esperou sete anos!...

Ponte Europa

O «Ponte Europa» nasceu no dia 25 de Fevereiro com o entusiasmo do Mário Ruivo e um artigo de André Pereira.

Transformou-se no produto honesto de um grupo heterogéneo de pessoas de esquerda que se esforça por defender princípios e discutir ideias. É um blogue regional que olha as margens do Mondego e não se queda no horizonte visual da cidade em que quase todos vivemos.

O «Ponte Europa» pode ser, se nós quisermos, o ponto de encontro de democratas de vários matizes cujo objectivo principal é a defesa da democracia e da ética republicana, sem deixarmos de defender causas e pessoas de esquerda que se identifiquem com o socialismo democrático.

Em face do gráfico das visitas contabilizadas às 18h00 do dia 31 de Maio, podemos dizer que é um êxito. Para prolongá-lo no tempo, defendê-lo dos adversários e, sobretudo, protegê-lo dos inimigos, vai exigir dos que quiserem continuar esta caminhada muita dedicação e perseverança.

Têm a palavra os colaboradores.

Carlos Esperança

Pinóquio

"A madeira na qual se esculpiu Pinóquio é a própria humanidade."
( Benedetto Croce)

IVA

Rodrigues, Carla, Parente, Paulo e d'Uva, Teresa Bago(Novembro, 2002)
SUMÁRIO:
Em 2002 procedeu-se ao aumento da taxa normal do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) em 2 pontos percentuais, como uma das medidas de emergência necessárias para a consolidação orçamental, incluídas no Orçamento Rectificativo. Subjacente a esta decisão poderá estar o facto do IVA ser simultaneamente um imposto de tratamento administrativo relativamente simples e com elevado peso nas receitas fiscais.
No presente estudo são analisados os efeitos distributivos desta medida, considerando as cargas fiscais do IVA em relação à despesa, ao rendimento total e ao rendimento monetário. Os dados utilizados resultam do Inquérito aos Orçamentos Familiares de 2000, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística.
Considerando a carga fiscal em relação à despesa, o IVA é um imposto progressivo com um impacto na carga fiscal tanto maior quanto maior é o nível de rendimento dos agregados familiares. Porém, considerando a carga fiscal em relação ao rendimento (total/ monetário) o IVA é um imposto regressivo e a medida tem maior impacto relativo sobre a carga fiscal de agregados familiares de rendimento intermédios. Finalmente, verifica-se que o aumento da taxa normal do IVA tem um efeito negativo sobre a regressividade do imposto

Teorias orçamentais

Afonso, António (ISEG) ou (IGCP)(Junho, 1999, versão inglesa)
SUMÁRIO:
A neutralidade da dívida pública e a questão da Equivalência Ricardiana têm sido um dos assuntos mais frequentemente abordados e investigados pela moderna macroeconomia. Segundo a análise macroeconómica convencional, a dívida pública tem efeitos sobre a economia pois os consumidores encaram a dívida pública como riqueza líquida. Então, quanto maior for a dívida pública mais ricos se sentem os consumidores e mais tendem a consumir. Este texto resulta de uma leitura da literatura sobre a neutralidade da dívida pública e respectivas implicações para o consumo privado. O texto apresenta ainda os resultados de cálculos efectuados para a área do Euro os quais parecem lançar algumas dúvidas sobre a validade da hipótese Ricardiana para este conjunto de países

segunda-feira, maio 30, 2005

Criatividade noticiosa

O que pode fazer uma cultura diferente pela criatividade noticiosa.

Carlos Esperança

(Clique na imagem para aumentá-la)

Santana Lopes dixit

«Esta democracia – em que não faz mal esconder a verdade para ganhar as eleições (...) não é a democracia com que sonhei».
Pedro Santana Lopes, Diário de Notícias, 29-05-05, citado pelo «Público» de 30-05-05. (Diz-se, pg. 8)

Nota: Eis um exercício tardio de autocrítica, de quem anunciou o fim da austeridade, e uma crítica vigorosa ao Orçamento de Estado elaborado por Bagão Félix.

Andam por aí

Olhamos à volta e vemo-lo(a)s!! Andam por aí. Com características culturais e até físicas que marcam a diferença, no já mosaico português!

Oriundos donde o sol se põe longínquo ou próximo. Por terra, por mar e por ar...

Vêm fugidos: da insuficiência dos recursos naturais, da falta e da insegurança de emprego, da ausência de horizontes para si e para os seus; de um desajustamento entre o sistema político e a aceitação ao mesmo; da participação em conflitos armados; do receio da perda de privilégios ou de património... enfim, da Liberdade de se sentirem cidadãos!

Vêm ao encontro: de uma língua difícil mas quente; de um código de valores e organização social diferentes... enfim, de Portugal! Apesar do desemprego, do déficit, do aborto, da Constituição Europeia, do aumento da reforma para 65 anos, da greve do dia 17/06, e...e... ainda somos um país com a nobreza do gesto de receber de braços abertos! Bem- Vindos Imigrantes!!

Vêm e trocam: experiências; histórias; ideias, capacidade técnica; Pessoas. São engenheiros e doutores ou simplesmente capacidade de nos ajudarem a reconstruir e reinventar a nossa nação, que apesar de todas as contrariedades ainda mantêm níveis elevados de coesão social.

Porém, a nossa Constituição no Nº 1 do seu artigo 15º versa “ Os estrangeiros e os apátridas que se encontrem ou residam em Portugal gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres do cidadão português”, ainda não os permite obter uma plena cidadania! É sobretudo a legalização o seu maior obstáculo! Condição que os coloca á mercê da exploração e de outros vícios humanos!

Caríssimos, porque razão não os deixarmos ser como nós? Medo do aumento do desemprego? Medo da criminalidade? da Mendicidade? Ou medo de...

Professores

Novamente os erros no concurso de professores!
20 milhões de euros foi quanto custou ao Estado e aos contribuintes, os erros de colocação de professores em 2003/04. Devido sobretudo aos horários zero e reforço do horário semanal!
“40 milhões de euros” ocultos (que os nossos governantes por vezes se esquecem) foi quanto custou ou custará a curto, médio ou longo prazo a docentes, alunos, pais e à comunidade em geral!

Parece que o espírito da Tomada da Bastilha se revelou ontem, com forte intensidade.

Como este BLOG é plural, republicano e democrático, venho dizer que estou feliz com o NÃO esmagador dos franceses.

É altura de pensar a Europa, mas envolvendo os cidadãos. A não ser assim, um dia destes temos guerrilhas dentro da Europa e consequentemente a Guerra. A História ajuda a perceber isso.

Isto não significa o fim da Europa. A Europa tem de dar é passos mais curtos, como já fez nos avanços e recuos dos primeiros tempos.

Quarta-feira espero o mesmo dos holandeses.

domingo, maio 29, 2005

A França disse NÃO


A esquerda mais utópica e a direita mais arqueológica uniram-se numa conspiração contra a Europa. Não é apenas um projecto de paz, desenvolvimento e tolerância que se interrompe. É a própria França que se isola.

A Constituição recusada pelos franceses não é um texto suficientemente virtuoso para que possa agradar a gregos e troianos mas era o compromisso possível para a sobrevivência de um projecto cujas potencialidades estavam longe de esgotadas.

Esta arreliadora travagem pode ser ainda o início de um novo arranque mas, em princípio, é o fim de um sonho que começou a morrer em Paris, a que se segue a Holanda e que o Reino Unido verá com satisfação maioritária.

Para a Turquia pode ser o princípio do fim de uma experiência bem conseguida de democratização em curso e da supremacia do poder de Estado sobre a influência clerical.

A Europa pode continuar com uma só moeda, com a livre circulação de pessoas, mercadorias e serviços, mas não terá um projecto para ombrear com os EUA e outras potências emergentes, nomeadamente a China e, eventualmente, a Índia.

55% de votos contra a Constituição europeia é mais do que um grito de revolta contra o Governo francês e a anemia económica da Europa, é a recusa de um projecto solidário em que caiba o velho continente e o ressurgimento de fenómenos nacionalistas que trazem consigo o racismo, a xenofobia e toda a sorte de intolerância.

No rescaldo das primeiras projecções do referendo francês sinto-me desolado. Esta não é a França dos enciclopedistas, da Revoluçãoo de 1789, da lei da separação da Igreja e do Estado que este ano comemora cem anos.

Hoje, Paris deixou de ser o farol da esperança, transformou-se no cemitério do projecto europeu.
Carlos Esperança

Luís Nobre Guedes

Corre por aí que o antigo ministro do Ambiente, destacado militante do CDS/PP, tem grandes afinidades com o novo Papa Bento XVI.

Ambos gostam muito do Espírito Santo.

Carlos Esperança

A Senhora do Monte (Crónica)

Nas aldeias da Beira Alta era hábito rezar, pelas intenções plenárias de cada mês, nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, ir ao confesso e à eucaristia e, assim, alcançar as indulgências exigidas para a salvação da alma.

Podia parecer injusto pôr garotos a rezar por pecados dos adultos, mas já se sabia que outros garotos o fariam quando adultos se tornassem esses para apreciar os pecados. Ficavam as rezas para as mulheres, que sempre as fariam, para os que ainda não sabiam pecar e para os que, sabendo, já não podiam.

Era assim, há meio século, e disso não se livrou a criança que fui. Além das devoções locais outras havia que se cumpriam em paróquias próximas, que os transportes não permitiam lonjuras, com dia certo e local aprazado. A Senhora do Monte era um desses destinos.

Guardo da infância o gosto por romarias. Os santos domiciliavam-se no alto dos montes para ficarem a meio caminho entre os devotos que lhes pediam e o céu que os atendia. Eram mensageiros dedicados, imóveis numa peanha, ouvindo queixas, aceitando petições, a aliviarem o sofrimento. Raramente eram solicitados além das suas posses e, se soía, resignavam-se os mendicantes. Quanto mais perto do céu, maior respeito infundiam, mais petições recebiam, maiores expectativas geravam. Eu ficava a imaginar do que seriam capazes os que habitavam no cimo de montanhas muito altas, que sabia haver, sem cuidar das dificuldades de acesso dos requerentes.

Durante o ano, os santos concediam graças que eram agradecidas em Agosto com foguetes, missa e uma romaria profana que irritava os padres e alegrava os santos. Mas, de tanto pedirem, foi-se Deus cansando de os ouvir, primeiro, desinteressaram-se os crentes de implorar, depois, ou, talvez, a sangria da emigração converteu em deserto o terreno fértil da fé.

É com saudade que recordo as ermidas abandonadas que outrora atraíam à sua volta feiras e procissões em confronto dialéctico do sagrado com o profano numa síntese admirável de que só o mundo rural era capaz.
A Senhora do Monte pertencia à paróquia da Cerdeira. Às vezes os santos tomavam as dores dos paroquianos e geravam a desconfiança dos vizinhos, mas não era o caso, por ser de concelho diferente e não haver rivalidades entre as paróquias.

Saíamos da Miuzela do Côa, manhã cedo, descíamos a aldeia, passávamos pela capelinha de S. Sebastião, deixando à direita, encostada ao cemitério, a vinha do passal que, no tempo da República, Paulo Afonso comprou à autoridade administrativa, valendo-lhe a excomunhão eclesiástica, vingança do pároco que reclamava a vinha e o regresso da monarquia. Viveu o réprobo em paz, sem que o anátema o apoquentasse, até ao dia em que teve de pedir a desexcomunhão, para que o filho pudesse franquear o seminário, custando-lhe a canónica amnistia outra vez o valor da vinha.

À beira do caminho havia agricultores, inquietos com a romaria, a guardar os melões, que a rapaziada cobiçava, e, ao longe, entre giestas, lobrigavam-se cachopas, deambulando à espera do encontro apalavrado, talvez mesmo alguma coitanaxa aflita por tornar-se dona.

Íamos pela fresca e regressávamos tarde, de estômago menos vazio, com fritos e vinho a justificarem a jornada, esquecida a devoção, a tropeçar nas pedras em noites de lua nova. Atrás de nós via-se um clarão, vindo da Guarda, à distância de seis léguas, no alto do monte onde chegara a luz eléctrica, com a ermida de onde voltávamos perdida na escuridão da noite.

A Senhora do Monte há muito que não fazia um milagre de jeito mas tinha festa rija e um passado de respeito. Um dia o fogo subiu o monte impelido pelo vento e envolveu a capela, com gente aflita a orar. Abriram as portas e redobraram as orações, que em tempo de aflição se reza mais depressa para compensar a desatenção e acompanhar a ansiedade. Deixaram que a virgem visse o fogo e este a virgem. Foi então que as chamas baixaram e logo o fogo se deteve, enquanto, maravilha das maravilhas, prodígio nunca visto, começou o fogo a recuar e, à medida que a terra desardia, tornaram as plantas que a cobriam.

A Santa, por ter-se cansado ou perdido o jeito, renunciou aos milagres, mas os crentes não desistiram de a ver regressar ao ramo e fazer jus à glória antiga. Ainda assim, era muito solicitada por raparigas solteiras que lhe imploravam para as livrar da prenhez que em horas do demo pudessem ter contraído.

Foi como contraceptivo de eficácia duvidosa que conheci a Senhora do Monte nos tempos em que calcorreei os caminhos que lá me levaram.

Bom dia, França

O NÃO francês vai ganhar. Confesso que me sinto desiludido. Uma boa parte da esquerda vai votar com a pior direita, a de Le Pen.

Enfim, os povos são soberanos. Temos de nos confrontar com um futuro mais sombrio.

A França faz perder à Europa a grande oportunidade de se tornar uma potência mundial. A paz e a segurança serão mais precárias. A economia só tem a perder.

Até logo, companheiros do SIM. Vamos assistir à explosão de alegria dos partidários do NÃO - uns porque esperam uma Constituição melhor, outros porque odeiam qualquer Constituição Europeia. Os primeiros não sabem se terão uma segunda oportunidade e os últimos desejam que a não tenham.

sábado, maio 28, 2005

O começo de uma ditadura

Salazar

Faz hoje 79 anos que um golpe militar deu origem, em Portugal, a uma das mais longas ditaduras mundiais do século passado.

Há um misto de medo e de vergonha quando se recorda a figura sinistra do ditador.

Aqui fica uma das mais tenebrosa e enigmáticas figuras de um Portugal beato, rural e analfabeto – Oliveira Salazar.

Não é, naturalmente, uma homenagem. É um exorcismo.

Para que nunca mais se repitam as torturas, o degredo, as prisões políticas, os Tribunais Plenários, o exílio, as denúncias e as perseguições.

Para que os espancamentos e a brutalidade das polícias sejam erradicadas.

Para que o medo, a fome e a guerra sejam apenas uma dolorosa recordação dos mais velhos.

Carlos Esperança

sexta-feira, maio 27, 2005

Autonomia madeirense

Numa atitude que só pode ser considerada como provocação e desafio ao Governo, Alberto João Jardim concedeu ponte no dia de hoje e informou que, este ano, haverá mais 890 novos funcionários, um acréscimo de 11% em relação a 2004.

Todos somos responsáveis pelos desmandos a que chegou o Governo Regional da Madeira.

Agora a pergunta é: Até quando?

quinta-feira, maio 26, 2005

PONTE EUROPA

Os colaboradores do «Ponte Europa» desejam manter abertas as caixas de comentários dos artigos publicados. É uma forma de interacção com os leitores que nos enriquece. Quem critica presta um serviço a quem escreve e contribui para a necessária reflexão e eventual autocrítica. São, pois, bem-vindas as críticas.

O «Ponte Europa», não sendo um blogue monolítico, tem uma orientação claramente de esquerda, moderada e tolerante. Combate a direita mas defendê-la-ia se a sua legitimidade fosse posta em causa, porque o maniqueísmo não é nosso apanágio, não acreditamos em verdades absolutas e defendemos o pluralismo sem ambiguidades.

Não poderão surpreender-se os nossos leitores se eventualmente houver benevolência para os partidos de esquerda e menor tolerância para os da direita. Não somos de facto simpatizantes dos partidos da coligação, de triste memória, que ocupou o poder até há pouco.

No que me diz respeito, não enjeito algum facciosismo em relação à área política em que me insiro. Não sou um comentador neutro (se é que existe algum), sou um cidadão civicamente empenhado, sem filiação partidária. E sei que o pluralismo é condição essencial da democracia e que o confronto dialéctico é uma exigência da alternância democrática.

Quem nos visita sabe como somos e quem somos. Mas nós temos alguns pedidos a fazer: moderação na linguagem, rigor nas afirmações, contenção nas calúnias, respeito pelas pessoas e, se possível, pela gramática. Os bons argumentos perdem força em mau português.

Não nos incomoda o anonimato para expor ideias mas torna-se intolerável para atacar pessoas, exibir grosserias ou conduzir campanhas persecutórias.

O «Ponte Europa» pode ser um belo sítio para o debate político e o confronto de ideias. Não o deixemos transformar num local mal frequentado onde, sob a capa do anonimato, se faça a catarse de frustrações e ressentimentos.

Perseguições pessoais, calúnias e mentiras são apanágio de espíritos mesquinhos que se arriscam a tornar-se ainda mais pequenos, cegos pelo ódio e confiantes na impunidade.

A democracia merece a alteração dos paradigmas que a ditadura nos legou.

quarta-feira, maio 25, 2005

Delegação da Cultura do Centro

A ser verdade que o cargo já está decido, venho dizer que é pena não se terem lembrado de ANTÓNIO VILHENA.

Este cidadão tem todas as condições para exercer tal função.

É pena que se não faça justiça.

Vamos combater a crise 2

Recebi um email onde se falava da "crise".

Desse email retirei uma passagem que quero partilhar convosco, porque não sei se será verdade.

Será isto verdade?

(...)
Nem tudo vai mal nesta nossa República (Pelo menos para alguns)

Com as eleições legislativas de 20/Fevereiro, metade dos 230 deputados não foram eleitos. Os que saíram regressaram às suas anteriores actividades.
Sem, contudo saírem tristes ou cabisbaixos. Quando terminam as funções, os deputados e governantes têm o direito, por Lei (deles) a um subsídio que dizem de reintegração: - um mês de salário (3.449 euros) por cada seis meses de Assembleia ou governo.

Desta maneira um deputado que o tenha sido durante um ano recebe dois salários (6.898 euros). Se o tiver sido durante 10 anos, recebe vinte salários (68.980 euros). Feitas as contas e os deputados que saíram o Erário Público desembolsou mais de 2.500.000 euros.

No entanto, há ainda aqueles que têm direito a subvenções vitalícias ou pensões de reforma (mesmo que não tenham 60 anos). Estas são atribuídas aos titulares de cargos políticos com mais de 12 anos.

Entre os ilustres reformados do Parlamento encontramos figuras como:

- Almeida Santos ........................... 4.400, euros;
- Medeiros Ferreira ....................... 2.800, euros;
- Manuela Aguiar .......................... 2.800, euros;
- Pedro Roseta ............................... 2.800, euros;
- Helena Roseta .............................. 2.800, euros;
- Narana Coissoró ........................... 2.800, euros;
- Álvaro Barreto .............................. 3.500, euros;
-Vieira de Castro ............................. 2.800, euros;
- Leonor Beleza .............................. 2.200, euros;
- Isabel Castro ................................. 2.200, euros;
- José Leitão .................................... 2.400, euros;
- Artur Penedos ............................... 1.800, euros;
- Bagão Félix ................................... 1.800, euros.

Quanto aos ilustres reintegrados, encontramos os seguintes:

- Luís Filipe Pereira ...............26.890, euros / 9 anos de serviço;
- Sónia Fortuzinhos ..................62.000, euros / 9 anos e meio de serviço;
- Maria Santos ..........................62.000, euros /9 anos de Serviço;
- Paulo Pedroso .......................48.000, euros /7 anos e meio de serviço;
- David Justino .........................38.000, euros /5 anos e meio de serviço;
- Ana Benavente ......................62.000, euros/9 anos de serviço;
- Mª Carmo Romão ...................62.000, euros /9 anos de serviço;
- Luís Nobre Guedes ...............62.000, euros/ 9 anos e meio de serviço.

(...)

Falta de memória ou de vergonha?

Vários economistas do PSD e do CDS, não podendo negar a situação catastrófica do défice público nem as previsões do Banco de Portugal, que apontam para 6,83% do PIB, aproveitaram para ridicularizar a inclusão de duas casas decimais na previsão.

Esqueceram-se de que em Setembro de 2003 Manuela Ferreira Leite corrigiu a previsão anterior do défice para 2,944%.

terça-feira, maio 24, 2005

Desfaçatez

Ontem, na RTP-1, no programa «Prós e Contras», Eduardo Catroga atribuiu a responsabilidade do défice aos Governos de Guterres.

Ninguém explicou como foi possível à coligação PSD/CDS ter herdado um défice na casa dos 4%, ter vendido património, congelado vencimentos e deixar uma herança a rondar os 7%.

Bagão Félix, a quem um competente gestor ainda disse que se ele fizesse um orçamento para a Empresa que lidera, tão irreal e demagógico como o último Orçamento de Estado, seria imediatamente despedido, nada explicou a esse respeito.

Mas Bagão Félix, perante a crise aprofundada pelo Governo da coligação de direita de que fez parte, ainda encontrou forma de fazer uma advertência ao actual Governo. Preveniu do perigo para as finanças públicas que pode resultar da legalização do aborto.

Aquele homem está mais talhado para sacristão do que para governante.

António Guterres

António Guterres foi nomeado por Kofi Annan Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, de um leque de oito candidatos. Como disse Freitas do Amaral: «todos eram excelentes mas António Guterres era o melhor».

A notícia dada sobre a hora por Nuno Moita, aqui no «Ponte Europa» merece alguns comentários:

Em primeiro lugar é uma vitória pessoal de um político de excepcional gabarito e de enorme sensibilidade social.

Para os socialistas é um motivo de orgulho por verem reconhecido internacionalmente o valor de quem foi um dos mais bem preparados primeiros-ministros de Portugal, desde sempre, e um notável presidente da Internacional Socialista.

Para os portugueses é um estímulo para o seu amor-próprio.

Para os refugiados é um motivo de esperança por terem um cidadão com as qualidades do nomeado para resolver os dramas pungentes que percorrem o mundo e envergonham a humanidade.

Para Portugal é efectivamente uma perda.
Carlos Esperança

Afinal, a culpa é nossa!!!

José Sócrates manifestou-se chocado quando teve conhecimento da real dimensão do défice!
Jorge Coelho, em representação do PS, de pronto saltou "em cima" do PSD acusando-o de irresponsabilidade e de deixar o país numa situação catastrófica.
O PSD logo respondeu que a culpa é de António Guterres (que já há três anos qu não manda nada em Portugal) e que se não fosse o PSD de Durão estaríamos bem pior.
Bagão Félix, interpelado, refutou responsabilidades, pois só lá esteve três meses e mal teve tempo para preencher o totobola; já Manuela Ferreira Leite, ao mesmo tempo que se diz curiosa para ver como é que vai ser agora, afirma que se não fossem as políticas de austeridade por ela impostas, a situação seria incontrolável; e ironiza que a criticavam tanto por ela só falar no défice, mas agora ninguém fala de outra coisa.
(Ainda não ouvi ninguém dizer que a culpa era do Cavaco!! estamos à espera ...!!)
PS e PSD (des)responsabilizam-se mutuamente.

Mas afinal de quem é a culpa? pergunto eu.

Pois é, caro leitor, a culpa é nossa.
Sua e minha que aceitamos ser governados por estes políticos!
Minha e sua que periodicamente vamos depositar o único trunfo que temos - o voto - acreditando que pior já não pode ser.
A culpa é sua, caro leitor, que paga os seus impostos e tenta trabalhar o melhor que pode e sabe para contribuir para a dinamização do país; e minha, também, que sigo o seu exemplo.
É nossa a culpa por nada fazermos contra este estado de coisas, e baixarmos os braços e dizer "que se lixe" e desistir de participar, de lutar, de mudar.
Seguramente, caro leitor, a culpa só pode mesmo ser nossa.
Nunca dos nossos governantes...

GUTERRES

“António Guterres é o novo alto comissário da ONU para os refugiados 24.05.2005 - 15h39 PUBLICO.PT

Parabéns António Guterres. A escolha não só prestigia o político como engrandece o País.

segunda-feira, maio 23, 2005

O DÉFICE

"Vítor Constâncio: agravamento do défice provocado por gastos excessivos do Estado 23.05.2005 - 17h15 PUBLICO.PT

O governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, disse hoje, em conferência de imprensa, que a derrapagem orçamental de 6,83 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) ficou a dever-se à desorçamentação na saúde, salários dos funcionários públicos, Instituto de Estradas de Portugal, segurança social e Caixa Geral de Aposentações.
O Serviço Nacional de Saúde apresenta um défice previsível de mais 1512 milhões de euros, "que não estavam orçamentados", referiu Vítor Constâncio.Os fundos para os serviços dos funcionários públicos, relativos aos salários e às progressões automáticas das carreiras, indicam uma insuficiência de 360 milhões de euros que terão de ser repostos pelo actual Governo. Mais 458 milhões de euros dizem respeito ao buraco do Instituto de Estradas de Portugal; 599 milhões de euros são atribuídos à segurança social; e 228,3 milhões representam fundos da Caixa Geral de Aposentações, que não estavam inscritos no Orçamento de Estado, aprovado pelo anterior Executivo PSD/CDS-PP.

Todas estas situações, associadas à desorçamentação, deve merecer especial atenção dos governantes, sublinhou Vítor Constâncio.O governador relembrou que vem alertando há vários anos para o combate ao défice público e à necessidade de serem adoptadas medidas de consolidação das contas públicas, lamentando que estas medidas não tenham sido tomadas em períodos de crescimento robusto.As medidas localizadas e sem efeitos perenes trouxeram mais despesas ao Estado, disse o economista. Nos últimos anos recorreram-se a receitas extraordinárias pelos vários governos, que "apenas atrasaram a aplicação de medidas efectivas de corte das despesas públicas", disse o antigo ministro das Finanças. Vítor Constâncio admitiu que este valor apurado pela comissão é superior às estimativas da instituição central conhecidas no final do ano passado. O governador disse que foram identificados, por esta comissão, outros elementos de despesa que foram integrados nesta nova avaliação, o que fez subir o défice público ao valor hoje anunciado".

Espero que o PS tenha a coragem de dar início a uma reforma da Administração Pública da gestão dos “dinheiros” públicos, sem complexos o estado tem que ser necessariamente diminuído, a base legal tem que ser agilizada, os recursos humanos tem que ser readaptados e “deslocalizados” para onde são mais precisos , o despesismo inútil tem que acabar.

É preciso ter a coragem de agir, mas sem fazer do défice o objectivo final, sem obsessões, o controlo do défice mais não é que um caminho para o desenvolvimento.

Não nos desiludas PS.

Apelo à discussão

Carlos Felício

Benfica

É Águia, é Garra, é Querer! É BENFICA!
Parabéns pela vitória no Campeonato da 1ª Liga!
Parabéns por seres uma grande instituição, que transporta para todo o mundo o nome do nosso Portugal!
Parabéns por, ao longo dos anos, teres conseguido cativar jovens e menos jovens, para a prática desportiva e usufruto de um espaço que também é de lazer!

No interesse de Coimbra

Caro edil da minha terra: Dr. Carlos Encarnação,

Escreves um texto eleitoral (vide Jornal As Beiras de 23/05/05), tendo em vista cativar os conimbricences. Fazes bem! É teu direito. Também teu dever. Pois escolheste para ti, a actividade de trabalhar para as populações, quer seja na Assembleia da República ou na Autarquia. Na primeira, pouco ou nada nos informaste do que por lá fizeste. Desculpa-me se me engano, mas vá se lá saber porquê!

Bem, não é da Assembleia que te quero falar, mas sim do teu trabalho na Autarquia. Este não deixa de ser benéfico para Coimbra, mesmo quando utilizas os feitos, as conquistas e as lutas de alguém que te precedeu, para agora mostrares ao eleitorado obra feita! Pois bem, simpático edil... sim, és simpático. Mas se mal te pergunto, por que razão te esqueceste de referir que a “ponte para lugar nenhum, o hospital para ninguém, a estrada sem fim, a esquadra sem dotação orçamental, a obra sem terreno”... não vale a pena ser mais explícita e dar exemplos mais individualizados (tal como dizes), hoje, só é possível porque esse alguém trabalhou, trabalhou, trabalhou e trabalhou para que tudo isso e muito mais fosse possível.

Para que hoje pudesses vir dizer o que dizes! Esqueces-te de que o povo pede que lhe digam a verdade e que também não gosta de ser enganado, tal como tu!

domingo, maio 22, 2005

Tempos do Café Martinho (Crónica)

Não sei se resultaria hoje o truque que há quase quatro décadas era de uma eficácia surpreendente.

À saída do metropolitano, no Rossio, previamente combinados, alguns jovens parávamos entre os transeuntes e perscrutávamos fixamente um qualquer ponto no horizonte. Pouco depois, enquanto nos raspávamos, ficavam dezenas, mesmo centenas, de mirones a olhar sem saber para onde nem descobrir porquê, a atrapalhar a circulação e a atrasar o regresso a casa. Era um gozo dos diabos, que arreliava a polícia e danava quem tinha pressa. Depois era o encontro no Café Martinho, sem nunca aludirmos ao facto, não fosse o diabo ou a polícia descobrir.

Começámos a encontrar-nos no mês de Maio de 1966, ao fim da tarde e após o jantar. Descíamos à cave onde, à chegada, havia palavras cruzadas para resolver no Diário de Lisboa, antes de nos envolvermos em intermináveis conversas sobre a guerra que nos afligia e a tragédia do regime que teimava em sobreviver. Na mesa ao lado dois senhores – mais tarde saberíamos que eram dois senhores de grande qualidade –, Augusto Abelaira e José Gomes Ferreira, pediam para ouvir as anedotas e os comentários.

O café, delicioso, custava vinte e cinco tostões, servido por um simpático funcionário com uma mandíbula proeminente a quem, por via disso, apelidámos de Queixoso.

A um canto, estacionava um casal, ele a rondar os cinquenta anos, ela deliciosa nos vinte e tal, sóbria nas palavras e na saia, exuberante no sorriso e no decote, ladina. O João Rui dizia que era muito peitoral, referindo-se às saliências deslumbrantes que atraíam olhares e desejos enquanto o Miranda, camoniano, descobria um ilustre peito lusitano. O Leonel chamou-lhe "amiga do peito", tendo logrado geral aceitação. E assim ficou. Olha, a Amiga do Peito já chegou, dizíamos uns aos outros, ainda na rua, a aguçar o apetite da entrada. A ele apelidámo-lo, sem discussão, de sr. Felizardo, enquanto murmurávamos, quanto mais velha é a besta mais viçoso tem de ser o pasto, evocando um dito brejeiro, quiçá um axioma biológico.

A Amiga do Peito e o sr. Felizardo sentavam-se na mesa do vão das escadas que desciam para a cave. Ela, de costas para a parede, mirava quem chegava e ria-se amiúde, aumentando o horizonte visual sob a blusa e a concupiscência de quem descia. Ele dava-lhe a mão, ela prometia-lhe mais, com o olhar.
Há-de ter sido um quadro assim a inspirar António Aleixo: «Homem velho e mulher nova / dá-nos sempre a impressão / do inverno a entrar na cova / com a primavera pela mão».

A mesa ao meio da sala estava habitualmente disponível para o grupo, milicianos consumidos por um ódio violento a Salazar e à tropa e pelo medo da guerra colonial. Ao lado, com lugar cativo, Abelaira sorria por entre o fumo do cachimbo às diatribes dos jovens e trocava olhares cúmplices com o Gomes Ferreira, ambos a adivinharem amanhãs de júbilo num país de silêncios e tristeza. Pressentiam-se esbirros, raramente identificados, mas a míngua de carne para canhão, vital para a ditadura, conferia-nos alguma imunidade.

Havia na tertúlia um indivíduo já regressado da guerra, interessante e culto, cinéfilo e melómano, que desaparecia periodicamente e voltava sempre. Apresentado pelo Leonel, dizia-se jornalista e pintor de arte, jantava uma bica quando a vida lhe corria pior e o bife à Martinho nos dias melhores. Odiava o trabalho com o vigor de quem não tolerava a maldição bíblica. Soubemos que o “jornalista” se limitava a levar os números premiados da lotaria à redacção de um matutino e, como pintor de arte, fazia cartazes que exornavam as montras dos restaurantes da baixa "Hoje há grão com mão de vaca", "Feijoada à moda da casa", "Caracóis" e outras iguarias cujos anúncios, desenhados a escantilhão, eram da sua lavra e o pagamento andava sempre atrasado ou cobrado em géneros, por necessidade.

Lentamente, durante dezassete meses, o grupo foi definhando por uma estranha moléstia que o dizimou. Um a um a mobilização desfez a tertúlia. Como no poema de Brecht, «quando não havia mais ninguém, levaram-me a mim e quando percebi já era tarde».

Depois de vinte e seis meses de ansiedade e medos, de que ainda é cedo para falar, aconteceu o regresso. O Café Martinho foi a primeira âncora a procurar, o sinal que confirmaria a chegada. O edifício estava lá, de frontaria lavada, até, mas do Café nem rastos. A delegação de um banco tomara conta do espaço. O Abelaira e o Gomes Ferreira mudaram de poiso, o Queixoso andaria a servir cafés algures, a Amiga do Peito a fazer as delícias do sr. Felizardo ou doutro, os jovens da tertúlia, dispersos, a fazer pela vida no sector terciário. Só os esbirros, espalhados por todo o lado, cada vez mais numerosos e odiados, me devolveram a tranquilidade. De certo modo foram eles que me confirmaram que regressara ao sítio certo, com o país errado.

sábado, maio 21, 2005

A Democracia, os Partidos e o Mar

“As correntes democráticas, ao longo da história, fazem lembrar a rebentação contínua das ondas. Quebram sempre no momento em que se enrolam e se abatem com fragor. Mas renascem sempre. O espectáculo que oferecem contém ao mesmo tempo factores de encorajamento e de desespero. Logo que a democracia atinge um certo estádio do seu desenvolvimento, inicia-se um processo de degeneração, adopta um espírito aristocrático, em parte adquire também formas aristocráticas e torna-se idêntica À quilo que em tempos procurara combater. È então que do seu próprio seio se levantam as vozes que a acusam dos privilégios oligárquicos. Mas depois de um período de combates gloriosos e de um período de participação cinzenta na dominação, também estes antigos acusadores acabam por se dissolver na classe dominante. E contudo, contra eles levantam-se uma vez mais novos combatentes pela liberdade empunhando a bandeira da democracia. E não encontra fim este drama que ferozmente se desenrola entre o incansável idealismo dos mais jovens e a incurável sede de poder dos mais velhos*. Sempre novas ondas a rugir no mesmo ponto de rebentação. É esta a marca mais profunda e mais característica da história dos partidos políticos.”

Robert Michels



Sem comentários....

A casa e a prisão

Uma pequena estória...
Um dia, um jovem acompanhado de uma amiga, procura uma imobiliária com o objectivo de comprar casa. Rapidamente, o dono da imobiliária, faz um dos seus funcionários assessorar a intenção do jovem. Combinam, entretanto, ir ver um apartamento (o jovem, a amiga e o funcionário).
Chegados ao local, a amiga, alerta o jovem para o facto do funcionário ter entre os dedos indicador e polegar, tatuada uma face de dominó com cinco pontos, explicando-lhe que significava que esteve preso ( o ponto do meio seria o homem e os restantes, quatro paredes).
O jovem de imediato ligou ao pai para lhe contar o sucedido, este último, aconselhou o filho a ir-se embora, pois iria ser enganado.


Se você fosse o jovem, o que faria:

a) Seguia o conselho do pai, porque uma vez desviante toda a vida desviado
b) Deixava o ex- presidiário terminar o seu trabalho
c) Deixava o funcionário terminar o seu trabalho
d) Chamava a polícia, porque aquele homem esteve na prisão e nunca de lá devia ter saído.
e) Outro_____________________________________________________

Constituição europeia.

Como já aqui disse vou votar “Não” no referendo à constituição europeia. Na altura apontei algumas razões, felizmente Pacheco Pereira lançou um blog onde o meu “não” encontra outro sentido e se não confunde com outros.

O meu “Não”, é pela Europa, para que pense sobre o seu destino, que consolide os sucessivos alargamentos e que encontre os seus cidadões.

Vejam:

http://sitiodonao.weblog.com.pt/

O desemprego em Coimbra

Todos sabemos que um presidente da Câmara pouco pode fazer pelo emprego no seu concelho, mas todos nos lembramos de que Carlos Encarnação fez a sua anterior campanha a dizer que queria para Coimbra «mais e melhor emprego».

É o que se vê.
Carlos Esperança

Parabéns, Mário Ruivo

CENTRO DISTRITAL - Mário Ruivo volta à Segurança Social

Mário Ruivo, que exerceu funções de director do Centro Distrital de Coimbra da Segurança Social no último Governo de António Guterres, regressa ao cargo a partir de segunda–feira, sucedendo a Oliveira Alves, que liderou o Centro nos últimos três anos.

Fonte: Diário as Beiras de 21-05-2005

sexta-feira, maio 20, 2005

Terrorismo religioso

O «Diário as Beiras» não pode assumir a responsabilidade pelos despautérios dos seus colaboradores. Não acusarei, pois, o simpático diário de cúmplice na campanha de terrorismo que grassa em certos meios. É até um sinal de pluralismo que pode provocar justa repulsa pelas posições defendidas.

Em 19 de Maio, o pio colaborador Joaquim Cardozo Duarte (JCD) faz a apologia dos dislates do padre Domingos de Oliveira que na paróquia de Lordelo do Ouro, no Porto, vocifera contra o preservativo e o aborto.

No seu artigo «Aborto e infanticídio» afirma: «O que o padre Domingos disse está certo e mais não é do que aplicar a uma situação concreta o que o Evangelho da Vida, a Encíclica de 1995 de João Paulo II, propõe, sobre a inviolabilidade da vida humana, desde o momento da concepção até à morte natural» [sic].

Acontece que o padre que mereceu a total concordância de JCD afirmou textualmente: «matar uma criança no seio materno ainda é mais grave do que matar uma menina de 5 anos». Para cúmulo, tão iníqua afirmação foi proferida na homilia da missa do 7.º dia, mandada celebrar pela mãe de Vanessa, uma menina de 5 anos assassinada com rara crueldade pelo pai e pela avó e lançada ao rio Douro.

O padre disse com toda a clareza que é menos grave matar cruelmente uma menina de 5 anos do que interromper a gravidez de um embrião de 5 semanas. Isto é terrorismo a que a benevolência do Diário as Beiras deu guarida. JCD solidarizou-se com uma campanha que prima pela baixeza e grosseria.

O padre Domingos Oliveira trouxe-me à memória Frei Gaspar da Encarnação a quem Camilo designava por «santa besta». Claro que eu não me atrevo a usar tal epíteto para o pároco de Lordelo do Ouro, por três razões: porque não o conheço, não quero ser deselegante e ele pode não ser santo.

(Carta enviada hoje ao «Diário as Beiras».

FINANCIAMENTO DOS PARTIDOS

[o Financiamento dos partidos] é o pecado original da democracia Portuguesa”- Pedro Norton- Visão 19/05/05.

Concordo com a opinião, defendo, aliás, que o Estado devia entregar aos partidos subvenções anuais significativas e suficientes para que não houvesse necessidade dos partidos recorrem ao financiamento privado (quer de pessoas colectivas , quer de pessoas singulares), o qual deveria ser proibido. Nos últimos anos têm sido dados passos no sentido de tornar o financiamento dos partidos mais apertado, e mais fácil de controlar, mas devemos ir mais além e isso passa pela “sustentação” dos partidos políticos , enquanto garantes do sistema democrático, pelo Estado.

Esta é um medida essencial para minorar os efeitos negativos do chamado “lobbying” empresarial e impedir o surgimento de situações ”nebulosas” em torno dos partidos e, por consequência , em torno do regime democrático. E nem estou a falar desta temática só pelos sobreiros. Nuno Moita da Costa

Humor lusitano

(Foto aérea. Autor não identificado)

O edifício «Casa da Música», de grande arrojo arquitectónico e uma enorme mais valia para a cidade do Porto, já foi apelidado de «CORETO».
Carlos Esperança

quinta-feira, maio 19, 2005

Leonor Beleza tem razão

Leonor Beleza defendeu anteontem a «total separação das águas entre gestão política e a administração pública, que deve ser profissional e não partidarizada».

Pessoalmente acho que tem inteira razão e que não podemos continuar com a vergonha das nomeações políticas, inclusive para cargos intermédios. É necessário e urgente que se recupere o pudor republicano.

Lamento que Durão Barroso tivesse extinto os concursos criados por António Guterres e que se atingissem níveis insuportáveis de compadrio cuja culminância se verificou no santanismo. Paulo Portas e os amigos a quem distribuiu pastas ministeriais ficarão na história como o paradigma do que não se pode fazer do aparelho de Estado.

Quando Leonor Beleza e Marcelo endossaram o PSD a Durão Barroso deviam tê-lo advertido para os prejuízos que tal comportamento causaria ao País.

Mas, vale mais tarde do que nunca.

Encarnação regressa a Lisboa?

Carlos Encarnação, pio edil de Coimbra, cuja decisão mais emblemática foi a mudança de nome à Ponte Europa, vai certamente renunciar à recandidatura à presidência da Câmara.

Compreende-se o desconforto de quem se candidatou há quase quatro anos prometendo mais e melhor emprego e de quem se propunha fazer melhor do que Manuel Machado.

Agora que se gorou a promessa recente, feita com toda a solenidade, de fazer depender a sua candidatura da «resolução da questão do metro», só tem uma forma de salvar a face e de não dar explicações sobre a Empresa que geriu o processo – pedir desculpa aos munícipes e regressar à anterior actividade.

Carlos Esperança

Agradecimento

Parece trágico, mas não deixa de ser fascinante.
Proponho que se reescreva a peça, à medida que se vão (re)produzindo os episódios.
Temos que lhe dar um final de comédia.
A ideia pode ser simples: de acordo com a teoria literária do géneros decorrente da Poética de Aristóteles, o drama sub-divide-se em tragédia e comédia.
Simplificando, mal e depressa:
A tragédia começa bem e acaba mal
A comédia começa mal e acaba bem.
Com um teste americano de cruzes sobre um qualquer conjunto de obras literárias de qualquer época, bate sempre certo.
Os protagonistas estão fadados ao destino que lhes é ditado pelos autores dramáticos.
Os heróis da vida real, quando o são ou procuram ser , escolhem e moldam os respectivos destinos.
Os heróis, frequentemente são loucos e, geralmente, reconhecidos apenas postumamente.
O final do Sec. XX ensinou-nos que os pobres ao escolherem a táctica da guerrilha, alcançaram vitórias sobre exércitos muito mais poderosos, que se moviam pelo modo clássico /convencional.
No sec XXI aquele método ainda não foi derrotado no Iraque, na Colômbia, na Palestina, na Indonésia e na permanente guerra urbana que nos rodeia: a da globalização.
Haverá que escolher rapidamente um papel no casting, para participar, ainda que, como figurante menor, na grande fita que é o Mercado Total.
Não há mais nada em cima da mesa , que não a sacrossanta Economia :( o monstro; o Défice; o orçamento; o mercado; a gestão; os objectivos; a engenharia financeira; a produtividade; os índices; os estudos ; os livros brancos e de todas as outras cores; a concertação; o dumping; o franchising; o outlet; o hipermercado; a scut com uma via sobreposta virtual ao preço da real);
em resumo: a inversão de valores , a desumanização: o império da máquina*


*Deus ex machina
De Wikipedia, la enciclopedia libre.
Deus ex machina es una expresión del latín que significa "dios surgido de la máquina", traducción de la expresión griega "απó μηχαυης Θεóς" (apo mikhanis theos). Se origina en el teatro griego y romano, cuando una grúa introduce una deidad para resolver una situación.Actualmente es utilizada para referirse a un elemento externo que resuelve una historia sin seguir la lógica interna de la misma.

Vemo-nos por aí (2)

Mário Ruivo foi o fundador deste blogue. Deve-se-lhe o entusiasmo e a dedicação para que atingisse o actual nível de notoriedade e importância.

O Ponte Europa é a continuação do «Veritas» e um lugar de encontro de pessoas de esquerda, moderadas, e que gostam de política. Mas é ainda, e sobretudo, um lugar de quem não renuncia à cidadania e se compromete na defesa da liberdade.

Há 31 anos terminou o pesadelo de uma das mais longas ditaduras do mundo. Hoje, gozamos de direitos, liberdades e garantias que só o Estado de direito assegura. Mas não nos resignamos apenas ao exercício cívico do voto. Gostamos de intervir.

O Mário Ruivo defende esses valores e bate-se por eles. Não pensou que a nossa opção por ter abertas as caixas de comentários dos artigos se transformasse na oportunidade cobarde de fazer insultos a coberto do anonimato. E ele foi a vítima predilecta de comportamentos crapulosos. Não apagou os insultos e bastava um clique.

Resolveu sair. Diz que vai andar por aí. Espero que volte a estar por aqui. É o seu lugar.
Aguentaremos o Ponte Europa até ao seu regresso.

Por ora, fica uma homenagem devida e um abraço amigo. E que o regresso seja breve.

Guterres

António Guterres pode vir a ser o próximo Alto Comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR).
No meu entendimento, e ao contrário da maioria das opiniões que tenho lido, Guterres está a apostar no seu curriculum.
Dos biliões de seres humanos que ocupam este planeta, 5 podem almejar ocupar um lugar de relevo internacional (OK, já sei que só algumas dezenas de milhar é que poderiam ter algumas hipóteses).
Para um país que se envaidece com o 2º lugar no campeonato europeu de futebol, com a presença em três finais europeias de futebol consecutivas e com um português na presidência da Comissão Europeia (e eu faço parte desse grupo de "vaidosos"), ter um português na "final five" de um prestigiado cargo internacional deve contribuir para o reforço desse reconhecimento internacional de que nos orgulhamos.
Pode muito bem o escolhido para ACNUR ser o Francês, o Tunisino, o Dinamarquês ou o Australiano. Nada disso tira valor ao Português que já obteve apoios internacionais de relevo, desde a previsivel Espanha à sempre enorme e poderosa Rússia (nunca Bush poderia apoiar quem não foi favorável à invasão do Iraque, nem quem se apresenta ainda como presidente da Internacional Socialista - esta palavra até deve provocar azia a Bush. Para mim, até é um enorme alívio não contar com o seu apoio).
Qualquer que seja o resultado, ninguém poderá já afirmar que Guterres não goza de prestigio internacional reconhecido e de capacidades de liderança, consenso e de valores humanos.
Internamente, alguns ainda o acusam de ter fugido; outros de ter revelado um gesto de dignidade e desprendimento pelo poder (eu incluo-me nestes). Para aqueles primeiros, devem primeiro olhar para Bruxelas antes de fazer qualquer comentário (pois é, às vezes as "balas" fazem ricochete).
Na actualidade, Guterres (goste-se ou não) é o português em melhor posição para ocupar o lugar de Presidente da República.
Por mim, vou estar a torcer para que seja preterido por Kofi Annan ...

quarta-feira, maio 18, 2005

Vemo-nos por aí

Um professor diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavra pegou num frasco grande e vazio de maionese e começou a enchê-lo combolas de golfe. A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estavacheio. Todos estiveram de acordo em dizer que "sim". O professor tomou então uma caixa de fósforos e a vazou dentro do frasco de maionese. Osfósforos preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram aresponder que "Sim". Logo, o professor pegou uma caixa de areia e a vazou dentro do frasco. Obviamente que a areia encheu todos os espaços vazios e o prof.questionou novamente se o frasco estava cheio. Os alunos responderam-lhe com um "Sim" retumbante. O professor em seguida adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco e preencheu todos os espaços vazios entre aareia. Os estudantes riram-se nesta ocasião. Quando os risos terminaram, o professor comentou: Quero que percebam que este frasco é a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes, como a família, os filhos, a saúde, os amigos, as coisas que te apaixonam. São coisas que mesmo que perdêsses tudo o resto, a nossa vida ainda estaria cheia. Os fósforos são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, o carro etc. A areia é tudo o resto, as pequenas coisas. Se primeiro colocamos a areia no frasco, não haverá espaço para o fósforos, nem para as bolas de golfe. O mesmo ocorre com a vida. Se gastamos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teremos lugar para as coisas que realmente são importantes. Presta atenção às coisas que realmente importam. Estabelece as tuas prioridades,e o resto é só areia.
" Um dos estudantes levantou a mão e perguntou: -Então e o que representa o café?"
O prof sorriu e disse: " Ainda bem que perguntas! Isso é só para lhes mostrar que por mais ocupada a vossa vida possa parecer, sempre há lugar para tomar um café com um amigo. "

Aqui deixo esta estória como mensagem final da minha participação activa neste blog. Durante algum tempo fui deixando aqui algumas reflexões e comentários que mereceram a atenção de muitos que nos visitaram. Alguns somavam valor ao que estava escrito, outros não mereciam atenção porque indignos, de baixo nível e quantas vezes falsos. Era a areia do blog.
Mas num momento em que sinto o dever terminar a minha participação activa, repito activa, não quero desperdiçar a oportunidade para mostrar a minha disponibilidade para sempre tomar café com os AMIGOS.
Como na vida tudo pode ser definitivo, eu admito que também o seja. Mas como eles andam por aí não sei se resistirei.
Aos meus companheiros de blog, um até já...havemos de tomar café muitas vezes.

A hora de Vítor Constâncio!

A hora de Vítor Constâncio!

Ao ver o Governador do Banco de Portugal sair de Belém, pensei se não estará o ex-Secretário-Geral do Partido Socialista – em tempos afastado por Sampaio! – a caminho de exercer o lugar primeiro da hierarquia do Estado na nossa querida República Portuguesa!

Constâncio teve um trajecto impecável enquanto ex-Secretário-Geral. Ocupando posições chave termos da sua trajectória profissional, aparece hoje como um homem altamente respeitado, senhor de um perfil de imparcialidade e independência face aos partidos políticos e às correntes de opinião na sociedade portuguesa.

Homem de cultura e princípios humanistas, homem para quem a ideia-chave serão sempre os cidadãos, as portuguesas e os portugueses, e não uma abstracta ideia de competitividade, ao estilo neo-liberal, que tem trazido regressão a todos os níveis ao nosso país.

Constâncio pode bem ser a “surpresa” da esquerda de que Sócrates falou.

Em Janeiro de 2006, após umas autárquicas equilibradas, em que nem o PS esmaga nem será esmagado; com o país em convulsão social causada por um PCP ávido de protagonismo, após a perda inelutável de mais algumas Câmaras e de mais alguns votos; com uma direita mesquinha sonhando com um Cavaco Presidente, passaporte para uma absurda dissolução da Assembleia; - em Janeiro de 2006 – dizia eu – os Portugueses vão querer reforçar a maioria absoluta que deram a Sócrates e vão querer dizer bem alto: queremos em Belém quem soube ao longo da sua vida servir o país e o seu partido, sem espalhafatos, sem inimizades internas e externas, com credibilidade internacional e que dê ao Governo socialista todas as garantias de colaboração vigilante e participada. Esse homem é Vítor Constâncio!

Mas atenção! Como ontem bem avisava Mário Soares, o diálogo à esquerda é urgente, porque depois das autárquicas, a contar com uma 2.ª volta nas Presidenciais… pode ser tarde demais… Cavaco pode ganhar na primeira volta! Esse é o risco da esquerda e para o país. E um risco para quem acredita nos valores progressistas e republicanos da esquerda democrática!


P.S: O que aqui vai dito em nada, mesmo nada, desmerece a hipótese da candidatura de Manuel Alegre, camarada que entusiasticamente apoiei em Agosto passado. Trata-se apenas de fazer uma leitura da realidade de acordo com o perfil do forte pseudo-adversário da Direita, com o momento político e a crise orçamental que se vive e com o facto de a Direcção do PS, democrática e legitimamente eleita, ter um palavra decisiva na escolha do candidato da esquerda. E não tenho a certeza de que queiram apoiar quem esteve contra eles em 2004….

André Pereira

Sporting

Sporting! És uma força da natureza, verde como a esperança que brilha nos teus olhos de leão! Com a tua coragem e garra, vais quebrar o gelo que vem de longe...
Força Sporting! Força Portugal! Força Ricardo, supera a tua performance no Portugal-Inglaterra/Euro 2004 e marca tu também, golos!

SIDA

O Ministro da Saúde, Correia de Campos, num Encontro Internacional da Saúde, em Genebra, (Vide Jornal Correio da Manhã de 18/10/05), referiu a importância da prevenção e sensibilização das populações, para a problemática da Sida.
Num país que conta já com 1515 casos de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (até Junho de 2004, segundo Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge), é necessário prevenir comportamentos de risco e reforçar a importância do combate à estigmatização e discriminação daqueles que já são portadores!

terça-feira, maio 17, 2005

Eleições presidenciais

A cobardia cívica de alguns e o oportunismo de outros vão deixando que se interiorize na opinião pública a vitória de Cavaco Silva como inevitável.

Impede-me o respeito pelo cargo presidencial e, inclusive, pelo cidadão Cavaco Silva, usar a linguagem arruaceira e as ofensas gratuitas que são apanágio da direita miguelista e trauliteira que, odiando Cavaco, se servem dele como vingança contra a esquerda.

Dois terços do eleitorado votaram contra uma direita sem princípios, sem rumo e sem tino. A maioria do eleitorado não consente que os derrotados de há pouco exerçam a desforra por que anseiam. São bem difíceis os tempos para confrontos que têm prazos constitucionais definidos e um período de nojo a observar.

Há no PS cidadãos de inquestionável valor intelectual e reconhecido mérito. Há na esquerda quem possa desempenhar bem as funções de PR e garantir ao actual Governo um mínimo de tranquilidade para os tempos difíceis que aí estão, que contribua para galvanizar um povo que a «apagada e vil tristeza» dos últimos três anos lançaram na descrença e desolação.

Por mim votarei em qualquer cidadão ou cidadã que não tenha pactuado com os partidos que nos arrastaram para o caos em que nos encontramos.

De Manuel Alegre a Maria de Belém há bons candidatos que dariam excelentes chefes de Estado. Pessoalmente empenhar-me-ia com muito entusiasmo na candidatura de uma mulher culta, inteligente, com experiência política e simpatia pessoal. Há várias com o perfil que preconizo. E é tempo de uma mulher na Presidência. É sinal de modernidade.

Cabe ao PS, partido cujas intenções desconheço, apresentar uma candidatura ganhadora.
Estarei do lado oposto ao respeitável cidadão Cavaco Silva. Estarei contra os que dentro ou fora do PS, dizendo-se de esquerda, facilitem a candidatura de direita.

A pusilanimidade não é apanágio dos que lutaram contra a ditadura nem daqueles que, sendo mais novos, se recusam a renunciar aos princípios e a pactuar com os interesses obscuros de que o último Governo foi agente.

Vamos combater a crise...

Paulo Moita de Macedo, o Director-Geral dos Impostos, nomeado pela então ministra Manuela Ferreira Leite, e que aufere 23.840 euros por mês ainda lá continua?

Finalmente!!!

Não é que tenha lá grande importância, mas finalmente aprendi a escrever para esta coisa!!
Que se há-de fazer?! infoanalfabetos!! mas o Mário lá teve a paciência de me explicar.
A partir de agora vou tentar contribuir um bocadinho para a discussão. Dar talvez a oportunidade a uns "palermóides" que mandam umas bocas, escondidos por detrás "das linhas digitais", para zurzirem também na minha pessoa. Há quem diga até que eu tenho as costas largas ...

Então isso vai ou não?

Depois de ler o Góis Companheiro fica-me a impressão que há lá qualquer coisa que me faz pensar que o PSD está, nervosamente, preso em qualquer lado!

Já tínhamos ouvido falar

Góis - “Concelho de risco” preparado para o fogo, lia-se nas Beiras

O governador apelou também às populações para “que rejeitem todas as tentações de Verão” que possam originar incêndios florestais.

Há CIC?

Se dúvidas havia elas ficaram esclarecidas com a notícia de que este ano não há CIC. As razões têm a ver com problemas de financiamento da autarquia e com provas de atletismo.

A Cidade é que fica a pensar se já não há quem corra ou se é preciso correr com eles.

Portagens indevidas nas auto-estradas

Para quem quiser exercer o direito de petição aqui fica o endereço.

http://www.petitiononline.com/portagem/petition.html

Sobremesa da Vitória

Ingredientes

1kg de fé
900g de motivação
900g de mobilização
900g estratégia
900g organização
900g ousadia
900g de ataque
900g de sorrisos
900g de trabalho
900g de coragem
500g de medo
900g união

Preparação

Reduza a puré o medo, junte-lhe a fé e leve a lume a 1000 graus por 5 meses. Acrescente-lhe a motivação e a estratégia e mexa bem até a mobilização e a união parecerem consistentes. Não retire do lume para não arrefecer. Bata energeticamente a coragem até ficar firme e leve também ao lume até prender. Envolva os sorrisos e reserve. Entretanto, forre a forma em trabalho com uma película aderente de fé e coloque tudo no forno sempre aquecido. Termine decorando com rosas frescas e sirva sempre com o ataque em qualquer momento, com um sorriso.

P.S. Não se esqueça da organização necessária para elaboração desta sobremesa.

segunda-feira, maio 16, 2005

José Staline


A reabilitação tentada pelo órgão oficial do PCP - o «Avante» - é um insulto a milhões de vítimas, um atropelo à verdade histórica e uma ofensa ao próprio comunismo.

O revisionismo histórico é um crime que impede que os erros se transformem em vacina e permite que os facínoras se transformem em heróis.

É ainda um erro, porque afasta militantes, impede a adesão de outros e, sobretudo, prejudica a convergência entre partidos de esquerda, tão necessária na luta contra o desvario de uma direita truculenta e as obsessões neoliberais que grassam por toda a parte, sacrificando a justiça e a solidariedade ao único Deus idolatrado - o lucro.

Carlos Esperança

A uma vida...

Todos sabemos que vivemos numa sociedade em constante mutação, fruto da própria necessidade humana! Essa mutação, veloz e feroz transporta-nos a todos, quer queiramos quer não, sob o peso de nos excluírmos dos valores da nova era... que não se consolidam dada a velocidade da própria transformação!
Frágeis, rapidamente esquecidos e recordados como se de uma antiguidade se tratassem!
Solidariedade, cooperação, contrato... humanidade!
Quando pensamos em "drogados", as representações sociais e os discursos falados são: marginalidade, insegurança, ilhas isoladas... JÁ! O dever de não nos roubarem, de não se aproximarem dos nosso filhos, de não nos ameaçarem com a seringa, de não nos riscarem o carro, de não os olharmos nos olhos com medo de nos sentirmos simplesmente... humanos!!
Falamos sem pensar no que vai por detrás da cortina... consomem porquê? Dramas familiares, destruturação psicológica, punições e perseguições sociais, tantos e tantos outros!...
Quando falamos de toxicodependentes, pensamos em exlusão! O direito a reaprender a viver e a ter uma casa, um trabalho, um café, um amor, uma vida plena... ou quase plena de cidadania!
Todos sabemos que o enquadramento social dos toxicodependentes, pressupõe um percurso, uma caminhada na via de acesso à partilha das nossas regras e valores dominantes, à recuperação de uma dignidade!
Solidariedade, cooperação...humanidade! Ah! Contrato... o reforço da negociação que temos a obrigação de estabelecer: trabalhadores sociais, Estado, sociedade civil e as... pessoas com toxicodependências... que só poderá ser assinado se esta parceria funcionar!!!!


Por um reforço governamental das medidas dirigidas não só à prevenção e tratamento mas também à reinserção de toxicodependentes: UNIVAS; Clubes de Emprego, Serviços de reinserção, Programa VIDA_Emprego, Empresas de inserção, ILE's, etc

A uma vida...

Todos sabemos que vivemos numa sociedade em constante mutação, fruto da própria necessidade humana! Essa mutação, veloz e feroz transporta-nos a todos, quer queiramos quer não, sob o peso de nos excluírmos dos valores da nova era... que não se consolidam dada a velocidade da própria transformação!
Frágeis, rapidamente esquecidos e recordados como se de uma antiguidade se tratassem!
Solidariedade, cooperação, contrato... humanidade!
Quando pensamos em "drogados", as representações sociais e os discursos falados são: marginalidade, insegurança, ilhas isoladas... JÁ! O dever de não nos roubarem, de não se aproximarem dos nosso filhos, de não nos ameaçarem com a seringa, de não nos riscarem o carro, de não os olharmos nos olhos com medo de nos sentirmos simplesmente... humanos!!
Falamos sem pensar no que vai por detrás da cortina... consomem porquê? Dramas familiares, destruturação psicológica, punições e perseguições sociais, tantos e tantos outros!...
Quando falamos de toxicodependentes, pensamos em exlusão! O direito a reaprender a viver e a ter uma casa, um trabalho, um café, um amor, uma vida plena... ou quase plena de cidadania!
Todos sabemos que o enquadramento social dos toxicodependentes, pressupõe um percurso, uma caminhada na via de acesso à partilha das nossas regras e valores dominantes, à recuperação de uma dignidade!
Solidariedade, cooperação...humanidade! Ah! Contrato... o reforço da negociação que temos a obrigação de estabelecer: trabalhadores sociais, Estado, sociedade civil e as... pessoas com toxicodependências... que só poderá ser assinado se esta parceria funcionar!!!!


Por um reforço governamental das medidas dirigidas não só à prevenção e tratamento mas também à reinserção de toxicodependentes: UNIVAS; Clubes de Emprego, Serviços de reinserção, Programa VIDA_Emprego, Empresas de inserção, ILE's, etc

A jangada florida

Desapareceram da agenda mediática referências à decisão do grupo parlamentar do PSD/Madeira que retirou a imunidade parlamentar a um deputado do PS, para ser julgado por ofensas verbais a Jardim, a quem chamou «tiranete».
Ora, a imunidade serve exactamente para garantir a liberdade política sem constrangimentos. Tem para os deputados a mesma função que a inimputabilidade tem para os juizes. Mas a concepção insular de democracia e o servilismo ao líder vitalício conduziu os deputados do PSD/M a uma decisão iníqua e bizarra.
Decisões destas demonstram que os órgãos de administração local são meros prolongamentos do poder pessoal e os seus titulares satélites do sátrapa autóctone, tanto mais chocantes quanto os atropelos à ordem democrática, o desrespeito reiterado aos titulares dos órgãos da soberania, a ligeireza na gestão do orçamento, as provocações e a irreverência, são a imagem de marca do presidente do Governo Regional da Madeira.
A. J. J. é incapaz de se conformar com «as denominadas leis gerais da República». Como representante de um «povo superior» - pitoresca designação para os madeirenses que lhe garantem vitórias sucessivas - reivindicou e conseguiu o reforço do poder legislativo da Assembleia Regional para se furtar ao controlo da República.
A excessiva autonomia que, a meu ver, foi conferida às Regiões Autónomas, o exagerado protagonismo constitucional (v.g. o assento no Conselho de Estado, por inerência, aos seus presidentes) e, sobretudo, a desresponsabilização orçamental que lhes é tolerada, aumentam progressivamente a conflitualidade, já difícil de gerir.
Na Madeira, o poder autoritário reforçou-se ao ritmo da demagogia e populismo que o líder insular imprimiu.
O paraíso fiscal que, à semelhança doutros, se suspeita servir para lavagem de dinheiro e seguramente para fugas ao fisco, acabará por finar-se sob a vontade da União Europeia que se esboçou em Santa Maria da Feira, sob a presidência portuguesa.
Mas o que acontecerá aos desmandos de quem, no passado, se recusou a devolver verbas que o Tribunal de Contas exigiu, argumentando que «durante 550 anos a Madeira foi espoliada por Portugal»?
Quem porá termo à dimensão do aparelho de Estado, à composição faraónica dos seus órgãos, a 11 Câmaras municipais e aos custos exorbitantes de funcionamento?
Quem zelará para que o poder democrático nacional não se dissolva nas águas do mar que separa o Continente da Madeira ?
Não é a solidariedade nacional que se discute nem as obrigações para com as Regiões Autónomas ou qualquer outra parcela de Portugal. É o respeito da Constituição e a isenção dos Tribunais que está em causa e que ao Governo da República compete fazer respeitar. É um problema de soberania que está em causa.
Carlos Esperança

O tolo

Conta-se que numa pequena cidade do interior, um grupo de pessoas divertia-se com o idiota da aldeia. Um pobre coitado de pouca inteligência, que vivia de pequenos biscates e sobretudo de esmolas.
Diariamente, eles chamavam o bobo ao bar onde se reuniam e ofereciam-lhe a escolha entre duas moedas – uma grande de 50 cêntimos e outra menor, de 1 euro. Ele escolhia sempre a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos.
Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e perguntou-lhe se ainda não tinha percebido que a moeda maior valia menos.
"Eu sei" – respondeu o não tão tolo assim – "ela vale metade do valor,mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou ganhar mais nenhuma moeda."
Podem tirar-se várias conclusões dessa pequena narrativa:
A primeira: quem parece idiota, nem sempre é.
A segunda: quais eram os verdadeiros tolos da história?
A terceira: se você for demasiado ganancioso, acaba por estragar sua fonte de rendimentos.
Mas a conclusão mais interessante é a seguinte:
A percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito.
Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas o que realmente somos.
"O maior prazer de um homem inteligente é fazer de idiota diante de um idiota que faz de inteligente"

Estamos livres de lobis?

Desde há muito que eu venho ouvindo dizer que as cadeias são uma escola, não de virtudes mas de más prácticas. Todos já ouvimos estórias de indivíduos que referem ter sido ali (nas cadeias) que aprenderam a assaltar carros e habitações, que foi ali que concretizaram a sua formação em Percursos Sociais Desviantes.
A ideia de instalar na Penitenciária de Coimbra uma "Casa do Conhecimento" pode ser uma fórmula interessante para converter um local de maus hábitos num centro de boas vivências. O problema será se o espaço imobiliário for o de maior impacto e a "Casa do Conhecimento" o alibi.

domingo, maio 15, 2005

Duas mulheres, dois gestos de heroísmo silencioso

A brutalidade da violência contra mulheres, perpetrada por tribunais islâmicos, de que a condenação à morte por lapidação, em caso de adultério, é apenas a ponta do icebergue da crueldade atávica, aparece com medonha regularidade referida na comunicação social.
Entre a indignação e a revolta vêm-me à memória, vá-se lá saber porquê, dois transplantes de órgãos ocorridos nos Hospitais da Universidade de Coimbra, ambos no ano de 2001.

1 – Num qualquer dia de Abril os médicos removeram uma fracção de fígado de uma mulher saudável. Não foi divulgado o nome nem a idade. Foi apenas uma mulher com muito amor, autora de um gesto nobre, paradigma encantador a dar conteúdo à palavra Mãe. Sem hesitações. Sem medo. Determinada. Serena. Abnegada.

Muito perto, noutra cama, esperava o pedaço de fígado da dádiva uma criança para quem a porção de víscera era condição de sobrevivência.
No sofrimento foi possível a generosidade da mãe, na angústia a esperança da filha, na agonia a vida de uma criança.

É uma história de amor verdadeiramente visceral. É um grito de esperança a ressoar numa vida que não desistiu. É um hino de solidariedade escrito por uma mãe que repetiu o parto e renovou a vida, poema de sangue escrito a bisturi com versos feitos de carne cosida com linha.
O tempo não será mais a medida destas vidas. Cada minuto foi uma centelha de eternidade. É preciso que os deuses tenham ensandecido para não recompensarem o gesto.

E nós, embevecidos com o milagre da cirurgia, nem nos damos conta do milagre maior que é o amor, sentimento que julgávamos já perdido algures entre a livre circulação de mercadorias e a acumulação contínua do capital.
Ficámos a saber que na bolsa de valores da consciência humana ainda há acções que valem a pena, porque são imunes aos humores e rumores do mercado, porque resistem à cotação do dólar e ao preço dos combustíveis fósseis, porque não dependem de ciclos económicos nem de jogos de poder.

Foi há quatro anos. Que será feito das vidas de mãe e filha esquecidas no turbilhão de escândalos e intermináveis guerras? Exceptuando o arquivo da unidade de transplantes não é fácil que alguém as recorde. A memória regista mais facilmente o que há de pusilânime e fere a inteligência. E a maternidade é um ofício ancestral que se faz de graça e com naturalidade.

2 – Em Outubro outra mulher saudável e ainda jovem doou um rim. Um acto simples, apenas o risco assumido da própria vida na coragem de um gesto decidido. À espera, noutra cama, estava o filho.
Dentro de cada mãe há sempre uma mulher que emerge do estigma das milenárias burkas, qual águia presa ao chão sem poder voar, e que, libertando-se com um simples bater de asas, parte as grilhetas do medo e estilhaça a tradição.

Podem cobrir a cabeça de uma mulher com medo de que o pensamento a liberte, ocultar-lhe o corpo para lhe embotarem os sentidos, mas é a alma que alguns homens lhe querem aprisionada com receio de que desperte para o sortilégio da vida.
Quem é capaz de decidir do seu próprio sacrifício é porque encontrou o amor. Quem sabe do que é capaz o corpo, descobriu antes o que podia o espírito. Uma mãe que dá um rim ao filho doente é uma mulher corajosa.

Se a mulher foi criada a partir da costela de um homem ficou-lhe com a melhor. Quem lhe exige a submissão teme-lhe a inteligência ou duvida de si próprio. E nunca saberá amar.
Em Portugal, há apenas três décadas, a mulher precisava de autorização do marido para transpor a fronteira, a magistratura e a carreira diplomática eram-lhe inacessíveis, os direitos mais elementares eram-lhe recusados. Em nome da tradição e da moral.

Depois, foi uma longa e exaltante caminhada no país de Abril. De mãos dadas com os homens, seus irmãos. A caminho da libertação, homens e mulheres.
Hoje, um pouco por todo o mundo, subsistem sinistros guardiões de uma moral obsoleta, beatos implacáveis que sujeitam as mulheres à mais cruel e infamante das submissões. Quem lhes adivinha o rancor que os devora? Quem continuará a permitir-lhes a crueldade de que a mulher é a vítima predilecta? Só a sofreguidão mística do paraíso pode conduzir à louca ambição de erradicar os infiéis, todos os infiéis, num proselitismo demente que atinge o êxtase na embriaguez da morte.

Em tais sociedades nenhuma mulher doará um rim. Não pode decidir como vestir-se e não lhe é permitido despir-se. Nem para doar um rim. Nem para amar. Nesses lugares a mulher não tem rins. Nem filhos. Simplesmente não existe, acorrentada pela violência da tradição e anulada pela atrocidade dos preconceitos.

Mas se à mulher é negado o direito à vida o homem fica condenado à morte.

É por isso que precisamos de libertar-nos das burkas em que pretendem enclausurar-nos, da genuflexão a que querem submeter-nos, do livro único que querem impor-nos, dos lugares santos para que querem virar-nos. É a liberdade que é preciso conquistar e preservar. Para todos, homens e mulheres. Em todo o tempo. Em qualquer lugar.

sábado, maio 14, 2005

Já falaste com o teu Banco?

As suspeitas sobre dirigentes do CDS não devem ser motivo de satisfação nem objecto de luta partidária. São sobretudo motivos de reflexão sobre o financiamento partidário e, eventualmente, sobre a baixa qualidade de pessoas que chegam às cúpulas partidárias.

Não são os eventuais ilícitos criminais que nos podem fazer desconfiar dos políticos, em geral. A promiscuidade entre o poder económico e o político devem ser objecto de ponderação, mas não podemos lançar sobre todos os políticos o labéu da infâmia.

O facto de um certo número de trogloditas da direita mais cavernícola se ter babado de gozo enquanto se assassinava politicamente o líder do PS no fogo do processo Casa Pia, a que era alheio, não nos deve levar a proceder com a mesma baixeza moral e o mesmo espírito de vindicta.

Os crimes comuns são do foro judicial e de interesse jornalístico. Não provam a superioridade moral dos adversários nem a incompetência do seu projecto político.

O CDS de Paulo Portas foi incompetente como Governo, medíocre nos seus dirigentes, retrógrado nas suas posições e assustador no seu projecto. Não precisa da desonra dos governantes para se tornar irrelevante perante o eleitorado e detestável face ao país.

Dito isto, não podemos deixar de verberar o comportamento de um Governo de gestão que antes e depois das eleições continuou à solta no aparelho de Estado a repoltrear-se à farta à mesa do Orçamento. O CDS/PP, pior que o pior PSD/PPD, foi o exemplo de um partido sem sentido de Estado que viveu da legião de assessores que contratou, da benevolência ou cumplicidade de alguma comunicação social e das prebendas que distribuiu.

Esperemos que tão cedo não voltemos a encontrá-los, embora saibamos que vão andar por aí. E, sobretudo, urge evitar que os Governos se transformem no prolongamento do Conselho de Administração de grandes empresas.

sexta-feira, maio 13, 2005

Défice real nos sete por cento

Não é preciso que o défice real atinja os 7% anunciados hoje pelo jornal «A Capital». Bastam os 6% que já se davam por adquiridos para que a situação não seja apenas má. É de uma catástrofe orçamental que se trata e de uma imperdoável irresponsabilidade do Governo precedente.

Quando Santana Lopes disse que o fim da austeridade tinha chegado ao fim saberia do que estava a falar? O ministro Bagão Félix tinha alguma ideia da pasta que tutelava? Como podem ter deixado o País afundar-se a este ponto depois do impudico exercício de flagelação a que se dedicaram em relação ao Governo do Eng.º Guterres?

Claro que nem todos os Governos têm o privilégio de ter nas Finanças um ministro com a qualidade e sensibilidade de Sousa Franco. Mas não se pode chegar à leviandade de confiar os destinos do País a Santana Lopes e as Finanças públicas a Bagão Félix.

A coligação PSD/CDS delapidou o património sem conter o défice, congelou os salários da função pública sem equilibrar o Orçamento, passou o tempo a denegrir o passado sem deixar de agravar o futuro.

É esta gente que não soube governar Portugal, de quem apenas há fortes suspeitas de se ter governado, que não honrou as instituições nem prestigiou a democracia, que sonha ter um presidente da República da sua confiança.

Para além da enorme promiscuidade entre o poder político e o poder económico a que é preciso pôr cobro, e de que nenhum partido do poder esteve imune no passado, há que recordar a imensa desgraça que constituíram ministros como Celeste Cardona, Bagão Félix, Paulo Portas, Nobre Guedes e tantos outros.

Vêm aí maus tempos, não tenhamos ilusões. E os portugueses não compreenderão que com o aperto do cinto, a que todos vamos estar sujeitos, permaneçam mordomias que ofendem, sinecuras que envergonham e amplitudes remuneratórias que atingiram níveis obscenos na função pública.

Não podem ser os mais modestos os mais sacrificados. O Governo é PS e tem de mostrar que o é. É pelas mordomias que deve começar.

Bolonha, ECTS, Suplemento ao Diploma: palavras-chave para uma reforma do Ensino Superior

O governo “dos pequenos passos” vai fazendo o seu caminho. Agora o Ensino Superior; área em que a reforma e o debate têm estado inquinados desde há cerca de 15 anos pela questão das propinas e onde convivem, lado a lado, a inovação, a excelência e a competitividade, com a sonolência, a permissividade e um certo fascismo social típicos de uma sociedade em transição.

Uma Europa com voz no Mundo, portadora de um sentido e apostada em continuar a ser vista como referência no plano internacional, carece de uma Academia plural, dinâmica, e multilingue.

Bolonha – símbolo da gloriosa tradição universitária europeia – é agora uma oportunidade para rever conceitos, metodologias e estratégias de ensino.

A pergunta a colocar a um Professor não deverá mais ser: “Qual o programa da cadeira?”, mas sim “como vão os seus alunos alcançar essas competências?”. Aos alunos não bastará mais dizer “Fiz a cadeira!”; é necessário que interiorizem que “Aquela cadeira permitir-me-á aprender a resolver aqueles problemas, adquiri mais alguma diferenciação e outras capacidades”.

Os Estudantes podem finalmente ver reconhecido o direito à livre circulação de pessoas no espaço europeu do ensino universitário, realizando cursos de verão num país, semestres noutro, 1.º ciclo no Norte, 2.º ciclo no Sul. Assim se faz Europa! Os Estudantes devem ainda exigir a aplicação do “Suplemento ao Diploma”, em que sejam devidamente reconhecidas as actividades extra-curriculares e profissionais que exerçam.

Os Professores devem continuar a exigir apoio institucional e financeiro para poderem participar no esforço de internacionalização e divulgação da cultura científica portuguesa. Por exemplo, instituindo-se gabinetes de tradução (ou apoios financeiros à tradução), departamentos administrativos especializados nas candidaturas aos programas europeus de investigação científica. Aos Professores exige-se um forte empenho nas actividades pedagógicas com os alunos nos seus trabalhos específicos. E simultaneamente um esforço de participação na construção da ciência europeia, marcando posição nas publicações internacionais e divulgando o seu saber nos ‘fora’ mundiais.

Algumas profissões exigem que o aluno complete o 2.º ciclo (“mestrado”). É o caso – na minha opinião - das profissões forenses (Magistrados e Advogados, mas não Solicitadores ou Funcionários judiciais). Esta ideia, porém, não se poderá alargar indefinidamente a todas as Engenharias ou a quaisquer outras profissões. Isso seria uma “burla de etiquetas”: seria manter tudo na mesma, apenas mudando o nome. Onde agora se exige o canudo de “Licenciado”, passar-se-ia a exigir o diploma de “Mestre”.

E sobretudo não acredito que os portugueses precisem de mais anos de formação que os congéneres europeus para adquirir as mesmas competências. Julgo que temos as mesmas capacidades intelectuais que os outros. Apenas se exige que se aprenda mais em menos tempo!

O problema das propinas continua aí. E agora, no 2.º ciclo, com força redobrada! Apenas gostaria de chamar a atenção para uma possível iniquidade: a proposta do Ministro Mariano Gago pode tornar mais barato os cursos de Medicina e Arquitectura que o de Matemática ou História, por exemplo. O que não deixaria de ser estranho…!

E se tivermos um 2.º ciclo muito caro em Portugal? Bom, as crianças que comecem a assistir ao “Canal Panda” para aprender espanhol: em Salamanca será certamente muito mais barato! A propos, ontem já coloquei TV Cabo para minha filha ir treinando a língua de Cervantes alguns minutos por dia!

André Pereira

Cavaco e as presidenciais

O carro de apoio à candidatura de Cavaco Silva já está em movimento. Um dia aparece um artigo do candidato, no outro almoça com antigos governadores civis, depois hão-de aparecer os empreendedores, os universitários e um ou outro artista, algum escritor e meia dúzia de intelectuais para dar colorido ao albergue espanhol dos seus apoiantes. Ele próprio há-de aparecer com um livro que sirva de pretexto a uma reunião social.

Cavaco é um homem sério e não merece que o achincalhem por se disponibilizar para ocupar o posto cimeiro do Estado, mais pela carga emblemática do que pelo poder efectivo das funções. Se viesse a ser presidente da República era um direito legítimo do cidadão responsável e respeitável.

No entanto, o problema maior são os apoios que se perfilam. Contra a sua vontade, Cavaco é a desforra com que contam os derrotados de 20 de Fevereiro, os oportunistas que ungiram Santana Lopes e os inocentes que confiaram em Durão Barroso.

Os indefectíveis do antigo primeiro-ministro dedicaram-se aos negócios e trataram de enriquecer. Foram à vida. O próprio Cavaco abandonou a participação cívica e apenas apareceu nas eleições legislativas, fugazmente, para não ser esquecido. É um gestor, não é um diplomata. Foi assim que se afastou da política onde hoje não é mais do que a bandeira ansiada por derrotados e ressentidos.

Não é o homem de consensos que ajude a tranquilizar o País. Contra a sua vontade, não é o bálsamo de que a direita precisa, é a arma com que esta direita pretende disparar. Não lhe interessa o perfil para as funções, deseja que ameace e iniba o Governo e, logo que possível, provoque eleições. Graça Moura foi o primeiro a afirmá-lo.

O País arrisca-se a regressar à crispação e à instabilidade em que a coligação de direita o deixou. A debilidade do PSD e a desagregação do CDS necessitam de uma vitória, que possam reclamar como sua. É o pretexto para o ajuste de contas, a vingança e o desafio ao actual Governo.

A vitória de um candidato de direita seria péssima para Portugal. Não por causa de Cavaco Silva.

Mas, apesar dele.
Carlos Esperança

quinta-feira, maio 12, 2005

Call me Barroso, José Manuel Barroso!

Call me Barroso, José Manuel Barroso!

J.M.D.Barroso não tem tido vida fácil em Bruxelas. Escolhido em ‘petit comité’ dominado pelo Partido Popular, o primeiro-ministro que, à frente de uma coligação de direita, conseguiu a proeza de ter 1/3 dos votos expressos no seu próprio país, recebeu como prémio uma ‘Comissão de Serviço’ por 5 anos em Bruxelas, com a garantia de um regresso em ombros à sua Pátria natal – qual filho pródigo!
Mas afinal havia mais um qualquer pequeno adereço: o seu velho amigo, um bilionário grego com quem lamentavelmente não passava férias há já muitos e muitos anos, finalmente conseguiu convencer o antigo colega José Manuel para uma pausa no Mediterrâneo, naturalmente acompanhado da Senhora sua esposa e seus simpáticos filhos, antes da cansativa e cinzenta ‘estadia’ em Bruxelas.

Estes assuntos da ‘vida privada’ dos ‘grandes líderes’ são agora motivo de interesse não só das revistas cor-de-rosa, mas também dos chamados jornais de referência e mesmo – para grande espanto de quem vive numa democracia em parte dominada pelos caciques corruptos ao nível local e nacional – dos parlamentares europeus!

E não é que querem que o Senhor Presidente da Comissão europeia explique o “como e o porquê” das suas férias?! Um Parlamento a fiscalizar os titulares de cargos executivos? Que estranhos hábitos democráticos têm os ‘europeus’ além-fronteiras. E ameaçam, inclusivamente, com uma moção de censura?!
Vejam: http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1223067

Barroso, José Manuel Barroso tem revelado grandes dificuldades.
Logo na “nomeação”: ‘alguns’ sabem porque se tornou público que ele não era a primeira escolha.
Seguindo-se a constituição da equipa de comissários: o Sr. Butiglione, um homem de convicções morais profundas que não estão de acordo com o politicamente correcto ‑ mais um caso em que a vida privada dos “executivos” foi devassada!
Na apresentação de um plano de acção: os media não o deixam fazer passar a mensagem!
Na gestão das suas velhas amizades: um homem como Barroso, que fala inglês e francês, frequentou cursos na Suíça, naturalmente que é velho ‘compincha’ de um negociante grego e obviamente como cavalheiro requintado e habituado a bons tratos passa férias num iate em alto-mar.

E se bem repararmos em todos estes dados, detectamos a razão desta estratégia concertada dos media: temos um português, um italiano e um grego.
A Europa do Norte, ou, como dizem alguns renomados cronistas da praça, alguns media apoiados nas opiniões públicas de França e Alemanha (demasiado conservadoras no seu apreço pelo Estado Social e que não vêem com bons olhos um “liberal reformista” que poderia levar a Europa a caminho do progresso – como aliás começou a fazer em Portugal!) – são estes – os nórdicos, anti-liberais e anti-cristãos – os verdadeiros responsáveis pelo tremendo ‘complot’ contra o nosso “compatriota”, que levou e está a levar o nome de Portugal mais alto e mais longe!

Ou será que esta missão é demasiado elevada para Barroso, José Manuel Barroso?

André Pereira

Dia Internacional do Enfermeiros!

Hoje os enfermeiros de todo o mundo comemoram o seu dia!
Uma das profissões mais antigas no cuidar da nossa saúde, numa relação de proximidade única!
Prescrições médicas e enfermeiros de família, são algumas medidas que esta classe pretende ver concretizadas (vide Jornal Diário de Coimbra de 12/05/05). Porém, não estamos longe do tempo, em que esta reinvidicou regalias relativamente ao crescimento sócio-profissional dos auxiliares de acção médica.
Este exercício, levanta-me algumas dúvidas: estas medidas (sobretudo a primeira)não tocarão na área tradionalmente dos médicos?; é apenas uma reavaliação da sua profissão face à evolução da ciência e da própria sociedade?; ou uma resposta ao desenvolvimento da profissão que os auxiliam?
O que deverá o Governo fazer?