sábado, agosto 31, 2013

Remodelação no Vaticano...

Jorge Mario Bergoglio resolveu ‘dispensar’ um dos homens mais polémicos da Cúria – o cardeal Bertone – que, desde a abdicação do cardeal Ratzinger (hoje a viver em regime de reclusão) esteve sempre no olho do furacão provocado por diversos escândalos (desde os casos de pedofilia, branqueamento de capitais ao tráfico de influências nos corredores apostólicos).

Para o seu lugar – o 2º. hierarquia do Vaticano - nomeou o arcebispo Pietro Parolin pouco conhecido nos círculos do Vaticano e presentemente a exercer funções diplomáticas em Caracas link.

É uma mudança que carece de ser interpretada à luz das lentas e sucessivas alterações que vêm ocorrendo neste papado. Primeiro, a escolha para a inevitável e inadiável sucessão de Bertone não recaiu sobre um purpúreo residente; segundo, foi indicado para o exercício das funções de Secretário de Estado um clérigo novo (58 anos) que não pode ser incluído no restrito grupo da gerontocracia cardinalícia e, em terceiro lugar, o sinal de que a presente substituição visa reforçar a Secretaria de Estado no domínio da representação externa já que a designação recaiu sobre um elemento oriundo da carreira diplomática eclesiástica.

Ficam por esclarecer quais serão as reais mudanças a operar no domínio dos ‘negócios internos’ do Vaticano, nomeadamente, em relação ao que, no actual momento, parece ser um dos seus pontos mais sensíveis - o IOR.

E, finalmente, como habitualmente, estas mudanças e/ou rotações de cargos decorrem em círculos muito fechados, rodeadas de discretas informações, tornando difícil a avaliação de profundidade das alterações que encerram e nunca se anunciam. Uma coisa é certa e segura: no Vaticano não há lugar para sobressaltos!

A notícia tem valor não pela personalidade e características do novo Secretário de Estado, nem pelas alterações que venha a protagonizar, mas pelo fim do 'período negro de Tarcisio Bertone’ que ensombrou a ICAR desde 2006 até ao presente.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Passos Coelho e a Constituição da República

Passos Coelho, um genérico de PM, de qualidade não certificada, abdicou das funções em que foi investido, finalmente convencido da sua incompetência, e entregou as principais tarefas a Paulo Portas – o Irrevogável.

Reservou para si o apelo à subversão do ordenamento jurídico português e a chantagem aos juízes a quem cabe zelar pela legalidade.

Que o medíocre cidadão e péssimo PM veja na CRP os mesmos malefícios que Maomé via no toucinho, é um direito, mas que os verbalize e faça chantagem sobre o Tribunal Constitucional, é uma boçalidade contra a qual o Eng.º Ângelo Correia o devia prevenir.

A decadência ética do PM pode arrastar consigo o PSD e tornar Portugal um país pária.


Passos Coelho: chantagens atrás de chantagens…

Derrubada pelo recente acórdão do Tribunal Constitucional a pretensão do Governo de despedir, recorrendo a uma obscura manobra de ‘requalificação’, um número não determinado de funcionários públicos link, o Governo começa a aperceber-se que a sua ‘Reforma do Estado’ é um chorrilho de inconstitucionalidades. Falta saber o que sudederá sobre a alteração do horário de trabalho (40 h/semanais), bem como a vertente social dessa reforma que se traduz no corte das reformas dos aposentados (10 ou 20% já ninguém se entende) mas os auspícios não serão bons.  

Hoje, o primeiro-ministro vem exibir como ‘nova’ uma realidade que tem sido insistentemente anunciada: a necessidade de um 2º. Resgate. 
Disse: “Se não formos capazes nos próximos meses de sinalizar aos nossos credores esta reforma estrutural do Estado que garanta que a despesa baixa de uma forma sustentada, o que acontecerá é que não estaremos em condições de prosseguir o nosso caminho sem mais financiamento, sem um segundo programa que garante ao país os meios que ele precisa”. link.

E essa realidade tornou-se visível na 5ª. avaliação do Programa de Assistencia Financeira (Setembro de 2012) quando se verifica que tudo estava a correr mal e a troika enjeitou as responsabilidades pelo que estava a suceder. O Governo para salvar a face (de bom aluno e ir para além da troika) acorda em proceder cortes na despesa do Estado no valor de 4.700 M€ a que pomposamente apelidou de ‘Reforma do Estado’. Este passo de mágica deve ter sido sugerido pelo ex-ministro Gaspar e pelo seu adjunto Moedas que tendo uma vivência confinada a instituições financeiras esqueceram-se que em Portugal existia uma vida política definida pela Constituição da República. No topo da hierarquia política aparecia Passos Coelho tão ignorante como os demais. 
A partir daí só desastres que encharcam o ambiente político nacional e cujo espectro visível e público foi o desastroso 'discurso da TSU'. Mas para aqueles que não se recordam – e só para falar do que foi anunciado – o Governo já nessa avaliação abriu imprudentemente as portas para o que está agora a suceder. Na altura foi dito: “Será acelerada a redução de funcionários no próximo ano, sendo o principal alvo os trabalhadores com contratos a prazo que trabalhem para o Estado. São também admitidas pelo Governo rescisões por mútuo acordo com funcionárioslink.

Abreviando: tudo começou a correr mal ao fim do 1º. ano de governação e necessidade de um 2º. resgate começou aí a pairar no horizonte. O Governo encetou uma fuga em frente, sozinho, sabendo (como devia saber) que, mesmo aceitando como necessária, uma ‘Reforma do Estado’ tinha de contar com uma larga maioria política. Maioria essa que ultrapassava a que apoia o actual XIX Governo Constitucional. 
Nenhum passo foi dado nesse sentido com qualquer dos partidos da Oposição. À posteriori houve o ensejo de verificar desesperadas e infrutíferas tentativas de ‘amarrar’ o PS a este macabro projecto. Nada disto resultou. Confrontado com a realidade constitucional o Governo aparece agora a ameaçar os portugueses com um 2º. resgate. Pelo caminho chantageia o TC.

Conclusão: Portugal vive uma situação tremendamente difícil mas paralelamente campeia a incompetência, a desfaçatez e um projecto político inadequado e ocultado que não hesita em, para sobreviver, lançar chantagens sobre chantagens. Os portugueses não aceitarão esta 'narrativa'.

No entanto, é cada vez mais visível onde está o verdadeiro problema que urge solucionar rapidamente.

Filhos de mãe incógnita - uma crónica pedagógica

Um homem nunca anda só. Transporta consigo a memória e os sonhos que acalenta; a criança que foi e nunca tirou de si; as circunstâncias que o moldaram e a vida que lhe coube. Às vezes interroga-se sobre memórias que resistem cinquenta anos e persistem. Só o jovem saberia explicar o processo que esculpiu factos na memória como as chamas cicatrizes no corpo.

Em finais de 1961 coube-me preencher verbetes, na Conservatória do Registo Civil da Covilhã, com a identificação das crianças nascidas em 1955, meninos que, em outubro do ano seguinte, seriam obrigados a frequentar a escola primária.

Os livros de registos guardavam os nomes, o sexo, o dia, o mês, o local de nascimento e o nome dos progenitores, dados que os professores do Ensino Primário, designados pelo Delegado Escolar, deviam registar nos verbetes. O que parecia um trabalho automático havia de revelar a surpresa que a memória reteve e há de conservar.

Surgiram-me vários filhos de pai incógnito, dado que era registado, como o havia sido na cédula de nascimento e constaria mais tarde do Bilhete de Identidade, o documento a exibir durante a vida. Sentia pena das crianças que carregavam a vergonha e seriam alvo de injúrias, castigo devido que os filhos herdavam das mães que os geraram ao arrepio da moral e dos bons costumes, sem cuidarem da alma, e que legavam, como herança, o ferrete de perpétua ignomínia.

Estranheza tive-a logo no primeiro dia, não nos filhos de pais incógnitos, cuja existência sabia, mas no filho de um determinado fulano e de mãe incógnita. Foi tal a surpresa que pensei tratar-se de lapso do ajudante do conservador, na ausência deste, pois a criança era filha de … – o pai tinha nome próprio e apelidos – … e de mãe incógnita. Era o que constava e me cabia transcrever para o respetivo verbete.

Ainda perguntei aos colegas se tinham explicação para a insólita situação e só tive, de um, a confirmação de que também já tinha encontrado um assento de nascimento igual. Não tardei a deparar com outra criança que tinha pai e era desconhecida a mãe. Não me contive e fui pedir explicação ao Conservador.

Soube então que, de acordo com a Concordata de 1940, assinada entre a Santa Sé e o Governo português, o casamento canónico era indissolúvel e o divórcio proibido. Não interessam agora os constrangimentos sociais e o medo de contrair matrimónio civil.

Praticamente quase não havia divórcios mas era frequente que os casais pusessem termo à relação, o que não impedia que novas relações, de mancebia, surgissem. Na sequência dessas situações, apesar da vergonha e do pecado, encarregava-se a natureza de gerar os filhos a que faltava a bênção de Deus e o perdão dos homens.

A mulher, perante um filho fora do matrimónio, só tinha, de duas soluções, uma opção e se o pai biológico a permitisse. Ou registava a criança em nome do marido, que isso dos sacramentos é, como a paralisia infantil, para toda a vida, mesmo que o marido estivesse emigrado há anos no Brasil; ou obrigava-se a registá-lo como filho de pai incógnito.

Acontecia, às vezes, o pai biológico reclamar a paternidade, direito que lhe assistia, não podendo a mãe, nesse caso, assumir a maternidade. Houve dramas pungentes, quando a separação impedia a mãe de visitar o filho que o «amante» levara sem lhe permitir que o voltasse a ver. Legalmente, essas mulheres pariam sem poderem ser mães. Era o castigo do pecado do concubinato, um desígnio divino pelo qual a Igreja e a ditadura zelavam.

Nesse tempo, os pais rezavam pela honra das filhas com o mesmo fervor com que o faziam pela conversão da Rússia. Salazar cuidava de todos, as leis eram adequadas à preservação dos bons costumes e a sociedade encarregava-se de constranger os que se afastassem dos santos e retos caminhos da Providência. Na função pública eram faltas injustificadas as de mãe solteira, por motivo de parto. Trinta faltas injustificadas eram, para qualquer funcionário, motivo de demissão imediata. E, no caso de ser professora, bastava o parto indecoroso para dar origem a um processo disciplinar que poria fim ao escândalo e ao emprego.

Podia lá aceitar-se que uma mulher solteira fosse mãe!? Não havia as poucas-vergonhas de hoje ou, se as havia, calavam-se, por pudor. Hoje já não há filhos de mães incógnitas. A conspiração judaico-maçónica encarregou-se de destruir as bases do casamento, santo e perpétuo, onde o divórcio era o escalracho erradicado da seara cristã.


quinta-feira, agosto 29, 2013

"Os acontecimentos fazem mais traidores do que as opiniões.", Francois Chateaubriand...

Ontem o Jornal de Negócios revelou que o Governo forneceu dados ao FMI que escondiam cortes salariais que paulatinamente foram sendo feitos nos últimos anos de crise link ; link.

Mais uma ‘trapalhada’ deste Governo que não conseguindo iludir a ‘vacada’ do fornecimento de dados incompletos e indutores de erróneas apreciações, cuja fonte é da total responsabilidade do Executivo, atribui as culpas aos funcionários do FMI que os teriam solicitado ‘daquela forma’, naquele modelo, com aquela dimensão.

Estávamos na 7ª. avaliação e, no entender do FMI, tornava-se necessário impor mais uma descida de salários. Como os dados existentes (reais) mostravam já colossais cortes salariais o expediente atenta e servilmente seguido pelo Executivo foi colaborar ‘fabricando’ números que encaixassem nos desejos do FMI. Não vamos falar da incompetência deste Governo que no afã de servir as instituições financeiras esquece as suas obrigações para com os portugueses e portuguesas. Todo este imbróglio demonstra aos cidadãos que o espírito deste Governo e a sua agenda ideológica passa pelo brutal empobrecimento do País onde largos estratos da população vivem dos seus salários (e das suas pensões e reformas).

Este inqualificável incidente desmascara todo aquele paleio sobre um nebuloso e sinuoso ‘ajustamento’ da Economia. Quando o FMI insiste em falar de baixa de salários e flexibilização do mercado de trabalho depois do que se tem passado desde o início do Programa de Assistência Financeira (iniciado em 2011) evidencia à saciedade a ‘rigidez’ das suas receitas que têm encaminhado o País para a recessão económica, a insolvência financeira e o abismo social. Quem tem necessidade de flexibilizar posições (e se calhar descer salários) é - com certeza - o FMI.

Mas há uma outra vertente. Ao fornecer dados errados que conscientemente aparece a assumir e que objectivamente prejudicam os portugueses o Executivo não tem desculpa. Trata-se de um vil acto de TRAIÇÃO.

António Barreto e o PSD

O homem que fingia ser de esquerda, para melhor defender a direita, foi hoje vedeta da Universidade de Verão, em Castelo de Vide.

Não sei se foi por conta da Jerónimo Martins, por iniciativa própria, por coincidência de pontos de vista com um partido, sem ideologia, rumo ou projeto, ou por tudo isso.

Faz pena ver o antigo expatriado na Suíça em promíscuo contubérnio com a pior direita que alguma vez dominou o PSD. O revolucionário que foi tornou-se tristemente célebre na comissão liquidatária da reforma agrária sob pseudónimo de ministro da Agricultura.


Hoje, perdido o pudor, é o assalariado de um merceeiro holandês e o professor de turno na indigente universidade de verão do PSD. Quem não sabe viver de pé, acaba de rastos.     

Portugal, a Silly Season e António Borges

Quando julgávamos que o calendário viesse paulatinamente reconduzindo Portugal e os portugueses a um módico de responsabilidade que nos redimisse dos silêncios dos altos dignitários que foram a banhos ao Algarve, só a morte de um ministro informal acordou da letargia o PR e o PM.

Depois de arderem três bombeiros e milhares de hectares de floresta, depois do sangue derramado nas estradas e das vidas afogadas nas praias e rios, depois do massacre a que os canais televisivos sujeitaram os telespetadores, com labaredas e gritos de desespero, só a morte de um economista implacavelmente ultraliberal, despertou as carpideiras da nossa desgraça para a capitalização da morte, na defesa das ideias que nos conduziram ao fracasso, usando o prestígio do defunto como ex-reitor do INSEAD de Paris.

Só um incêndio de uma marquise na Travessa do Possolo ou a Universidade de Férias do PSD poderiam ter perturbado o repouso ou despertado o alvoroço de quem estava a banhos como os espanhóis durante a sesta. Nada os acorda. E, dos bombeiros feridos, mais um se juntou aos três mortos.

Um Marco António caiu-me na sopa, durante um telejornal, a dar aulas na Universidade referida com um tema livre sobre a obrigação de os juízes produzirem acórdãos com um desprezo igual pela Constituição ao do Governo na preparação do Orçamento de Estado. Lembrei-me de que «quem sabe, faz; quem não sabe, ensina».  Marco António dá aulas.

Em respeito pela morte mantive-me silencioso enquanto as cinzas de António Borges não foram recolhidas pelos que justamente o choram, os filhos e, quiçá, a viúva, se acaso a tem. Suportei com estoicismo o coro de carpideiras avençadas e panegiristas de serviço perante a morte esperada do brilhante académico que trocou a produção teórica por lugares bem remunerados, enquanto considerava urgente a redução substancial dos salários miseráveis dos portugueses.

Recordar o economista que exerceu os mais altos cargos no banco Goldman Sachs e no FMI, onde, com notável inteligência, promoveu a destruição dos equilíbrios mundiais, fomentando a crise atual e o sofrimento de milhões de pessoas, é um ato de justiça, não é uma vindicta. Vergonha é o que Passos Coelho, por ignorância, e Cavaco Silva, por impiedade, fizeram: enaltecer o pensamento do consultor das privatizações do Governo e associarem-se ideologicamente a quem preconizava a tragédia que sofremos.

Há quem lhe louve a frontalidade e lamente que essa virtude lhe prejudicasse a carreira política. É preciso topete. António Mendo de Castel-Branco do Amaral Osório Borges era o mais bem pago colaborador do Estado português, que não via problemas éticos na acumulação com o lugar de administrador da Jerónimo Martins.

Não conheço um só livro que tenha escrito, provavelmente nunca plantou uma árvore, e foi o arauto de experiências mal sucedidas que semearam a miséria e aprofundaram as desigualdades sociais. Malditas carpideiras.

 Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, agosto 28, 2013

28 de agosto de 1910

Há 103 anos, os deputados do Movimento Republicano venceram as eleições nos círculos de Lisboa, Porto, Aveiro e Setúbal.

Esta vitória, que anunciava o crepúsculo da monarquia, foi um poderoso incentivo para a Revolução do 5 de Outubro que teria lugar nesse ano.

Foi o princípio do fim de um regime sem justificação ética, política ou democrática.

Os incêndios da nossa incúria e a incúria dos nossos governantes

Imaginem Sócrates a regressar de banhos e a assegurar que os meios de combate aos incêndios eram adequados, depois de quatro bombeiros mortos em sucessivos fogos, com a floresta consumida perante a impotência dos bombeiros e a escassez de meios.

Imaginem o que diriam os que agora são Governo, com provas dadas de aves de rapina a pairar sobre a tragédia da ponte de Entre-os-Rios, a acusarem o Governo de turno, sempre que dele estão ausentes, de responsabilidades na dimensão da área ardida e nas tragédias humanas de quem perdeu haveres e se viu sem futuro por entre as memórias que o fogo devorou.

Não faltariam as acusações do PR, com férias estragadas, para acorrer à televisão a dizer bagatelas e a admoestar o Governo: que tinha obrigação de prever as desgraças, que não se admitia a falta de coordenação de bombeiros voluntários que viajaram milhares de quilómetros com autotanques cheios, sem instruções para despejarem uma única gota de água, que ele bem tinha avisado… não se sabe bem o quê, e que desgraças assim, não se podiam repetir.

Se outro Governo estivesse em funções talvez o casal presidencial viesse incentivar com ave-marias, numa missa de corpo presente de um bombeiro morto, o desespero do país que arde e a ansiedade de quem, por entre o fumo e o fogo, não vê claridade no futuro.

Assim, no recato do gabinete, o PR promulga o horário de 40 horas para os funcionários públicos, sem remorsos constitucionais ou pungimentos cristãos. Por sua vez, o PM, que oculta a inteligência e os conhecimentos, nem precisa de que lhe mostrem provas do uso de gás sarin, na Síria, ao contrário de Barroso, no Iraque, para anunciar o aval à invasão.

E opta pelo silêncio, sobre as promessas à troika, até passarem as eleições autárquicas.


Fé, preconceito e repressão: uma visão alternativa

(fotografia do autor em Bathu Ferringhi, Penang, Malásia), © 2012 Rui Cascão, todos os direitos de autor transferidos para este Blogue)


(fotografia recolhida da blagosfera; mulheres da Salazarenta mais Portuguesa aldeia)


Permito-me muy respeitosamente discordar da opinião do Carlos Esperança neste post.
Isto é, não me levem a mal, uma falsa questão. Não querendo parecer impertinente, mas acho que, da experiência que tenho de várias culturas e países islâmicos, há coisas que não se podem analisar de forma monolítica e monocromática. E o viés ocidental pouco ajuda ao multiculturalismo. 

Certo é que há, em alguns países e sub-culturas islâmicas, uma misoginia que frequentemente se traduz na imposição social e legal de determinadas formas de indumentária à mulher; mas não só; aí também a indumentária dos homens é conservadora, de certa forma como em qualquer parte do mundo (eu também gostaria de poder ir trabalhar todos os dias de calções, T-shirt e sandálias e no entanto uma qualquer regra social desagradavelmente sedimentada impõe-me que traje um tão desconfortável fato, gravata e sapatos apertados em determinadas ocasiões).

A diversidade da indumentária feminina islâmica varia muito e é, porventura na maioria dos países islâmicos, legalmente (e com frequência socialmente) opcional na maioria dos contextos, variando a sua aceitabilidade social do específico contexto social, etário, económico e profissional da pessoa em causa. Infelizmente, o viés ocidental (viés ocidental que é frequentemente entendido fora do mundo ocidental como expressão de arrogância e uma certa  ideia de superioridade cultural do ocidente), raramente vê (ou procura ver) que há uma diferença brutal entre a legal e socialmente imposta inexorável Burqa afegã  ou o negro e lúrido Niqab de algumas comunidades do Golfo qque tudo tapam e um Hijab colorido e garrido (azul celeste, cor de rosa, turquesa, açafrão) adornado orgulhosamente (e por vezes por mero "fashion statement" por uma mulher iraniana, malaia, indonésia, libanesa ou turca, hijab esse que pouco tapa, frequentemente combinado com maquiagem carregada (já vi mulheres a combinarem hijab e mini-saia na Malásia). 

Toda esta "narrativa" do véu islâmico é, a meu ver, exagerada e amblíope e toma o todo pela parte. De certa forma, a modéstia feminina, neste contexto, acaba por ser identificada com o Islão, olvidando o facto de estar presente em tantas outras culturas e religiões por todo o mundo. O cabelo da mulher é tradicionalmente coberto no católico sul da Europa (freiras, mulheres de aldeia, cerimónias religiosas), entre o que resta dos calvinistas e menonitas conservadores (pense-se nos Amish da Pensilvânia), as hebreias hassídicas, o sari das mulheres hindus, etc., etc. E ainda em determinados contextos sociais, profissionais e culturais no ocidente: hospedeiras de voo, empregadas domésticas, pessoal de cozinha, corridas de cavalo em Ascot, cerimónias religiosas (raras são as noivas sem véu), etc.

Para mim, mil vezes mais bonito e alegre é um hijab cor de rosa ou azul bebé do que os lenços e xailes negros das mulheres das aldeias um pouco por todo Portugal... Já para não falar dos hábitos das freiras católicas ou do lúgubre capote que as mulheres do Alentejo e Beira Baixa usavam até há bem pouco (tão aptamente explorado pelo Estado Novo na sua manobra de propaganda da aldeia mais portuguesa de Portugal.

O verdadeiramente importante não é o hábito, mas a efectiva liberdade de o monge o poder trajar ou não o trajar.

Os favores pagam-se


A mãe de todas as imprudências escolheu a Síria

Os anos não somam sabedoria mas acumulam experiências e reúnem provas para exibir no pelourinho da opinião pública. Enquanto Obama, Cameron e Hollande se preparam para invadir a Síria, sem necessitarem de um qualquer Barroso para servir cafés, dou por mim a pensar nos efeitos colaterais da decisão tomada antes da confirmação de quem foi o autor do uso do gás sarin.

Os motivos são subsequentes aos atos. Há uma corrente filosófica que assim teorizou. O homem não foge porque tem medo, tem medo porque foge. A invasão estava escrita nas estrelas. O gás é a metáfora do pretexto e a verdade é escrita depois, pelos vencedores, e nunca pelos vencidos, mas não há vitórias definitivas nem mentiras perpétuas.

Obama julga-se Vishnu, acompanhado por Xiva e Brama, e não é o único que aparece como novo avatar da fatídica metamorfose. Cameron e Hollande também intervêm na opaca aventura em que encarnam Blair e Aznar, convencidos de que o cajado de Obama tem a força mítica da superstição hindu. Esqueceram depressa o Iraque.

O fogo amigo não distingue vítimas e, nos dois lados da barricada, não se encontram os bons. São todos maus, exceto as vítimas. Há no ar um estranho odor a morte provocada por interesses económicos, políticos e geoestratégicos. Amanhã, frente a computadores, com ar condicionado, pode decidir-se o número de mortos a imolar no braseiro bélico.

O mundo é um local cada vez pior frequentado. É difícil dormir sem pesadelos.


Fé, preconceito e repressão.


terça-feira, agosto 27, 2013

Pailobo – uma aldeia privada das suas gentes

Quando aos 8 ou 9 anos, montado na albarda de uma burra com o dobro da minha idade e paciência, fazia sozinho uma longa jornada, havia de julgar-me adulto e envaidecido quando via alguém nos caminhos quase desertos que da Miuzela do Côa conduziam a Monte Perobolço, uma légua bem medida.

Só a inabalável afoiteza daqueles avós maternos, tão meigos e orgulhados do primeiro neto que lhes coube, permitia que confiassem à criança, a besta, a missão que levava e o dinheiro que pagava a mercadoria.

Partia de manhã, cedo, pela fresquinha, bem comido, com a burra aparelhada a preceito, a cilha bem apertada, não fosse a albarda virar-se, o cabresto ajustado e, sobre a manta garrida, os alforges destinados a regressarem cheios.

Já levava uma boa meia hora de caminho quando, montado na burra,  passava o Noémi a vau, junto às poldras, a caminho de Pailobo. Era uma pequena aldeia com pouco mais de uma centena de habitantes onde logo era reconhecido e me perguntavam pelos avós, mas o peito inchava quando indagavam se ia sozinho, e viam bem que ia. A subida era íngreme, ou assim me parecia, desde a ribeira até à aldeia onde, à vinda, de tudo o que me ofereciam, aceitava, quando o sol abrasava, o púcaro de água fresca do cântaro de barro, da Malhada Sorda, que jazia na cozinha.

Pailobo era povoação pequena, comparada com a Miuzela, que tinha para cima de 800 pessoas, e era ponto de passagem obrigatório para quem se dirigia a Monte Perobolço, a menor distância do que a que a separava da Parada do Côa de cuja freguesia era anexa.

Em Monte Perobolço, saltava da burra, prendia o rabeiro à ferradura metida na parede, que servia de argola, e entrava no estabelecimento do Sr. José Simões que abastecia de tabaco as aldeias em redor. Era recebido com alegria, tão pequenino e vem sozinho da Miuzela, como vão os avozinhos, então a encomenda é grande, e lá puxava eu do papel onde a avó escrevia os nomes e quantidades de tabaco que pretendia.

As embalagens enchiam os alforges, do Kentucky, de 12 cigarros, conhecido por mata-ratos, com uma cinta onde se lia o preço de venda ao público, $80, até às caixas de 10 maços de 20 cigarros, de Português Suave, Paris ou Três Vintes (20-20-20), e aos mais populares Definitivos e Provisórios, grandes e pequenos, respetivamente com 24 e 12 cigarros. Onças de tabaco Superior e Holandês, com outros tantos livros de mortalhas, e cigarros de outras marcas, da Tabaqueira ou da Companhia Nacional de Tabacos, hoje desaparecidos e cujo nome fui esquecendo, completavam a encomenda.

Depois de criança voltei a Pailobo algumas vezes para comer as perdizes caçadas pelo Manuel da Cabreira, o famoso Manuel Caçador, a quem se pagava o dia de trabalho, os cartuchos, o chumbo, a pólvora e as buchas para abater à roda de vinte perdizes que a mulher, a Sr.ª Alice, estufava primorosamente . Era o tempo em que as perdizes eram mais numerosas do que os caçadores e, nessas tardes, com o meu tio Brardo, o Sr. Zé Rita, o Sr. Messias Pereira e outros, passávamos a tarde, bem comidos e bebidos, a jogar à sueca e a conversar.

Depois dos 20 anos não voltei a tal aldeia. Soube da existência de um cemitério, velho anseio do povo, que o 25 de Abril concretizou, quando surgiu o primeiro defunto capaz de gozar o melhoramento, não porque tivesse sido notícia a obra, mas porque o morto, o António Pereira, tratado por Seabra, recusou um cemitério privativo, ou alguém por ele, e, como era hábito, foi para o da Parada, destino usual para a defunção das pessoas de Pailobo. Outros morreram e ficaram nas terras onde acabaram os dias, antes do Manuel Pereira, o Micas, ter inaugurado o cemitério que, desde aí, passou a cumprir a função.

Em 23 de agosto de 2013 voltei a Pailobo. O fogo andou lá, há pouco, e os lanchais que descem até ao Noémi estão ardidos, só mostram as pedras tisnadas, como tisnadas estão as pontas dos arbustos que atravancam o caminho para Monte Perobolço. Foi pior, há anos, quando um pavoroso incêndio ligou a Miuzela a Pailobo, sem poupar a capela de Santo Antão, alheio à santidade do edifício e à aflição das pessoas.

Hoje, a capela está fechada, como cerrada está a capela do Calvário onde o patrono que decorava a fachada, S. Sebastião, foi apeado, e fechado dentro, por mor dos ladrões que não respeitam a memória pia do que foi uma pequena aldeia com gente, hoje espalhada pelo mundo, a recordar a procissão de 16 de janeiro, quando o andor de Santo Antão ia em visita a S. Sebastião e voltava, depois da missa, com foguetes e cânticos religiosos.

Junto à capela do Calvário ainda resiste o Cruzeiro que os da Parada já levavam quando um trator lhes franqueou a passagem e os obrigou a devolvê-lo à peanha que o sustenta.

Na aldeia moram agora três viúvas, uma de 87 anos, que vive sozinha, e outra de 91 que está acompanhada de uma filha, também viúva, mas, durante o inverno passado, só um homem de 55 anos, padeiro em Pínzio, que no regresso vende, em várias aldeias, o pão que ajuda a fabricar, foi o persistente morador celibatário, duplamente solitário.

A Sr.ª Maria Romeira, viúva de Messias Pereira, cujos 91 anos já referi, disse-me que o Zé Rita e a mulher, nascidos em 1913, estavam no lar de Vela, no concelho da Guarda. É rija aquela gente e o coração não renega a aldeia de Pailobo onde, no posto escolar em ruínas, trepava pela parede uma parreira com dois cachos em maturação tardia.

Nas casas abandonadas da aldeia saem dos telhados dezenas de antenas de televisão que o vento vai torcendo enquanto o silêncio toma conta do espaço onde a vida se extingue numa dolorosa metáfora do país que arde.


domingo, agosto 25, 2013

António Borges

Morreu, hoje, António Borges, economista, professor universitário, homem envolvido em instituições financeiras internacionais e nos últimos 2 anos consultor do Governo de Passos Coelho para as privatizações e renegociações das Parcerias Público-Privadas link.

Foi durante toda a sua variada e intensa vida profissional um ultraliberal voluntarioso, truculento e aparentemente convicto. O seu trabalho na área financeira é sobejamente conhecido do Mundo e dos portugueses, por bons e maus motivos, não interessando - neste momento doloroso para a sua família e amigos - discuti-lo.

Como todos os personagens cuja morte bate precocemente à porta fica por descortinar a sua real dimensão política. Como militante do PSD tentou - mas não conseguiu - conquistar a sua liderança. A sua dimensão como político ficou a partir daí ensombrada dando origem a diversas especulações quanto à sua capacidade e talento nesta área mas, o particular momento de  hoje,  não propicia uma profunda explanação desta vertente.

Sabemos, contudo, que à volta de fatais desenlaces, do tipo do que aconteceu a António Borges, seguem-se os chorrilhos de elogios e louvaminheiras declarações, muitas vezes estereotipadas e de circunstância. Todavia, e em relação a esta humanamente triste ocorrência, fica uma certeza: nenhum ser humano permanece imune ao posterior e implacável julgamento da História, quando a poeira do tempo assentar.

O que vai perdurar no Egipto?

O 'sequestro da democracia' por parte da Irmandade Muçulmana, após a eleição de Morsi, pode ser encarado como a repetição de um processo ‘dejá vue’, há dois decénios, na Argélia. Em certa medida existe um inultrapassável paralelismo entre as recentes evoluções políticas no Egipto, decorrentes à volta da Irmandade Muçulmana e a situação vivida pela Frente Islâmica de Salvação em 1991-92, na sequência da vitória das eleições locais argelinas (1991), deixando pendente a ameaça de vencer as gerais no ano seguinte.

Na Argélia, o processo de ‘anulação’ da tomada do poder por forças fundamentalistas muçulmanas envolveu as Forças Armadas e que o então presidente Chadli Bendjedid, foi a sua face visível, apresenta um distanciamento histórico que torna os actuais desenvolvimentos no Cairo absolutamente previsíveis.

No Egipto a situação é de todo semelhante embora tenham decorridos factos novos, entre eles: a designada ‘primavera árabe’ que tentou varrer os ‘arranjos’ pós-coloniais em todo o Norte de África e as mudanças geoestratégias operadas nos últimos 20 anos mais uma vez centralizadas pela queda do muro de Berlim. Estes factos novos ‘justificam’ o forte envolvimento dos EUA em todo este processo de mudança. As potências coloniais europeias perdem toda a sua capacidade de influência, seja individualmente, quer através da UE, entidade totalmente incapaz de desenhar uma política externa coesa e influente no plano internacional.

Os EUA pressionaram de modo intenso a queda de Mubarak mas não hoje perfeitamente é liquido o que de novo previam para o 'novo' Egipto. Nada previa que os movimentos laicos dispersos e fragmentados pudessem, face a uma Irmandade Muçulmana organizada e há largas dezenas de anos instalada no terreno, pudessem a vir a governar ao Egipto pós-Mubarak. Aliás, uma das forças que emergiu na sequência da revolta da praça de Tahir e que nas posteriores eleições enfrentou o candidato Morsi agrupou os egípcios à volta do marechal Ahmed Shafiq, um militar oriundo da Força Área, ex-primeiro-ministro do regime do derrubado Mubarak na sua fase de estertor. Existiam assim no terreno duas grandes forças em conflito: A Irmandade Muçulmana e um movimento ‘neo-mubarakista’ encabeçado por militares (no vaso vertente Shafiq). 
Morsi vence as eleições mas comete uma série de erros políticos e constitucionais que lançam o País num profundo confronto que tem o seu epílogo em Dezembro de 2012 com a realização de um referendo sobre um projecto constitucional instituindo na prática um regime islâmico, inaceitável para os sectores liberais. 
As Forças Armadas vêm na nova constituição uma ameaça aos seus ancestrais privilégios (políticos e económicos) e ‘alinham’ ao lado das reivindicações dos sectores liberais que, em 30 de Junho 2013, organizam uma impressionante manifestação anti-Morsi, fornecendo o pretexto (alibi) para os militares regressarem à política.

Daqui para a frente tudo deverá ser decalcado da Argélia. Segue-se a ilegalização do Irmandade Muçulmana, o seu enfraquecimento, posteriores acordos de paz com líderes muçulmanos manietados, o afastamento das correntes liberais da área do poder (a demissão de ElBaradei é o primeiro indício) e daqui a uns anos (mais ou menos uma dezena) a eleição ‘consensual’ (quase unânime) de um caudilho militar como presidente (não necessariamente o general Sisi).

Entretanto, sob a inépcia da batuta americana, o norte de África vai ter de esperar dezenas de anos para libertar-se das fundamentalistas peias islâmicas e o interregno militarista assente nos privilégios e na corrupção, embora com caras novas , perdurará por largos anos.

O Egipto não vai beneficiar tão cedo do derrube de regime despótico de Hosni Mubarak.

São os condicionalismos da História onde os erros custam caro e as indecisões são fatais (para os povos).

A política, a religião e o totalitarismo

É mais fácil ser politicamente correto do que ser politicamente justo, sobretudo quando se atinge o limiar da demência e a apoteose do extermínio.

É ocioso invocar direitos humanos perante a matança síria ou quando os ataque sunitas ressuscitam o terror sectário no Líbano. É inútil falar de democracia quando equilíbrios geoestratégicos consentem a mais negra opressão da Coreia da Norte, neste caso, quiçá, por fanáticos que não rezam nem pensam no Paraíso.

Aliás, quando o ateísmo tolera a opressão, deixa de ser uma opção filosófica e passa a ser uma religião. É por isso que, como dizia Sampaio Bruno, in «A Questão religiosa» (1907): «O Estado também não pode ser ateu, deísta, livre-pensador; e não pode ser, pelo mesmo motivo porque não tem o direito de ser católico, protestante, budista. O Estado tem de ser cético, ou melhor dizendo indiferentista».

A conivência ou mera transigência dos Estados com a inclusão confessional tem efeitos devastadores sobre o pluralismo e abre caminho ao fim da democracia, quando vigora.

Não há um único país islâmico, quando jamais devia poder definir-se um país de forma confessional, onde a democracia exista. Da Arábia Saudita ao Paquistão, de Marrocos ao Egito, dentro do território da ex-URSS ou nas antigas colónias europeias, o ódio e a violência sectárias são o quotidiano de países onde à mulher se impõe a escravatura e a todos cinco orações diárias.

No Egito, na sequência de eleições democráticas, a violência era praticada pelo Estado e as proibições da sharia estavam em marcha. O golpe militar aboliu a democracia e não consegue proteger as minorias nem prescindir de uma violência igual à dos que apeou.

Os islamitas acusam os cristãos de apoiarem o golpe e têm razão, mas para os cristãos, rodeados do ódio sectário e do proselitismo dos Irmãos Muçulmanos, só existiam duas opções, morrerem a pronto ou a prestações.

Perplexo, revoltado e impotente, não tenho coragem para defender o golpe militar e mingua-me força anímica para o condenar.


As eleições autárquicas e a cidadania – Apelo ao voto

A ditadura salazarista criou reflexos antipolíticos que parecem perpetuar-se, como se a despolitização, criada pela repressão, tivesse sido geneticamente assimilada pelo medo.

Há quem tenha esquecido o partido único, a censura, os tribunais plenários, as prisões arbitrárias e as perseguições, quem desconheça as torturas, os despedimentos da função pública, os assassinatos de adversários políticos e a necessidade de atestados de batismo passados pelo pároco católico e os de bom comportamento, passados pelo presidente da Junta de Freguesia, para entrar num emprego público ou tirar, por exemplo, um curso de enfermagem. Mas há uma quantidade enorme de pensionistas que recorda, a sangrar por dentro, os horrores da guerra colonial, com 13 mil mortos e dezenas de milhares de estropiados, num país onde as eleições eram a encenação grotesca para sustentar a farsa.

Permitam-me os leitores que dê o meu testemunho de professor do ensino primário que em 1961 começou a dar aulas, aos 18 anos, sem qualquer direito a assistência médica ou medicamentosa, e tive de mudar de distrito, ameaçado pelo diretor, por me ter recusado a ir, com os alunos, esperar o presidente da República, um capacho de Salazar que dava pelo nome de Américo Tomás. Fui mobilizado para a guerra injusta e criminosa, onde perdi 4 anos e 4 dias da minha vida, 26 meses desterrado em Moçambique, sem que os portugueses pudessem ter invertido pelo voto o rumo vergonhoso da política fascista.

Nesse tempo o voto era exclusivo de vivos de confiança e mortos que, na farsa eleitoral, votavam na manutenção da ditadura, através dos membros das mesas eleitorais.

Em 1970 ainda se era perseguido por promover a inscrição de cidadãos nos cadernos eleitorais e apelar ao voto. Será possível, menos de 40 anos depois, apelar à abstenção? Que outra arma resta a quem não quer, não pode e não deseja a ilegalidade, para mostrar  ao poder o seu estado de espírito? Dizer que todos os partidos são maus é uma forma de cumplicidade com a inércia, a demonstrar difícil convivência com a democracia.

Os políticos e os partidos são imprescindíveis à democracia, único regime onde se pode discordar e participar livremente no associativismo e na vida sindical, e os políticos são, tal como nós, honestos ou desonestos, e independentemente dos partidos que servem.

Votar é um dever cívico irrenunciável. Não julgo quem o não faz, do mesmo modo que, não formulo, hoje, juízos de valor sobre os partidos, do Governo ou da oposição, mas apelo a todos para votarem no que a sua consciência recomendar.

Não votar é abandonar a luta que as associações, os sindicatos e os partidos políticos, de forma empenhada, prosseguem. Este é o meu testemunho e apelo de cidadão.

Os resultados das eleições autárquicas terão leitura nacional e perderá legitimidade para  contestar decisões políticas quem abdique da única arma disponível ao alcance de todos.


sábado, agosto 24, 2013

O Vaticano e a nova assessora


A comunicação social especula sobre os problemas do Vaticano com a nova assessora, jovem e bonita, Francesca Immacolata Chaouqui, por ter chamado gay a um ministro italiano e ter criticado o cardeal Tarcisio Bertone, sendo uma, afirmação inócua, e a outra, conveniente.

O problema, para o Vaticano, reside na possibilidade desejável de a menina Immacolata trocar o substantivo próprio por um adjetivo precário.

A ética, a legalidade e as eleições

A valentinização eleitoral, à semelhança das ofertas de frigoríficos pelo inefável major Valentim Loureiro, mais habituado a receber do que a dar, desde os tempos em que foi responsável pela compra de batatas para o exército, parece ser um expediente em franca expansão.

Luís Filipe Meneses, paga contas da luz e água, a gente pobre e Fernando Ruas, o ainda autarca de Viseu, oferece cheques da Câmara à porta das missas e, segundo as contas dos candidatos dos outros partidos, as ofertas totalizam 70 mil euros.

Há quem veja nas atitudes uma condenável e demagógica campanha eleitoralista, digna do terceiro mundo e passível de sanção penal mas pode não passar de espírito caritativo, num caso, e de devoção pia, noutro.

Os adros das igrejas eram locais de arrematação de oferendas dos fiéis quando abundava a fé. Hoje, minguada a devoção e a generosidade, o livro de cheques da autarquia pode ser o substituto dos pés de porco e orelhas do dito que, em dias de festa, se entregavam a quem desse mais.

A nostalgia do salazarismo acorda tiques que se estendem do interior do Cavaquistão até às zonas degradadas de uma cidade cosmopolita como o Porto.


A Humanidade a caminho do fim?

Quando deixaram de fazer sentido as profecias do fim do mundo, que infundiam o terror e a fé, numa hábil manipulação religiosa, os factos converteram em certeza a chantagem que então despertava terrores noturnos nas crianças e submissão pia nos adultos.

A bomba demográfica explodiu num planeta que tem limites físicos à sua capacidade de regeneração e se encontra já sob stress. É impossível alimentar a população atual cuja estabilização não é previsível. Faltam, a largas camadas, água, alimentos e a satisfação das mais elementares necessidades básicas.

A fé na capacidade ilimitada na ciência assemelha-se à que, desde sempre, vigorou para a Providência divina. É absolutamente irracional. Nem os acidentes nucleares, como a fuga de água radioativa em Fukushima, nem as catástrofes naturais parecem interessar já as pessoas. A aflição pela sobrevivência amolece a nossa capacidade de vigilância e embota o espírito crítico.

A democracia, os direitos humanos e as liberdades sucumbem sob os escombros de um mundo desregulado e à beira da catástrofe. Os velhos demónios totalitários acordam sob a capa de antigas mitologias transformadas em ideologia.

Os países ricos e civilizados não foram capazes de prever e, muito menos, de conter os demónios que se ocultavam por entre a brisa que parecia soprar nas insurreições árabes, apressadamente designadas de primaveras. Hoje temos o Egito a ferro a fogo, a Síria a gás e a Turquia, por comodidade, catalogada de país islâmico moderado, como se o seu primeiro-ministro Erdogan não tivesse sido o aliado incondicional da deriva demencial do ex-presidente egípcio, Morsi, e do seu braço prosélito, a Irmandade Muçulmana.

No desespero do falhanço da civilização árabe emerge o fascismo islâmico a contaminar a Turquia, o Irão e franjas apreciáveis da população caucasiana da Europa e dos EUA. As primeiras vítimas são os próprios crentes fanatizados nas madraças e mesquitas mas a tragédia da intolerância e do ódio alastra como combustível da instabilidade mundial.

Os dirigentes mundiais parecem estar à espera de um milagre como se o céu pudesse ter resposta para as desgraças que temos de enfrentar.


sexta-feira, agosto 23, 2013

Deus também se engana…

Bento XVI, farto de ser acusado de ter renunciado à tiara por amor, amor à vida, claro, veio agora justificar-se: «Foi porque Deus me disse», numa « experiência mística».

A linguagem exotérica, com que o ex-Papa revela o encontro com a entidade patronal, não deixa aos incréus averiguar a data, o local e o conteúdo, mas percebe-se que Deus não estava satisfeito com o seu PDG, facto que causa a maior perplexidade, a ponto de lhe ter demonstrado «um desejo absoluto» – segundo  afirmou o próprio pensionista à publicação católica “Zenit”.

Não se vê como um deus, presciente e omnipotente, além de mandar o Espírito Santo a iluminar os cardeais durante os conclaves, possa permitir que saia dali um cardeal com alvará de infalibilidade, apto para criar cardeais e santos, e despedi-lo depois com justa causa, sem lhe apresentar uma nota de culpa. No mínimo, a eleição de Ratzinger foi um ato desastrado, mais natural no Opus Dei do que em Deus.

Sabendo todos, do mais ingénuo devoto ao mais inveterado ateu, que a infalibilidade do Papa é um dogma cuja dúvida é alheia ao escrutínio da razão e passível de excomunhão, anátema que inviabiliza o Paraíso como lar de primeira classe para a perpétua defunção, fica a dúvida sobre quem se enganou, o papa que perdeu o alvará ou Deus que lhe pediu a resignação.

De qualquer modo, a Igreja, em maré de perda de credibilidade, deixa mais dúvidas do que certezas a quem queira cultivar os mistérios da fé e dá argumentos a quem duvida.

quinta-feira, agosto 22, 2013

Notícias do dia




Um ‘inorgânico’ vice…

Tornou-se notório que o ‘alargado entendimento’ que se teceu à volta da última crise entre a maioria governamental desavinda e o Presidente da República foi um ardiloso e saloio ‘arranjo’ para conservar o poder a qualquer preço.
Nada de substancial mudou nas circunstâncias que desembocaram na crise interna da coligação. Os erros permanecem ou, se calhar, acentuaram-se.

Nada indica aos portugueses que as desproporcionadas e abruptas medidas de austeridade que lançaram o País num beco sem saída com a destruição maciça do tecido económico, o disparar de desemprego para níveis ameaçadores da coesão social e a incapacidade de – apesar da dureza das medidas – consigam equilibrar as contas públicas – objectivo máximo do ‘ajustamento’, tenha um novo rumo.

O anúncio – pelo recauchutado Governo - de um novo ‘ciclo de investimento e crescimento’ é mais um dos logros com que esta maioria prossegue tenta iludir os portugueses.

De facto, de palpáveis, só o recorrente anúncio de mais e gravosas medidas de austeridade (a volta de uma escabrosa e iníqua ‘Reforma do Estado’) que, se não forem travadas pelo Tribunal Constitucional, lançarão o País numa situação política de ‘ingovernabilidade’ e de ruptura económica e social. 

E este é o sinal que ontem a nova lei orgânica deste Governo vem atribuir à recente remodelação link e que é absolutamente esclarecedor sobre o papel do vice-primeiro-ministro Paulo Portas personagem que tem sido apresentado pela direita como a marca de ‘confiança’ de um novo ciclo de governação.
Afinal a lei orgânica nominalmente atribui-lhe o cargo de vice-primeiro-ministro mas consagra-lhe as competências de ‘ministro sem pasta’ vivendo de ‘delegações’ avulsas da presidência do conselho de Ministros. Para usar uma terminologia própria desta época estival, em que o País literalmente arde, Portas vai ocupar-se dos rescaldos dos diferentes incêndios ateados pela actual governação. Será por assim dizer um ‘bombeiro rescaldador’ das políticas incendiárias do XIX Governo Constitucional. E aceita esta situação porque não tem a frontalidade e a coragem para assumir-se como um banal e volúvel ‘respaldador’ das desgraças que se adivinham e anunciam…

Na verdade, Portas nas suas congeminações político-partidárias, deve saber que a vacuidade das funções que lhe foram atribuídas, depois do que foi publicamente propagandeado, não é um álibi, nem conseguirão ilibar as pesadas responsabilidades que recentemente aceitou partilhar com Passos Coelho. São, antes de mais, a indisfarçável manifestação da profunda e desnorteada deriva do actual Governo.
Espantosamente, o País observa que, num mês, voltam a conjugar-se os ingredientes para atear nova e insanável crise interna do Governo.


O Governo de Paulo Passos Coelho e Pedro Sacadura Portas

Eça nunca deixou de ser uma referência literária e o cirurgião de serviço a quem todas as oposições tomaram de empréstimo o bisturi, para drenar os furúnculos dos Governos de turno.

Desde 1885 que se aplica a frase que exorna este texto, exceto nos tempos sinistros do salazarismo, por motivos atendíveis, mas nunca antes, desde a ditadura de Pimenta de Castro, qualquer Governo eleito, mereceu tanto a verrina iconoclasta que remete para o Conde D’Abranhos e para a Campanha Alegre, onde jazem as páginas que urge reler.

Falta a Passos Coelho um biógrafo da dimensão de Z. Zagalo. Poderá ser ainda Miguel Relvas se alternar a defesa da língua portuguesa e dos negócios com o ajuste de contas, depois da sua queda d’«Este governo [que] não se remodela… remenda-se porque é um trapo».

Passos Coelho apareceu no Governo como Pilatos no Credo. Achava-se no sítio donde se sai para primeiro-ministro quando o pior PR desta República viu que podia substituir um ódio de estimação por um amor de circunstância, através de eleições antecipadas. O PM acabou a entregar a liderança ao CDS, que as sondagens atuais dão como o partido mais irrelevante nas intenções de voto, e o PR a fazer de ama-seca de dois comparsas do nosso desalento coletivo, na irrevogável teimosia de os manter.

A festa do Pontal, onde o hábito litúrgico impõe ao líder do PSD que galvanize as bases e alente a militância, acabou por dar origem ao ato inqualificável de o putativo PM fazer chantagem sobre o Tribunal Constitucional. A ausência de formação democrática de um salazarista rancoroso com o 25 de Abril atingiu o apogeu no ato de subversão das regras políticas, no desrespeito boçal pela independência dos Tribunais.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, agosto 21, 2013

A Síria e a barbárie

Desconheço se foram as forças do Presidente Bashar al-Assad as responsáveis do ataque químico, hoje perpetrado em diversas zonas próximas de Damasco. Fiz a guerra colonial e sei da História o suficiente para desconfiar do que é capaz a contrainformação.

Aqui ao lado, em Espanha, os exércitos de Franco queimaram igrejas, para acusarem do crime os adversários e incitarem contra eles o ódio. Os totalitarismos nunca titubearam na deriva criminosa que pudesse beneficiá-los.

Há meio século Damasco era uma cidade cosmopolita, as mulheres gozavam a liberdade e respiravam a civilização. Hoje é o inferno onde o desespero e o ódio semeiam a morte, onde o gás sarin, ou outro, deixa o chão juncado de cadáveres de homens, mulheres e crianças, numa orgia de violência que lembra o horror do nazismo.

As imagens que nos chegam provocam comoção, incitam à raiva e despertam desejos de vingança. Nós sabemos que as crianças mortas foram colocadas naquela posição, com precisão cirúrgica, para obter a máxima revolta, mas elas estão lá, inertes e frias, vítimas indefesas das atrocidades, dos interesses geoestratégicos das potências dominantes e dos fanáticos que querem vergar o mundo ao deus que os traz dementes desde a infância.

As fotografias do cobarde massacre com gás enviado em rockets com agentes químicos, para dizimar as populações de Ain Tarma, Zamalka e Jobar, na região de Ghouta, são de crueza obscena. Nas «pupilas dilatadas, membros frios e espuma nas bocas», de bebés e crianças, vermos a violência de quem ordena e a demência de quem obedece.

Os responsáveis desta violência não podem passar sem julgamento. São crimes contra a Humanidade, delitos imprescritíveis e imperdoáveis. A Síria pode ter nascido num sítio errado mas os criminosos não podem ter sítio onde se acoitem.

Portas de portas abertas para liderar o Governo

Os irrevogáveis poderes de Portas, a que não auguro grande longevidade política, serão conhecidos, quase um mês depois de ter sido ungido vice-primeiro-ministro, através da nova lei orgânica do Governo, a publicar hoje no Diário da República.

É interessante conhecer o conteúdo do diploma, promulgado pelo PR, e as competências que restarão à desgastada ministra das Finanças que tomou posse de um Governo onde a ausência do CDS o tornava inexistente, com Cavaco a fazer de mestre de cerimónias da fúnebre promoção a ministra.

Conhecendo-se a labilidade de Portas e os empregos que dependem da sua permanência no Governo, compreende-se a ansiedade da clientela para encontrar uma solução que dê à ministra a ilusão do poder e satisfaça a gula do líder de um partido cuja representação parlamentar, se o PR tivesse feito o que devia, caberia agora num táxi.

Com o país a arder e a pátria a banhos, junto ao Jardim Zoológico, em exótica metáfora, Portas prepara a efémera escalada num Governo sem grandeza, sem honra e sem futuro.    

terça-feira, agosto 20, 2013

Recordando Eça de Queirós

Hoje, nem isso

segunda-feira, agosto 19, 2013

Gibraltar, política e propaganda

Gibraltar é para Inglaterra um marco nostálgico da tradição imperial e, para Espanha, um espinho cravado na garganta que a separa de África.

Na União Europeia, cuja desagregação o Reino Unido tem incentivado, não faz sentido um furúnculo colonial no território espanhol, tal como Ceuta e Melilla podem vir a ser motivo para disputas com Marrocos, que não são de bom augúrio.

Há, nesta disputa, tal como na de Olivença, onde Portugal pode invocar razões legais, o problema dos escuteiros que se atrasaram a chegar à escola, para ajudarem a velhinha a atravessar a estrada. Eram três os escuteiros, porque a velhinha não queria atravessar.

Neste caso, por maiores prejuízos que sofram os trabalhadores e turistas que entram ou saem do rochedo, o problema reavivado por Rajoy serve ao primeiro-ministro britânico para celebrar o sentimento imperial da expedição às Malvinas e a Rajoy para distrair os espanhóis do mar de corrupção em que o partido do Governo se atolou.

Acordar demónios nacionalistas é um incentivo à coesão de um país formado de várias nações e um narcótico para os casos de polícia que o PP enfrenta, com a vantagem de a democracia evitar a Rajoy o destino dos generais argentinos.


O catolicismo, o islamismo e a democracia

Pio IX, a quem a epilepsia impediu uma carreira militar, seguiu o caminho da teologia, e foi, mesmo para a época, o exemplo do extremismo reacionário. A encíclica «Syllabus errorum» é um catálogo de condenações, desde o panteísmo ao  naturalismo, do racionalismo ao socialismo, sem esquecer o comunismo, a maçonaria e o judaísmo.

O roubo de uma criança, Edgardo Mortara, aos pais judeus, com a alegação de que uma criada a batizara em segredo, para ser educada na religião católica, não o impediu de ter um milagre adjudicado por João Paulo II, que o promoveu a beato, mas ficou como uma das nódoas mais negras da Igreja católica. Não o salvam do opróbrio os dogmas criados: a infalibilidade papal e a virgindade de Maria.

Para Pio IX, a Igreja católica era incompatível com a liberdade, a democracia e o livre-pensamento, valores aprovados no concílio Vaticano I, uma reedição do de Trento. A História acabou por desmenti-lo e a excomunhão da modernidade é um mero detalhe na nódoa do seu pontificado.  Sabemos hoje que a repressão sobre o clero e a imposição da laicidade transformou os países cristãos em berço da democracia.

O Islão vive hoje os piores preconceitos do catolicismo de há 150 anos. No Egito, onde, enquanto escrevo, ardem igrejas, assiste-se a uma orgia de sangue. Depois do golpe de Estado de 3 de julho, que pôs termo a 1 ano de governo dos Irmãos Muçulmanos, nunca mais houve paz e a Irmandade Muçulmana, que tinha ganho as eleições, está em vias de ser proibida, voltando à situação a que Nasser a remetera em 1954, à clandestinidade e à repressão, situação de que tem larguíssima experiência, com uma imensa e sólida rede de proteção médica, assistência social e educação, organizando-se de novo através das mesquitas e universidades donde tinha saído da clandestinidade para a vitória eleitoral.

A pressa na imposição da sharia e o aumento da violência contra cristãos que resistiam à islamização, bem como contra a sociedade urbana, laica e secularizada, foi a detonadora do movimento militar que derrubou o presidente Mohamed Morsi, que jamais respeitou os limites que a constituição lhe impunha. Não era, aliás, pessoa para compreender que a democracia é também, e sobretudo, o respeito pelas minorias, minudência inaceitável para o Islão, totalitário e prosélito.

Curiosamente, o presidente turco, Tayyip Erdoğan, que a Europa e os EUA teimam em considerar um islamita moderado, seja isso o que for, não teve um conselho para Morsi durante a sua deriva islamizadora, mas não lhe falta agora com o seu apoio expresso.

No Egito repete-se a dolorosa experiência argelina de 1994 quando o governo derrotado declarou guerra à Frente Islâmica de Salvação (FIS), com a débil condenação da Europa e dos EUA, que respiraram de alívio.

Não sei o que nos reserva o futuro, onde o terrorismo religioso não pode ser consentido nem a fé do crentes reprimida. Para já, sob os auspícios da esquizofrenia da fé, o medo e a desconfiança vão minando a possibilidade de uma democracia onde o Islão alastra.


domingo, agosto 18, 2013

O Governo e o Tribunal Constitucional

Há um aspeto em que o atual Governo tem sido de um inexcedível espírito democrático, no ataque ao bem-estar dos portugueses e aos direitos adquiridos, mitigados os últimos no caso dos magistrados e diplomatas.

Perante a incompetência provada, que até o PR nota, resolveu Passos Coelho atirar-se ao Tribunal Constitucional como Maomé ao toucinho. Já tenho visto quem vai em busca de lã e regressa tosquiado.

O aparelho partidário julgou que Passos Coelho era o Guterres do PSD e saiu-lhes o Tino de Rãs, com menos tino.


Marques Mendes e a tentação ‘tamagochi’…

Aproximam-se as eleições autárquicas e os ‘isentos’ comentadores acoitados na comunicação social deixam cair a máscara.

Marques Mendes acha legítimas as pressões de Passos Coelho sobre o Tribunal Constitucional. Mais um princípio que é derrogado, espezinhado, no altar do ‘pragmatismo’.
A imparcialidade dos juízes (será que esta ‘qualidade’ ainda persiste na cabeça dos políticos?) para qualquer regime democrático resulta da independência deste perante outros poderes (executivo, legislativo e presidencial). 
A discordância sobre as decisões dos Tribunais é legitima e deve ser exercida à posteriori, a pressão é sempre ilegítima e quando é ‘prévia’ passa a ser inqualificável. 
Um raciocínio aparentemente linear para qualquer cidadão mas que interesses partidários escondidos ou abafados por aparências de idoneidade pessoal, nem sempre se tornam transparentes e mostram-se capazes de o prostituir (como parece ser o presente caso).

Esticar a corda da credibilidade e tentar cultivar à outrance um (fantasioso) tipo de bom censo de tonalidade moderada e apaziguadora acaba por revelar uma total ‘irresponsabilidade’ analítica e a mais confrangedora leviandade política.
E não contente com isso Marques Mendes decide avançar da legitimidade das pressões para a chantagem. Ao afirmar “que o TC estará a fazer um «bloqueio» ao se opor à redução de salários e à redução de pessoal na função pública. Nesse sentido, adianta, se o TC chumbar estas duas questões estará a impedir que o Governo leve a cabo uma redução de impostoslink entrou inexoravelmente nesse caminho.
Porque não fazer um exercício simples. Dissolver o presumível bloqueio (do TC), no entender do ex-dirigente do PSD, será reduzir os salários em 10% e conseguir a redução de 1 ou 2 % nos impostos. Falta fazer os cálculos relativamente ao rendimento disponível das famílias e verificar o 'saldo' final, mas isso é um pormenor já que o que interessa e ofusca a obsessão de aumentar as exportações a qualquer preço ('esmagamento dos salários')

Estamos, portanto à beira dos ‘negócios da China’ (tão em voga e lucrativos nos tempos que correm) e seria bom que Marques Mendes escapasse à tentação transformar-se num ‘tamagochi’ que, como sabemos, vive parasitando situações virtuais…

sábado, agosto 17, 2013

Passos Coelho e o discurso do Pontal


Há em Passos Coelho uma vertigem demencial que não pode ser apenas atribuída à falta de cultura democrática e ao défice de preparação. Há de haver o ódio ao 25 de Abril e o ressentimento de retornado na obstinada deriva em que faz a síntese de Mohamed Said Al-Sahaf, o ministro da propaganda de Saddam, e do major Silva Pais, último diretor da PIDE/DGS, para quem as leis ou serviam ao regime ou não serviam para coisa alguma.

A chantagem sobre o Tribunal Constitucional é igual à conduta de Mohamed Morsi que, eleito também democraticamente, cedo ignorou o limite dos poderes que a Constituição lhe conferia e logo coartou os direitos dos cidadãos.

O fracassado cantor lírico entregou-se primeiro nas mãos de Vítor Gaspar a quem tinha como salvador da Pátria. Depois, perante o fracasso reconhecido pelo próprio, na carta de demissão, e na acusação à falta de liderança do Governo, que o mesmo é reconhecer a incompetência de quem nominalmente exerce as funções, preferiu transferir para mãos do CDS a liderança, para um ministro que irrevogavelmente se demitiu, a demitir-se ele.

Apenas se gabou de duas coisas, no discurso onde faltou aos indefetíveis o entusiasmo que esperava: da manutenção do rumo, sem se dar conta de que o abismo é a meta, e dos sinais da retoma, magro consolo, de duvidosa duração, num Governo onde o PIB nunca tinha deixado de cair.

Um dia o País há de pedir contas a quem lhe permitiu desrespeitar tão grosseiramente a Constituição e intimidar de forma tão soez os juízes do Tribunal Constitucional. O PR, por mais vezes que peça a fiscalização da constitucionalidade de diplomas, a que a AR estaria atenta, não poderá ser absolvido da capitulação perante quem não tem a ética e a preparação para as funções que nominalmente exerce.

POR UM MOMENTO, ESTIVE DE ACORDO COM O GOVERNO!

Noticia o Expresso que "O Governo considera 'injusta e insustentável' a diferença das pensões entre público e privado: um aposentado do Estado recebe uma reforma equivalente a 90% do seu último salário e um aposentado do setor privado beneficia apenas de 60%." Na minha incorrigível ingenuidade, pensei por um momento que o governo ia finalmente pôr termo a esta injustiça, colocando as pensões do setor privado ao nível das do público. Mas a continuação da leitura logo me desfez a ilusão: para o governo, o que é injusto é que os do público tenham pensões melhores que as do privado; por isso, para acabar com a "injustiça", vai cortar as pensões do setor público! É claro que esta maneira de "reparar injustiças" é manifestamente inconstitucional; mas isso nunca foi óbice para este governo de tartufos viciados na violação da Lei Fundamental.

Dias de cólera e de demência

No Egito trava-se um combate cruel e sanguinário. De um lado encontram-se os que foram apeados do poder a que acederam democraticamente, odiando a democracia; do outro, os que o conquistaram por um golpe de Estado e repudiam a submissão à sharia.

Há quem pense que a democracia confere à maioria o direito discricionário e que tudo é permitido, mas não há democracia onde os direitos das minorias não forem respeitados.

Entre a força das armas dos militares e as hordas de fanáticos islâmicos não se brinca à democracia e à incerta laicidade, é a geoestratégia global que arma os militares e excita os Irmãos Muçulmanos. Por entre uma confrangedora orgia de sangue e violência.

E não acusem os suspeitos do costume desta manifestação de intolerância fascista.

Discurso do Pontal: paradoxal!

Se algumas dúvidas existissem sobre a ilegitimidade deste Governo, apensa a um obscuro projecto de mudança de regime, situação que não foi – nem poderia ser - colocada aos portugueses nas últimas eleições legislativas, ocorridas há cerca de 2 anos, Pedro Passos Coelho, dissipou-as hoje quando classificou a intervenção do Tribunal Constitucional como um ‘risco interno’. link.

No Pontal, onde registe-se a ‘festa’ escasseou, foi possível ao País - através de uma larga cobertura mediática – assistir à grosseira manipulação de resultados recentes divulgados pelo INE sobre o crescimento do PIB no 2º. trimestre de 2013 link. Estes (resultados) mesmo que sendo só uns discretos e esporádicos ‘sinais’ bastam para politicamente confirmar o acerto dos caminhos prosseguidos pelo actual Executivo mas, simultaneamente, a prudência com que os próprios membros do Governo envolvem estes resultados deixa adivinhar que, no futuro, servirão também para dizer o seu contrário. 
Definitivamente, este Governo em termos de praxis política vive do paradoxo...

O AO de 1990 e as úlceras gástricas que provoca



Deve-se à República a Reforma Ortográfica de 1911, que veio colocar um módico de uniformização na língua portuguesa, onde a profunda anarquia era a regra. O objetivo mais lato era a alfabetização do povo com maior índice de analfabetismo na Europa. A ortografia foi, pois, um desígnio de particular relevância para a República e é uma discussão que tem toda a legitimidade e interesse.

A crispação dos que se lhe opõem contrasta com a serenidade usual de quem o defende ou, simplesmente, se conforma com uma matéria que parece estar prestes a transitar em julgado.

Publicaram-se dezenas de artigos contra o AO-90 sem merecerem reparo de quem agora se amofina com a posição divergente. Débeis princípios republicanos de quem se irrita com o contraditório (minoritário) quando, há 24 séculos, Demóstenes, na Oração da Coroa, já defendia a necessidade de se ouvirem igualmente ambas as partes.

Quem invoca o notável romancista Eça de Queirós, ao atacar o AO-90, jamais dever ter lido uma só página na ortografia em que ele escreveu os seus inesquecíveis romances.

Ser a favor ou contra o AO são posições igualmente legítimas, mas é a lei, não a lógica ou a etimologia, que fixa a ortografia correta. O AO-90 teve o mérito de ser amplamente discutido, antes de muitos adversários terem acordado para a sua contestação.

Mia Couto, um dos maiores escritores atuais, escreve páginas “abensonhadas” pelo seu génio criativo mas desconheço se o adjetivo entre aspas cabe na sanha conservadora dos adversários do novo AO.

Quando Dilma Rousseff, presidente da República do Brasil, pretendeu ser tratada por presidenta, levantou-se em Portugal um coro de protestos e de anedotas, mas ninguém se deu conta de que a palavra pode entrar, em breve, no nosso vocabulário. As ministras do atual Governo ainda são governantes mas as mulheres que gerem o quotidiano do lar já são tratadas por governantas. Sucede que as infantas são antigas na língua portuguesa e Blimunda, pela pena do Nobel do nosso contentamento, perto da página 100 do Memorial do Convento, esperava uma parenta.

Muitos dos que se opõem às alterações, em nome de uma improvável pureza da língua, deixaram dicionarizar, sem reparo, um erro que, à força de repetido, por ignorância, se transformou em vocábulo corrente, «organigrama», em vez do correto «organograma».

São legítimas, na minha opinião, a discussão e a opção. Intoleráveis são os tratos a que prevaricadores ortográficos contumazes submetem o verbo haver, o género de «grama», milésima parte de quilograma, diferente do da erva ruim, e a incapacidade de distinguir, v.g., entre contasse e conta-se ou entre corrigir-mos e corrigirmos.

Amar a língua é cuidá-la, sem execrar as alterações ortográficas a que não são alheios interesses económicos


sexta-feira, agosto 16, 2013

Diferentes maneiras de ‘perturbar’ autarquias…


Irão: Vereadora sexy não pode assumir cargo por ser demasiadamente bonita… link



Um problema que não teremos por cá a 29 de Setembro…

Por enquanto, temos o do cónego Melo, que nunca tendo sido eleito para qualquer cargo autárquico, nem sendo um esbelto Adónis, ao que parece ‘inspirou’ o(s) mandato(s) de Mesquita Machado e por ‘isso’ foi guindado a um ‘altar cívico’ na Bracara Augusta

Cada País – ou melhor cada religião – ‘fabrica’ os seus próprios problemas. Ou então constatamos que os problemas - embora diferentes - têm as mesmas ‘piedosas’ raízes…

Poiares Maduro e os ‘sábios’ academismos…

Governo cria Conselho de Sábios para promover a concorrência entre ministérios. Só os melhores projectos vão ser financiados… link

Em Coimbra conta-se uma história sobre um petulante professor que de regresso de um evento científico o relatou do seguinte modo: ‘Bem, na dita reunião só sábios éramos 20!’…
Esta prosápia encaixa-se no anúncio de Poiares Maduro quando anunciou o tal ‘conselho de sábios’.

Não vamos escalpelizar, nem escrutinar, as individualidades que se vão agregar no tal ‘conselho’. Vamos, antes disso, equacionar o que nos pode acontecer enquanto formos governados com ‘academismos’ deste tipo.

O ‘academismo’ é, na política, o palco preferido da retórica vazia de conteúdo social e ao mesmo tempo a tentativa de veicular uma ideologia (qualquer que seja) assente num abusivo prestígio que a Ciência tende a conferir. 
Conduz muitas vezes ao desenvolvimento de ‘modelos experimentalistas’ que por regra pouca relação têm com a multifacetada realidade (política, social, económica e financeira). Culturalmente, e na sua génese, tem uma influência remota (embora profunda) confundindo-se com a Renascença, de traço florentino, berço de múltiplas ‘academias’ que substituíram as medievais corporações, funcionando como a espinha dorsal de toda a futura construção humanística que só a 'pouco académica' Revolução Francesa , alguns séculos mais tarde, viria a concretizar. 

Na política, os ‘academistas’ tendem a ser prolixos, ‘livrescos’, rebuscados, cultores das ‘variáveis’ incontroladas ou incontroláveis (nomeadamente na área económica e financeira) mas em termos decisórios pouco eficientes ou produtores de soluções com confusos discernimentos e resultados incertos. No seguimento destes ‘atributos’ tendem a exprimir-se numa linguagem hermética, fechada e tecnocrática, pouco explícita ou compreensíveis para o vulgar cidadão e são máquinas infernais de citar estatísticas, gráficos, projecções e viciados em obtusos estudos comparativos muitas vezes sobre realidades dispares.

Têm uma especial atracção pelo formalismo, muitas vezes acopulado a um tipo esclarecido que vai da arrogância ao autoritarismo e frequentemente debitam rebuscadas explanações teoricistas com pouca (ou nenhuma) aderência à praxis. São ‘especialistas’ em divagar sobre complexas questões, afundam-se na especulação, mas manifestam uma confrangedora dificuldade em encontrar respostas práticas e acertadas. Esgotam muito das suas capacidades em ciclópicos processos de investigação, dominados pelas mais puras e abstractas formulações. São inveterados 'construturores de cenários'.

Tudo isto serve para evidenciar que o grupo de 15 ‘sábios’ link constituído para assessorar o ministro Poiares Maduro (também um ‘académico’) é pouco ou nada representativo da sociedade civil que, no terreno, terá a incumbência de ressuscitar a economia fazendo os investimentos oportunos e adequados, possibilitar a criação de emprego e cuidar de desenvolver projectos produtivos e economicamente viáveis. 
Se fosse necessário um exemplo para ilustrar o que atrás se mencionou basta observar a lista de ‘sábios’ publicitada e verificar, p. exº., que não encontramos aí alguém ligado do 'mundo do trabalho' ou movimento sindical. 
Mas as insuficiências não se ficam por aqui...

O Acordo ortográfico e os seus detratores

Os adversários da ortografia acordada já não serão vivos na assinatura do futuro tratado que necessariamente há de ocorrer na sã tentativa de unificar a língua que todos os dias assimila novos termos. O pragmatismo acaba sempre por vencer a vontade dos puristas e a argumentação dos eruditos.

Os adversários truculentos das atuais alterações não dizem o que pensam das anteriores e qual o critério para definir a transformação de um vocábulo corrente em arcaísmo.

Os zeladores da pureza idiomática lembram fidalgos arruinados a exibirem o brasão de família com as calças puídas na albarda de um burro, depois de lhes minguarem posses para ataviarem um cavalo puro-sangue.

Sendo a obsessão pelos costumes mais forte do que o pragmatismo, surpreende que a cruzada fique pelas últimas alterações e que os paladinos não tercem armas em defesa do português arcaico.

Concedo que é igualmente legítimo ser a favor ou contra qualquer AO, mas ninguém gostaria de regressar à ortografia anterior a 1911 e pala qual se bateram com inusitada violência, entre outros, Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa.

Pessoa escreveu no «Livro do Desassossego»:  «Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse».

E Teixeira de Pascoaes:
Na palavra lagryma, (...) a forma da y é lacrymal; estabelece (...) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio... Escrevel-a com ilatino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.


Na Reforma Ortográfica de 1911, Gonçalves Viana, Carolina Michaëlis, Cândido de Figueiredo, Adolfo Coelho, Leite de Vasconcelos, Gonçalves Guimarães, Ribeiro de Vasconcelos, Júlio Gonçalves Moreira, José Joaquim Nunes e Borges Grainha optaram pela fonética, à semelhança da Itália e da Espanha, em oposição à França, que preserva a etimologia. Talvez esteja aí a razão do declínio da sua língua, como todos notamos.

Em 1911, foram violentas as reações, como o provam os exemplos acima apontados, e ainda mais violentos no Brasil, mas o tempo veio confirmar a utilidade da aproximação entre o português do Brasil e o de Portugal.

Há, todavia, razões válidas para se contestar o AO mas é de grande infelicidade recorrer à palavra cágado que não deixou de ser esdrúxula e de ter o acento agudo obrigatório.


Ainda a estátua do cónego Melo

O cónego Eduardo Melo foi um ditoso membro do cabido da Sé de Braga, um homem de ação, com provas dadas no Verão “quente” de 1975. Sabíamo-lo ao serviço de Deus e da sua Igreja, da fé e da sua difusão, do clero e dos seus interesses.

 Coerente.
 Sem medos.
 Sem falsos pudores.
 Em explosões constantes de proselitismo.

Sabíamo-lo o braço armado da Providência e o guardião da moral e dos bons costumes. Com muitos como ele ninguém lamentaria hoje a mancha negra na História de Portugal, como Sua Reverência considerava, em muitos aspetos, o 25 de Abril. Só não sabíamos que a sua santa alma pudesse  explodir em desabafos de incontida admiração.

«O Dr. Salazar foi um estadista insigne, com um grande sentido de Estado e uma inigualável noção de autoridade »,  afirmou o Sr. Cónego Melo, defendendo outra vez um pulso forte como foi o dele.

 Se ninguém duvidava dessa admiração, desse respeito, dessa gratidão, o que terá levado um homem de tanta devoção e provas dadas ao serviço do divino a prestar essa pública homenagem?

Há uma explicação plausível.

Tendo Deus deixado de o ouvir, ao longo de mais de três décadas, foi perdendo a fé.

Valeu-lhe o Dr. Mesquita Machado para lhe erigirem uma estátua condenada ao destino de outra que esteve em Santa Comba Dão. Na cidade que ignorou Salgado Zenha, uma referência ética e patriótica da luta contra a ditadura e da consolidação da democracia, é altura de se erguer um memorial ao padre Max e à sua aluna Maria de Lurdes, vítimas do terrorismo fascista do MDLP, associação de que o cónego Melo era avençado.

Assim, quando uma estátua voar nos céus da cidade dos arcebispos, ficarão os nomes do padre Max e de Maria de Lurdes como símbolos dos sonhadores de utopias.


quinta-feira, agosto 15, 2013

O cónego Melo, a estátua e a desmemória

O funeral do cónego Eduardo Melo, da Sé de Braga, deu origem a uma importante concentração fúnebre. Uns foram para terem a certeza de que ficaram livres de uma testemunha incómoda, outros para prestarem homenagem ao homem que não hesitaria em defender a Igreja à bomba.

Não foi a devoção que o celebrizou, foi o poder que o tornou temido. A estátua que lhe erigiram não foi uma homenagem às ave-marias que rezou, às missas que disse ou à frequência com que sacava do breviário. Foi o pagamento de favores, das cumplicidades que teceu, do poder que tinha. Não era homem de andar de hissope em punho a aspergir beatas que arfavam à sua volta antes da Revolução de Abril, era um homem de ação. Do futebol à política. Do salazarismo ao MDLP.

O cónego Melo pode ter sido alheio ao assassínio do padre Max, cujo crime ficou impune graças a uma investigação pouco eficiente, mas presume-se que não o chorou.

Na morte teve a acompanhá-lo o inevitável presidente da Câmara, Mesquita Machado, o Governador Civil e um secretário de Estado, além de gente anónima que aproveitou os autocarros gratuitos para ir a Braga.

O bem-aventurado cónego, que nunca renegou a admiração por Salazar e a animosidade à democracia, foi a enterrar quatro dias antes do 25 de Abril que tanto detestava. Podia ter vivido até ao 28 de Maio. Era uma data mais grata à sua alma, um consolo para quem nunca se rendeu à democracia.

Finou-se no ano da graça de 2008 da era vulgar, com direito a um voto de pesar da AR, proposto pelo deputado do CDS, Nuno Melo, com a abstenção do PS e os votos contra do PCP e BE.

Bastaram 5 anos para esquecer o homem e perpetuar o cadáver. Agora, na inauguração, estarão o bem-aventurado Mesquita Machado e, quiçá, o canonizável Alpoim Calvão, um cheio de dinheiro, o outro cheio de medalhas, para admirar o bronze do homem com coração de ferro. A morte lava mais branco.

Ponte Europa / Sorumbático 

quarta-feira, agosto 14, 2013

COIMBRA – A Irmã Lúcia e a estátua


Junto ao Carmelo de Santa Teresa já está a escultura de bronze da sua antiga reclusa, a servir de argumento à freguesia da Sé Nova, para a campanha autárquica. Lúcia é para o PSD de Coimbra o que o cónego Melo é para o PS, sem honra, em Braga.

A vida desta mulher, a quem os padres educaram pelo catecismo terrorista, que havia de percorrer ainda a minha infância, é a metáfora do Portugal salazarista que fez de Fátima o instrumento contra o comunismo, depois de ter nascido para execrar a República e as suas leis, sobretudo as do divórcio, do Registo Civil obrigatório e da herética separação da Igreja/Estado.

Não sei se o terço é o demífugo mais potente mas sei que foi o instrumento de alienação do povo, durante a ditadura. Nas noites de maio presidia ao mês de Maria, à luz de uma candeia de azeite, um ancião da aldeia donde o homem que sou trouxe a criança que fui. Era ele que dirigia o terço, iniciava os mistérios, padres-nossos e ave-marias, que a Irmã Lúcia mandava rezar pela conversão da Rússia, sem esquecer os «nossos governantes» para quem suplicava iluminação e longa vida, atendendo o Céu apenas a parte final do pedido.

Hoje, a Irmã Lúcia, que, em vida, encarceraram no convento, veio em bronze ver a rua que lhe era vedada, exceto para votar em quem mandasse aquele que, segundo ela, foi o enviado da Providência, envio que muitos portugueses não perdoam.

A Ir. Lúcia foi íntima da Sr.ª de Fátima, que lhe deu a conhecer profecias e conceitos de geopolítica,  só a ela, enquanto a Jacinta só a ouvia e o Francisco não via nem ouvia, o que não os impediu de se terem adiantado no caminho da santidade com a ‘joit venture’ com que curaram Emília de Jesus, de uma paralisia intermitente, pouco antes de morrer perfeitamente curada.

A Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, Irmã Lúcia para os mais íntimos, volta a sentir o vento que na Cova da Iria a fustigava, enquanto orava e guardava cabras. Não será o vento livre, que vergava as azinheiras, onde a virgem saltitava, e que varria o chão do anjódromo onde o anjo poisou, travado pelas paredes grossas do Carmelo. Mas será de novo, na sua face de bronze, enquanto goza a eterna defunção e lhe preparam os dois milagres para a santidade, um regresso ao ar livre, donde tão cedo a retiraram, para a oferecerem à clausura.