Notas Soltas - Julho/2007
União Europeia – Iniciou-se a presidência portuguesa deste segundo semestre de 2007. O brilho depende dos funcionários e diplomatas calejados em duas presidências anteriores, ambas prestigiadas, agora sob a orientação de Sócrates.
Inglaterra – O terrorismo da al-Qaeda é um perigo global que exige vigilância policial dos Estados democráticos, mas é ingénuo pensar que o Islão tem o monopólio da violência e do proselitismo.
Saldanha Sanches – Depois de aceite o trabalho original pela universidade, é tão raro o chumbo na prova de agregação que fica a dúvida se foi julgado o académico, punido o cidadão ou maltratado o rival.
Portugal – Um país que faz comendadores ao ritmo a que o Vaticano faz santos corre o risco de agraciar pessoas que atropelam a cortesia e a gramática com a mesma destreza com que insultam a inteligência e a cultura.
Ensino – Persistir na recusa de exames que avaliem os conhecimentos dos alunos e, através deles, o desempenho dos professores, é condenar o sistema à mediocridade, o País ao subdesenvolvimento e a inépcia à impunidade.
Polónia – A liderança dos dois homozigóticos de extrema-direita não é apenas a desgraça do seu país, é uma fonte de perturbação e de vergonha para a Europa civilizada e democrática.
Vaticano – O retorno do latim à missa é uma cedência aos excomungados bispos da Fraternidade Sacerdotal de S. Pio X. Bento XVI ganha meio milhar de padres de extrema-direita e sofre a contestação de católicos fiéis ao Vaticano II.
ETA – O terrorismo basco preocupa e justifica o aumento da repressão, tão ao gosto do PP, mas o perigo maior é o terrorismo internacional de cunho islâmico que causou o maior atentado na Europa e ameaça as democracias e a civilização.
Pensamento Único – A Congregação para a Doutrina da Fé, ao definir a Igreja Católica como a única verdadeira, irritou a concorrência e atestou que todas as religiões são falsas, menos uma. Na melhor das hipóteses.
Câmara de Lisboa – Toda a oposição quis fazer do acto eleitoral um referendo para punir o Governo e condenar a Ota pelo que a vitória de António Costa premiou Sócrates e acabou por legitimar a localização do aeroporto na Ota.
PSD – A humilhação eleitoral, atrás de Carmona Rodrigues, obrigou Marques Mendes a antecipar as eleições internas e impede a direita de beneficiar do desgaste do Governo em fase de forte descontentamento social.
CDS – Depois de ter trocado com o PCP a 3.ª pela a 4.ª posição, na Madeira, e de ter sido corrido da Câmara de Lisboa, Paulo Portas continua o líder porque só conhece a primeira pessoa do singular do presente do indicativo dos verbos ficar e voltar.
PCP – Foi o outro vencedor das eleições, tendo conservado os dois vereadores e ficado na melhor posição para capitalizar a contestação ao Governo.
PS – As excursões rurais a Lisboa, para celebrar a vitória, foram um espectáculo pífio que o partido devia dispensar a bem da decência e da pedagogia política.
Carvalho da Silva – O doutoramento do líder da CGTP não é um mero caso de sucesso académico, é um exemplo de tenacidade e competência de quem aprendeu nas lutas que travou o valor da perseverança e o sabor da vitória.
Santana Lopes – Ele anda por aí a hesitar entre um novo partido e uma segunda oportunidade no PSD cuja credibilidade Durão Barroso e ele próprio delapidaram.
Manuel Monteiro – Depois da tentativa falhada do PND aguarda a oportunidade do regresso ao CDS, mas a mesma água não costuma passar duas vezes debaixo da mesma ponte.
Luís Filipe Meneses – Vale a pena repetir o populismo de Santana Lopes pois quem ganhar as directas, em fins de 2007, vai poder escolher os candidatos a deputados da próxima legislatura.
Madeira – As reiteradas provocações à legalidade democrática prosseguem com a lei da IVG. Espantoso é o alvitre do PR a sugerir, primeiro, o recurso aos Tribunais, e, depois, o diálogo entre o Governo e Jardim, como se a lei – promulgada pelo PR –, fosse negociável.
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Saramago – A provocatória profecia da Ibéria (entrevista ao DN) foi o pretexto para insultos amassados com ódio, anticomunismo primário e nacionalismo estreito de quem não leu o enorme escritor e de outros que queriam aprisionar-lhe a alma

Comentários
O seu alinhamento incondicional ao PS, tem merecido, com razão, forte reprovação.
CE, assim está melhor, parabéns.
Luís Veiga
A da ibéria, de Saramago, na entrevista ao DN, já não é nova – veja-se ou leia-se a Jangada de Pedra. Naturalmente o acto provocatório presta-se a reacções destemperadas, tanto ou mais insanas que a causa delas.
Não quero retirar-te alguma razão que tens no que disseste. Mas perdes essa razão pela forma como dizes, ao falar «apenas» (sublinho
«apenas») de "insultos amassados com ódio, anticomunismo primário e nacionalismo estreito de quem não leu o enorme escritor e de outros que queriam aprisionar-lhe a alma". Isso é, Esperança, reduzir a este pensamento de Saramago aqueles que dele discordam mas não o odeiam, admiram o autor que é – mesmo que não de modo absoluto –, não padecem de anticomunismo, são seus correligionários, atestaram não sofrer de nacionalismo estreito – tão caro ao Botas e seus descendentes – quando lutaram contra o fascismo e contra a Guerra Colonial, leram, ao menos, parte da sua obra, reconhecem-no como autor de vários muito valiosos títulos e não querem a sua alma aprisionada para nada, que para nada lhes serviria. Com a alma aprisionada Saramago nunca teria escrito o Memorial do Convento ou Levantados do Chão, os seus expoentes máximos, digo eu. É como se quase quisesses impor, ao falar assim, sem dizer mais, o "dever" de se dobrar o cachaço à provocatória sentença saramaguiana duma ibéria que, presumo sem grande receio de errar, seria do seu agrado – e demais uns tantos, esses alinhados muito à nossa direita e de Saramago, numa sangrenta cruzada pelo neoliberalismo contra o mundo do trabalho e da justiça –, talvez por indução da sua "costela" espanhola, sabe-se lá! Ora, meu caro Esperança, ambos sabemos, e muitos outros também, que a tua cultura, a tua personalidade, a tua ética, o teu horror ao pensamento singular te impedem tal intenção.
Concordar, eu, com uma tal profecia, ou vontade expressa sob forma profética, só porque esses que tu invocaste são o que são e procedem como procedem? Ou concordar, eu, que os exames nacionais, por exemplo, não devem existir só porque um tal PP (bem sabemos em que moldes e com que objectivos) os defende? Ou, inversamente, defender, eu, que os tais exames não devem existir só porque outrem também deputado os considera castigos? Não, também ambos sabemos que isso não.
Eu permito-me discordar deste e doutros pensamentos (ou vontades) de Saramago e critico-o por eles. E tenho pena que Saramago, de vez em quando, deixe resvalar o martelo do ferreiro para a ferradura, onde qualquer um atina facilmente. E não me encaixo em nenhuma das categorias que referiste. Também ambos sabemos isso.
Não terás expresso muito bem o teu raciocínio. Ou eu não fui capaz de o compreender.
Luís Veiga
Tu, de facto, pertences a uma categoria que está omissa mas, acredita, não a julgo relevante em termos numéricos.
De resto, conhecendo a tua coerência, não me surpreende que estejas na ínfima minoria que, por mero acaso, parece estar do mesmo lado da barricada dos que referi.
E conheço as diferenças. Para melhor. A teu favor.
Exemplo acabado de imaginação, mas muito fértil!!!
«Exemplo acabado de imaginação, mas muito fértil!!!»
Embora não acredite que algém use o nome próprio de Engenheiro, sempre lhe digo que pelas ondas de choque no PSD e no CDS nunca tão escassa vitória deu origem a tão devastadora derrota.
Uma força que fica em sexto lugar, que teve menos votos que em 2005, forçar o partido que ganhou a acordos ditatoriais...vergonhoso!
A sua insitência em persiguição é rídicula.
Veja o CV do seu parceiro André Pereira que ainda só é assitente (https://woc.uc.pt/fduc/person/ppgeral.do?idpessoa=63) com o de Saldanha Sanches (http://www.fd.ul.pt/docentes/docente-cv.asp?docentes_id=43)
Veja a internacionalização do seu colega, compare-a com a de Saldanha Sanches. Repare tb qq SS publica em revitas das quais é o director (será que os artigos são mesmo bons, ou ???).
Hoje a agregação não é ganha com entrevistas À TV onde diz mais das vezs barbáries económicas, mas sim com actividade cintífica que extravase as fronteiras do país e sobretudo nunca com publicações em revistas onde é director, enfim...
... SS é na verdade um pensador com pés de barro.
"O Governo Regional dos Açores "recusa-se a pagar para arrancar vinhas e não vai seguir a política da União Europeia (UE) nesse domínio", garantiu hoje uma fonte da Secretaria Regional da Agricultura e Florestas"
in Publico.
Pois bem se Portugal transpôs a directiva para o direito nacional (e se não o fez terá de o fazer), então o governo açoriano prepara-se para contrariar uma lei de república.
Não sendo o aborto parece não ser grave, mas é-o, pois mostra a que o país chegou: uns cumprem as leis, outros não, destes alguns são insultados outros não.
Lobbies em acção.
Como todos os argumentos até agora apresentados a favor da Ota: não são razoáveis, mas não se arranjam melhores.
Limitei-me a assinalar o que julgo um erro de cálculo das oposições a António Costa.
Limitaram-se a atacá-lo por ser solidário com o Governo e por aceitar a Ota.
Os resultados provaram que os argumentos não foram felizes. E, quando assim é, viram-se contra quem os utiliza.
Quem era contra a Ota tinha razões para votar PSD e não PS.
Contudo, a derrota do PSD nada prova em relação à opinião dos lisboetas sobre a Ota, como a sua vitória nada provaria. A vitória do PSD apenas poderia trazer para a presidência da CML alguém que estivesse mais interessado em defender a cidade do que em defender o governo.