Notas soltas: Maio/2010

1.º de Maio – Tudo se conjugou para transformar a festa dos trabalhadores num pesadelo que a crise aprofundou, com desemprego, precariedade e redução dos salários reais num clima de incerteza e de medo.

Força Aérea – O Plano de Defesa Aérea para a visita de Bento XVI, com uma zona de interdição para abater qualquer intruso que apareça no céu, afigura-se um excesso para quem corre mais riscos no Vaticano do que na visita a Portugal.

Helmut Kohl – O velho chanceler alemão, homenageado no 80.º aniversário, foi um grande estadista do século XX e dos mais empenhados europeístas num espaço de solidariedade política, económica e social. Não esqueceu a guerra.

Reino Unido – A ausência de uma maioria clara colocou o país pela primeira vez, em muitos anos, com um governo de coligação e incertezas políticas quanto ao cumprimento da legislatura.

8 de Maio – No dia em que os nazis se renderam aos exércitos aliados, e findou o mais cruel e demente plano genocida dos tempos modernos, parece esquecida a data e o pesadelo que custou a vida de milhões de pessoas vítimas do racismo e da xenofobia.

Pílula – Em 9 de Maio de 1960 as autoridades americanas aprovaram o uso que permitiu às mulheres investirem na formação e apostarem numa carreira profissional. Há 50 anos este milagre da ciência mudou radicalmente a vida de milhões de mulheres e abriu as portas à igualdade de género.

Tolerância de ponto – O oportunismo e o carácter terceiro-mundista da decisão é a metáfora do estado a que chegou o respeito pela laicidade do Estado, pela ética e pela Constituição da República, em época de crise económica de contornos assustadores.

Bento XVI – São conhecidas as posições da Igreja católica sobre o aborto e os casamentos homossexuais mas aproveitar a visita para condenar as decisões soberanas do país anfitrião é uma atitude de quem julga viajar num protectorado.

Baltasar Garzón – O Conselho Geral do Poder Judicial (CJPJ) suspendeu o juiz por investigar assassinatos franquistas. O CJPJ decidiu manter a prescrição de crimes contra a humanidade e saneou o mais corajoso dos magistrados. Uma afronta.

Casamento gay – A promulgação da lei, pelo PR, com a desculpa da crise e um discurso ressabiado, revelou mais uma vez que o candidato à reeleição não se conforma com a AR e o TC quando o contrariam. Quereria chamar matrimónio ao casamento de indivíduos do mesmo sexo?

ETA – A prisão dos novos chefes terroristas tem sido mais rápida do que a sua capacidade para organizar atentados. A colaboração das polícias francesas e portuguesas tem mostrado uma surpreendente e auspiciosa eficácia.

Nicolau Copérnico – Exumado 467 anos após a morte, o célebre astrónomo que Paulo V condenou, pela teoria heliocêntrica, oposta aos Evangelhos, foi trasladado com pompa e cerimónias pias para um imponente sepulcro da catedral de Fromborg. E a Terra não será jamais o centro do Universo.

Ciência – A criação da primeira célula controlada por um genoma sintético é um triunfo inaudito da ciência, que permite a esperança de produzir biocombustíveis, retirar poluentes da atmosfera ou produzir vacinas.

Coreia do Norte – A mais obscura ditadura do planeta, onde milhões de pessoas morrem de fome e a bomba atómica é o orgulho do bando dirigente, transformou a exótica monarquia «comunista» numa ameaçadora incógnita para a paz no mundo.

África – A maior parte das colónias francesas e inglesas comemora este ano meio século de independência enquanto as portuguesas se tornaram independentes há 35 anos. Há uma década e meia de tragédia colectiva que o fascismo luso nunca julgou.

Siza Vieira – Em tempos venais, o genial arquitecto é afastado da transformação do Forte de Peniche em pousada por discordar da criação de mais dois pisos e do apagamento da memória histórica da prisão política. Grande criador e referência ética!

Submarinos – A compra de dois submarinos (um para subir, outro para descer) foi um desastre cujos encargos continuaremos a pagar no futuro. Não sei se a decisão se deve à vocação marítima de Portas, à vaidade dos almirantes ou à gula do CDS.

CDS – A subida sustentada das intenções de voto no PSD tem a consequência de reduzir a popularidade da sua muleta natural. A saída de democratas que fundaram o partido e o medo que ainda inspira a sua matriz salazarista estão na origem da queda.

Assembleia da República – A utilização de uma comissão de inquérito para averiguar questões menores – o caso TVI-PT –, sem ter em conta o tempo e os recursos gastos, num mero ajuste de contas político, terminou sem resultados e constitui um sério revés para o prestígio do Parlamento.

Círculos uninominais – Abriu a campanha para novo modelo eleitoral. É um convite ao caciquismo e a tentativa de eliminar pequenos partidos. Aos muitos círculos uninominais prefiro um único círculo nacional. Direi não às alterações para pior.

TGV – Seria uma lástima que Portugal se isolasse da rede europeia de alta velocidade numa recorrente sedução pelo «orgulhosamente sós» de triste memória.

Remunerações – Em época de crise é obsceno que alguém receba no conjunto – vencimento e reformas pagas pelo Estado – valor superior ao vencimento do Presidente da República, incluindo ele próprio.

Comentários

e-pá! disse…
A estas "Notas soltas" de Maio de 2010, não seria de incluir a primeira grande manifestação - realizada no dia 29 - contra as medidas de austeridade para fazer face à crise 2008-10?

Não foi uma manifestação que vá mudar a face, ou o rumo, à profunda crise que fustiga o País atingindo, selectivamente, os mais desfavorecidos e, ainda, de largos sectores da debilitada [económica e socialmente]"classe média".

Este público protesto demonstrou que, muito embora, os cidadãos reconheçam a necessidade de enfrentar a presente [e já longa...] crise financeira, que atingiu profundamente a economia real, lançando para o desemprego grande número de portugueses e portuguesas, este combate pela recuperação deve ser "pensado" num quadro de medidas socialmente mais justas e equitativas.

Perante a actual situação de tensão social - como a que estaremos a viver - o autismo das forças sociais e do Governo, não será um bom caminho, e muito menos, uma solução equilibrada e tranquilizante.
Tanto mais que, como corrolário dessa manifestação, deve-se concluir que, as soluções já desenhadas nos PEC's [primitivo e posteriormente "agravado"], se acaso, forem [ainda] insuficientes, será necessário pensar noutro tipo de medidas que poupem os já "sacrificados". Isto é, a lição deste último sábado, no essencial, revelou: existem sectores sociais à beira da exaustão...

Se os poderes públicos persistirem na mesma senda, repetindo "soluções fáceis" [aumento das receitas, cortes nas prestações sociais, etc.], empenhando o presente e o futuro dos mais vulneráveis, estaremos no limiar de rupturas sociais cuja dimensão - neste momento - é dificil de avaliar.
E-Pá:

Por necessidade de antecipar a edição do jornal «Praça Alta» para o qual estas «Notas Soltas» são escritas, foram enviadas no dia 28, data anterior à manifestação.

Isto não significa, no entanto, que tenhamos sobre o acontecimento a mesma leitura, apenas reconheço a sua indiscutível importância.

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