A praga do "hooliganismo"…

Domingo, um clássico derby do futebol nacional - o desafio Porto-Benfica - mostrou ao País uma preocupante imagem de crispação e violência.
De facto, os portugueses presenciaram – graças ao mediatismo que impregna o futebol - uma inqualificável demonstração de confrontos seriados e organizados.
Apesar do aparato policial envolvido muitos portugueses começam a interiorizar a noção de que os jogos de futebol envolvem impressionantes riscos, no que diz respeito à segurança pessoal.
O banal entretenimento de, ao fim de semana, “ir à bola”, divertir-se e conviver, transformou-se num autêntico pesadelo.

É difícil compreender o fenómeno que, desde a década de 80, vem inquinando o futebol profissional (de alta competição) – o “hooliganismo”.

A tese de que os hooligans são jovens aguerridos que se movimentam pela violência gratuita, sem amarras ao futuro, socialmente desinseridos, grande parte deles oriundos de estratos sociais carenciados onde o desemprego floresce, para quem o culto de um “fanatismo clubista” será uma fuga aos desaires pessoais e profissionais, parece aceitável, mas não justifica “tudo”.
E, “tudo” começa num contexto absolutamente datado. Em Inglaterra, no estertor da época industrial, onde um enorme vazio “preencheu” (passe a contradição) a vida de muitos jovens, alienando-os da convivência social e do exercício da cidadania.

Sabemos que, em Portugal, como de resto em muitos outros Países, o futebol funciona como uma válvula de escape de recônditas frustrações sociais. É a famosa teoria – debatida à saciedade nos tempos da ditadura - dos 3 F’s: Fátima, Fado & Futebol.

Todavia, esta “mansidão alienadora” foi sendo substituída por uma inaudita violência, estimulada por um forte e descontrolado espírito de grupo. Nascem, assim, as “claques” para todos os gostos e feitios, cuja actividade não se circunscrevem ao apoio ao "seu" clube. Hoje, antes dos jogos, deliciam-se em manobras provocatórias e sustentam infindáveis guerras verbais, através de sites na Net, para "acirrar" os ânimos ...

A pergunta que se impõe é, na realidade, outra. Se essas descontroladas “energias”, estes impulsos tumultuosos não tivessem como palco o estádio, brotariam noutros locais?
Por exemplo, no ambiente familiar onde, apesar do futebol, a violência persiste em níveis intoleráveis, ou nos cafés de bairro, substitutos das velhas tertúlias onde, nos tempos actuais, se gizam brilhantes tácticas ganhadoras, pontificam os “treinadores de bancada” e onde se ingere muito álcool…

Na realidade, o “hooliganismo” é indissociável de um complexo padrão exibicionista, cheio de belicosos e aguerridos rituais, que informam, e exibem-se, numa determinada faixa etária e já não se circunscrevem aos estádios. As cenas de depredação e de vandalismo gravitam, indiscriminadamente, à volta de tudo o que mexe – bombas de gasolina, acessos aos recintos, estações ferroviárias, bares, etc.

Mas o hooliganismo será, também, fruto da adulteração empresarial do fenómeno desportivo que acabou por matar o ancestral “espírito associativo”, substituindo-o por SAD’s. O negócio empresarial a suplantar a afectividade clubista. Este “desvio vocacional” teria, necessariamente, de ter consequências…difíceis de controlar.

As medidas preventivas em vigor – uma base de dados de pessoas interditadas da frequência dos recintos desportivos e o registo obrigatório dos elementos que compõem as “claques” – não têm funcionado. Nem, conseguem iludir o gigantesco aparato policial que tem de ser sistematicamente montado para manter a ordem. A repressão substitui a prevenção.

Na actualidade, os jogos de futebol, não são definidos, ou avaliados, como excepcionalmente bem jogados, equilibrados, emotivos, etc., mas, sim, de alto, médio e baixo risco (de confrontos).
A continuar nesta senda, o futebol, a breve trecho, deixará de ser um desporto de “multidões”.
Nenhum pacato adepto de um clube “arrastará” um filho, um amigo ou um colega, para estes novos antros de violência e de insegurança …

Comentários

Uma reflexão que devia ser feita por cada um de nós e por todos os portugueses.

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