Generais ou militares de caserna

Trinta e seis anos depois de Abril ainda há generais convictos de que a guerra colonial era uma instituição de beneficência a favor dos povos que a ditadura oprimia ou, então, cidadãos a quem mingua o discernimento o sobra ódio.

Que inveterados fascistas e ignorantes primários se convençam de que a guerra foi justa, é próprio de quem tem défice de massa encefálica e de pudor, mas que generais das Forças Armadas de um país democrático afinem por tal diapasão é uma vergonha para quem lhes atribuiu as estrelas e as funções.

Na véspera da apresentação da candidatura de Manuel Alegre ouviram-se dislates que o mais básico dos retornados já não repete. Pareciam avatares da brigada do reumático que foi prestar vassalagem a Marcelo Caetano. Só gente desta confunde a luta contra o colonialismo a partir da Rádio Argel com o apoio aos talibãs.

Não admira que Vieira Matias tenha chegado a CEMA, o Conde D’Abranhos chegou a ministro da Marinha, mas surpreende-me que o velho marinheiro possa ter insinuado cobardia a Manuel Alegre quando desertar era mais difícil do que ficar. Quem dera ao almirante metade da coragem de Manuel Alegre! E não falemos de cultura porque pode puxar da espada.

Que o tenente-coronel Brandão Ferreira não distinga uma ditadura de uma democracia é natural. Nas numerosas cartas que envia para os jornais nunca notei que percebesse a diferença, mas que o almirante Vieira Matias, que comandou a Armada em democracia, afirme sem vergonha que "Fomos os maiores protectores daquela gente [as populações negras das então colónias ultramarinas]" é mais próprio de um cabo readmitido do que de um almirante. Devia recordar os crimes cometidos pelas forças armadas coloniais.

Confundir a luta contra o colonialismo com o apoio ao terrorismo é de quem é capaz de insinuar a cobardia alheia sem coragem de a referir frontalmente, é a voz de um cabo de guerra que nasceu no século errado e devia ter sido ajudante de campo de Paiva Couceiro.

Finalmente comparar os guerrilheiros da FRELIMO, do PAIGC ou do MPLA com os fascistas islâmicos é de quem confunde os patriotas que libertaram os seus países com os trogloditas que querem submeter o mundo ao Islão – os talibãs.

Comentários

ana disse…
Já poucas coisas me espantam, mas esta é uma das que não consigo engolir. Como é que esta gente está nos cargos em que está? Em 36 anos não se conseguiu filtrar, não se quis? Quem respeita a democracia tem os mesmos direitos que aqueles que apenas se servem dela? Fazem boa parelha com cavaco, que está onde está graças ao 25 de Abril e ainda assim morde a mão que lhe dá de comer.
VICTOR disse…
Caro
Todas as generalizações podem originar erros. Numa perspectiva "material", nem a guerra colonial se limitou a provocar dano aos colonizados (tem muitíssima razão Vieira Matias), nem fomos sempre meninos de coro (tem também o senhor razão). Mas seria bom tentar ver a dimensão de cada uma dessas acções-limite: agrada-me pensar que fizémos mais bem que mal (aqui não incluo os factores sociológicos de dominante-dominado). Inclino-me mais para Vieira Matias que para si. Também o seu julgamento de Vieira Matias, com base nestas simples afirmações, está eivado de exagero. Tenha calma: do que conheço, é um verdadeiro militar, ainda que tão humano quanto eu ou o senhor.
Sobre o tema "risco de desertar", talvez pudesse fazer uma estatística simples e dizer, destes, quantos morreram e dos que aguentaram, quantos morreram. Nem a estatística o safará!
Porque a questão mantém-se: quem mais contribuiu para o fim de um regime repressivo e estupidificante? Quem desertou ou quem enfrentou o regime, nas várias tentativas goradas e, na final - que apelido de gloriosa - do 25 de Abril?
Arriscavam o pêlo ali, mesmo ao lado das armas da PIDE, das armas da GNR acomodada, do generalato agradecido e colaborante.
Tudo isto é passado. Talvez hoje tenhamos que nos dedicar a outras coisas mais importantes, mas a História não deve ser enviesada. Começa a ser tempo de valorizarmos as nossas qualidades e defeitos, construtivamente. Mas cuidado com as extrapolações!

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